Durante
décadas, a formação executiva preparou gestores para responderem às mudanças.
Hoje, a mudança acontece tão depressa que pode ultrapassar a própria formação
que pretende acompanhá-la. Para José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte
Executive Education, a resposta passa por aceitar que um programa executivo não
pode ser tratado como um produto acabado. “Um programa executivo não pode ficar
imutável durante três ou quatro anos. Tem de ser revisto em permanência”, diz.
Conteúdos, casos e ferramentas têm de acompanhar uma realidade empresarial que
também não para.
Significa
que a aprendizagem deixa de ser um momento isolado na carreira e passa a exigir
atualização contínua. Programas modulares, conteúdos vivos e uma relação mais
próxima com as empresas tornam-se, por isso, importantes para que a formação
acompanhe problemas que estão constantemente a mudar. E é precisamente aqui que
surge uma questão que a inteligência artificial veio tornar ainda mais
evidente: se a informação está hoje disponível de forma quase imediata, o que
deve procurar um executivo numa formação executiva?
Um
gestor pode recorrer a ferramentas de IA para pesquisar, comparar informação,
analisar dados ou obter respostas em segundos. A tecnologia reduziu a distância
entre uma pergunta e uma resposta. Mas não eliminou a necessidade de perceber
se a resposta faz sentido. É neste espaço que José Crespo de Carvalho situa o
valor de uma business school. “O valor está na seleção, no contexto, no
confronto de ideias, na exigência, na tomada de decisão em caminhos que até
podem ser contrários, no pensamento crítico e numa profunda aplicação”, refere
o responsável.
A
formação ganha valor quando junta diferentes experiências na mesma sala,
confronta perspetivas e obriga a discutir problemas para os quais nem sempre
existe uma resposta evidente. “A IA responde. A escola desafia a pergunta,
testa a resposta e confronta o participante com outras perspetivas”, acrescenta
José Crespo de Carvalho.
O regresso do pensamento crítico
Se a
tecnologia facilita cada vez mais a obtenção de respostas, a capacidade de
fazer boas perguntas e avaliar criticamente aquilo que se recebe torna-se ainda
mais relevante. De acordo com o responsável, “um executivo tem de saber
questionar, comparar, interpretar e decidir. A inteligência artificial pode
acelerar muito. Mas não pode substituir discernimento. Decisão. E
responsabilidade.”
O
ponto é particularmente relevante num momento em que a IA deixa de estar
confinada aos departamentos tecnológicos e começa a entrar diretamente no
negócio. E essa mudança ajuda também a explicar as competências que as empresas
estão a procurar para a formação dos seus executivos.
Da tecnologia para o negócio
Inteligência
artificial, liderança, dados, finanças, vendas, transformação digital e gestão
de operações estão entre as áreas com maior procura, segundo José Crespo de
Carvalho. À primeira vista, são áreas distintas, mas na verdade estão ligadas
pelo mesmo problema: as empresas precisam de aumentar a produtividade, crescer,
adaptar-se e tomar melhores decisões. A inteligência artificial atravessa
grande parte destas dimensões e deixa de ser um assunto exclusivamente
tecnológico.
Essa
mudança altera também o perfil de competências que pode fazer a diferença nos
próximos anos. Mais do que dominar uma ferramenta específica, será necessário
saber combinar tecnologia e conhecimento do negócio com capacidade de
julgamento e de mobilização de pessoas.
A
mesma lógica ajuda a explicar aquilo que, segundo José Crespo de Carvalho, o
mercado internacional está a valorizar na formação executiva: consistência,
proximidade, aplicação e impacto. A experiência dos participantes, a qualidade
docente, a diversidade internacional e a capacidade de acompanhar aquilo que
foi aprendido também pesam. “Lá fora olha-se muito para os resultados, para a
experiência e para a capacidade de transformação”, afirma o responsável.
A inteligência artificial pode acelerar muito. Mas não pode substituir discernimento.
José Crespo de CArvalho, presidente do Iscte Executive Education.