Liderar implica hoje saber lidar com a incerteza, gerir
emoções e criar condições para que as equipas possam pensar, questionar e
decidir. Para Tiago Pimentel, membro da Direção da Ordem dos Psicólogos
Portugueses (OPP), inteligência emocional, empatia e segurança psicológica têm
um papel decisivo na forma como as pessoas trabalham e colaboram. Esta questão
também se mede em resultados, uma vez que, de acordo com este responsável, o stress
e os problemas de saúde psicológica podem custar às empresas portuguesas até
5,3 mil milhões de euros por ano em perda de produtividade.
Liderar equipas em ambientes de incerteza exige novas
competências psicológicas? Que características distinguem os líderes mais bem
preparados?
Exige, pelo menos, uma maior sofisticação das competências
psicológicas. A incerteza pede líderes capazes de regular as suas próprias
emoções, pensar de forma sistémica, tolerar ambiguidade, aprender rapidamente e
comunicar com clareza mesmo quando não têm todas as respostas. A liderança nos
tempos de hoje consubstancia a capacidade de criar segurança suficiente para
que a equipa continue a pensar, experimentar e decidir, e não a arte de se
parecer sempre seguro. Os líderes mais bem preparados têm humildade para ouvir,
coragem para decidir, disciplina para priorizar e maturidade emocional para não
transformar a sua ansiedade em pressão disfuncional sobre a equipa.
A
investigação mostra que competências como inteligência emocional, empatia e
comunicação influenciam o desempenho das equipas. Porque ganharam estas
competências tanta importância nas organizações?
Atualmente,
muitas equipas trabalham em rede, em modelos híbridos, sob pressão, com elevada
interdependência e em constante mudança. O desempenho não depende apenas do
conhecimento técnico, mas também da capacidade de coordenar esforços, resolver
conflitos, dar feedback, regular a tensão e manter o foco coletivo. A
evidência mostra que a inteligência emocional dos líderes está associada a
melhores resultados dos colaboradores, incluindo desempenho, satisfação e
comportamentos de cidadania organizacional. A segurança psicológica ganhou
significância porque permite às pessoas falar sobre erros, riscos e dúvidas sem
medo de penalização, o que é crítico para a aprendizagem, a inovação e a
qualidade da decisão.
O desenvolvimento das competências comportamentais pode
ser ensinado numa sala de aula?
Pode começar numa sala de aula, mas não se esgota neste
contexto. A formação executiva eficaz deve combinar conhecimento, prática, feedback
e transferência para o contexto real de trabalho. Competências como empatia,
comunicação, gestão de conflito ou feedback não se aprendem apenas
ouvindo conceitos; treinam-se através de simulações, role-play, análise
de casos reais, feedback 360º, coaching, reflexão estruturada e
compromissos comportamentais acompanhados no tempo. A evidência sobre transferência de formação mostra que
as competências comportamentais são objeto de melhor apropriação quando há
prática deliberada, feedback, apoio da gestão, objetivos de aplicação e
reforço pós-formação. Ou seja, a sala de aula é importante, mas deve ser
entendida como laboratório de treino, não como momento isolado de inspiração.
A formação executiva que existe nas escolas dedica espaço
suficiente ao desenvolvimento destas competências?
Tem havido evolução, mas eu diria que ainda não é suficiente
– sobretudo se compararmos o peso destas competências no sucesso real dos
líderes com o espaço que muitas vezes ocupam nos currículos. A formação
executiva continua, muitas vezes, demasiado centrada em estratégia, finanças,
operações, tecnologia e ferramentas de gestão, tratando as competências
comportamentais como módulos complementares. O desafio não é apenas acrescentar
uma disciplina de liderança ou comunicação. É integrar o desenvolvimento
comportamental em todo o percurso: estratégia com tomada de decisão sob
pressão, finanças com ética e influência, transformação digital com segurança
psicológica, inovação com gestão do erro, e gestão de pessoas com saúde
psicológica e desempenho sustentável.
O bem-estar psicológico das equipas tornou-se um fator de
competitividade para as organizações? Que papel desempenham os líderes nesta
realidade?
