Praticamente toda a gente conhece os Açores antes mesmo de
chegar. A Lagoa das Setes Cidades vista dos miradouros, o cozido das Furnas
enterrado com o vapor a subir ao abrir da tampa, golfinhos que emergem a metros
de um barco enquanto os passageiros levantam o telemóvel para a fotografia. É
uma versão verdadeira, mas trata-se da superfície de um arquipélago que tem
outras camadas por baixo.
São Jorge, por exemplo, não perdoa a pressa. No Grupo
Central, é a ilha que mais resiste à visita rápida. As encostas caem a pique
sobre o Atlântico. Entre a rocha e a água existem as fajãs, plataformas criadas
por desabamentos sísmicos. A Fajã da Caldeira de Santo Cristo formou-se num
colapso de 1757. Hoje, a lagoa é reserva natural e produz a amêijoa da
Caldeira: espécie endémica, de textura carnuda e conhecida localmente como uma
raridade que não existe noutra parte do país. Chegar exige trilho a pé pela
encosta. As coxas ficam a saber bem disso no dia seguinte.
Na costa sul da mesma ilha, a Fajã dos Vimes foi o berço do
café da família Nunes, produzido de forma artesanal e servido no próprio Café
Nunes, numa chávena simples sem marca nenhuma. O processo é manual, do cultivo
à torra e, ao lado, a Casa de Artesanato Nunes, que tece tapetes com uma
paciência que contrasta com a pressa lá de fora.
A montanha mais alta de Portugal
No Pico, a montanha mais alta de Portugal não se anuncia,
está simplesmente lá, a 2.351 metros. A paisagem vitícola em redor é Património
da UNESCO desde 2004: os currais, labirintos de pedra basáltica negra, foram
construídos ao longo de séculos para reter o calor das videiras e proteger do
vento atlântico. Subir o Pico começa com curiosidade e termina com os pulmões a
negociar cada passo acima dos 1.500 metros. A vista do topo, quando o nevoeiro
abre pela primeira vez, justifica toda a antecipação.
A oeste, nas Flores, a ilha mais húmida de todo o
arquipélago, o trilho entre Lajedo, Fajãzinha e Fajã Grande passa por rocha
negra e quedas de água. O cheiro a musgo e a terra molhada é tão espesso que
quase se mastiga. Santa Maria, por sua vez, é o oposto absoluto, seca e
calcária. O Barreiro da Faneca, ou “Deserto Vermelho dos Açores”, que o diga. O
nome pode parecer, mas não é exagerado. Esta maravilha geológica abre-se em
argila vermelha numa cratera que não combina com nenhuma das outras oito ilhas,
como se alguém tivesse colado um bocado do Alentejo a meio do oceano sem pedir
licença.
Os Açores não escondem nada. Quem chega com três dias
marcados vê o que cabe em três dias marcados. O resto fica sempre para quem
fica mais tempo, pergunta, desvia e aceita os sapatos molhados: esse vai ver o
resto. E, honestamente, vale a viagem.
No Pico, a paisagem vitícola em redor é Património da UNESCO desde 2004.