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A outra face do arquipélago

Os prémios chegam todos os anos. Entre destino de aventura, destino sustentável, destino europeu de excelência. Porém, o mais interessante é o que não está no reconhecimento, mas em tudo o que ele pode deixar de fora.

Vinhas na ilha do Pico
03 junho 2026 11:12

Praticamente toda a gente conhece os Açores antes mesmo de chegar. A Lagoa das Setes Cidades vista dos miradouros, o cozido das Furnas enterrado com o vapor a subir ao abrir da tampa, golfinhos que emergem a metros de um barco enquanto os passageiros levantam o telemóvel para a fotografia. É uma versão verdadeira, mas trata-se da superfície de um arquipélago que tem outras camadas por baixo.

São Jorge, por exemplo, não perdoa a pressa. No Grupo Central, é a ilha que mais resiste à visita rápida. As encostas caem a pique sobre o Atlântico. Entre a rocha e a água existem as fajãs, plataformas criadas por desabamentos sísmicos. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo formou-se num colapso de 1757. Hoje, a lagoa é reserva natural e produz a amêijoa da Caldeira: espécie endémica, de textura carnuda e conhecida localmente como uma raridade que não existe noutra parte do país. Chegar exige trilho a pé pela encosta. As coxas ficam a saber bem disso no dia seguinte.

Na costa sul da mesma ilha, a Fajã dos Vimes foi o berço do café da família Nunes, produzido de forma artesanal e servido no próprio Café Nunes, numa chávena simples sem marca nenhuma. O processo é manual, do cultivo à torra e, ao lado, a Casa de Artesanato Nunes, que tece tapetes com uma paciência que contrasta com a pressa lá de fora.

A montanha mais alta de Portugal

No Pico, a montanha mais alta de Portugal não se anuncia, está simplesmente lá, a 2.351 metros. A paisagem vitícola em redor é Património da UNESCO desde 2004: os currais, labirintos de pedra basáltica negra, foram construídos ao longo de séculos para reter o calor das videiras e proteger do vento atlântico. Subir o Pico começa com curiosidade e termina com os pulmões a negociar cada passo acima dos 1.500 metros. A vista do topo, quando o nevoeiro abre pela primeira vez, justifica toda a antecipação.

A oeste, nas Flores, a ilha mais húmida de todo o arquipélago, o trilho entre Lajedo, Fajãzinha e Fajã Grande passa por rocha negra e quedas de água. O cheiro a musgo e a terra molhada é tão espesso que quase se mastiga. Santa Maria, por sua vez, é o oposto absoluto, seca e calcária. O Barreiro da Faneca, ou “Deserto Vermelho dos Açores”, que o diga. O nome pode parecer, mas não é exagerado. Esta maravilha geológica abre-se em argila vermelha numa cratera que não combina com nenhuma das outras oito ilhas, como se alguém tivesse colado um bocado do Alentejo a meio do oceano sem pedir licença.

Os Açores não escondem nada. Quem chega com três dias marcados vê o que cabe em três dias marcados. O resto fica sempre para quem fica mais tempo, pergunta, desvia e aceita os sapatos molhados: esse vai ver o resto. E, honestamente, vale a viagem.

No Pico, a paisagem vitícola em redor é Património da UNESCO desde 2004.