Sim, o bem-estar psicológico deixou de ser apenas uma
preocupação social ou de recursos humanos; tornou-se uma variável de
competitividade. Equipas com maior bem-estar tendem a ter melhor energia, menor
absentismo, menor presentismo, maior cooperação, melhor tomada de decisão e
maior capacidade de adaptação. A OPP estima que o stress e os problemas
de saúde psicológica podem custar às empresas portuguesas até 5,3 mil milhões
de euros por ano em perda de produtividade, e que a prevenção pode gerar uma
poupança anual próxima de 1,6 mil milhões de euros. Aqui, o papel dos líderes é
central, porque são eles que influenciam a carga de trabalho, previsibilidade,
autonomia, justiça, reconhecimento, comunicação e resposta ao conflito.
A
formação executiva eficaz deve combinar conhecimento, prática, feedback
e transferência para o contexto real de trabalho.
Tiago Pimentel, membro da Direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
O que
distingue um bom gestor de um bom líder do ponto de vista da Psicologia?
Um bom
gestor garante organização, planeamento, processos, indicadores, recursos e
execução. Um bom líder influencia significado, confiança, motivação,
aprendizagem e compromisso. A diferença não está no cargo; está no tipo de
impacto psicológico que a pessoa produz nos outros. Do ponto de vista da
Psicologia, liderar é influenciar comportamentos, emoções, perceções de
justiça, identidade coletiva e sentido de eficácia. Um bom gestor pode
assegurar que o trabalho acontece; um bom líder cria condições para que as
pessoas queiram contribuir, aprendam com a experiência e sustentem desempenho
em ambientes difíceis. Nas organizações atuais, a questão não é escolher entre
gestão e liderança, até porque os executivos precisam das duas.
Que
erros continuam muitos líderes a cometer na gestão das pessoas, apesar da
evolução do conhecimento nesta área?
Um erro
recorrente é continuar a gerir pessoas como se fossem apenas recursos
produtivos, e não sistemas humanos com limites, necessidades psicológicas,
motivações e relações. Outro erro é confundir controlo com liderança: aumentar
reuniões, métricas e pressão sem criar clareza, autonomia ou confiança. Isso
pode produzir obediência de curto prazo, mas raramente produz compromisso
sustentável. Também continua a haver líderes que intervêm tarde demais: só
reagem quando há burnout, conflito aberto, quebra de desempenho ou saída
de talento. A evidência e as recomendações da OPP apontam no sentido contrário:
avaliar riscos psicossociais, prevenir, promover saúde psicológica e
desenvolver práticas de liderança eficazes antes de os problemas se tornarem
críticos.
Quais são hoje os maiores mitos sobre liderança que
continuam presentes nas organizações, apesar de a evidência científica
dizer o contrário?
Um dos mitos mais persistentes é a ideia de que a liderança
resulta sobretudo de características inatas: como se algumas pessoas “nascessem
líderes” e outras não. A investigação em psicologia mostra uma realidade mais
interessante: há traços que podem facilitar o exercício da liderança, mas
liderar bem depende de comportamentos observáveis, competências treináveis,
maturidade relacional e capacidade de adaptação ao contexto. Outro mito
frequente é o de que o líder eficaz tem de ser sempre forte, seguro e ter
respostas imediatas. Em contextos complexos, essa imagem pode até ser
contraproducente. Os líderes mais eficazes são muitas vezes os que sabem
escutar, fazer boas perguntas, reconhecer incerteza e mobilizar a inteligência
coletiva da equipa. Há também o mito de que empatia é sinónimo de
permissividade. Não é. Empatia, do ponto de vista da liderança, é a capacidade
de compreender as pessoas, os seus estados emocionais e as suas necessidades,
sem abdicar de clareza, exigência e responsabilidade.
Um erro recorrente é continuar a gerir pessoas como se fossem apenas recursos produtivos, e não sistemas humanos com limites, necessidades psicológicas, motivações e relações.
Tiago Pimentel, membro da Direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses.