No âmbito do Dia Nacional de Luta contra
a Obesidade, este ano assinalado a 23 de maio, a Associação Portuguesa
de Pessoas que vivem com Obesidade (ADEXO) promoveu no dia 20 de maio um evento no
MAAT Central, em Lisboa, sob o mote 'Obesidade uma doença invisível?'. Sociedades
médicas portuguesas e a ADEXO convergiram na necessidade de eliminar o estigma
e na urgência de implementar uma abordagem multidisciplinar integrada. Foi
neste contexto que se inaugurou a iniciativa “Stories Can't Wait”, da Lilly
Portugal, que dá voz a pessoas que vivem com a doença.
A iniciativa "Stories Can't Wait" está patente até ao dia 4 de junho, no MAAT Central.
Os números são conhecidos, mas continuam a
ser ignorados. 28,7% dos adultos portugueses vivem com obesidade, uma
doença crónica reconhecida há mais de 20 anos pela Direção-Geral da Saúde,
associada a mais de 200 doenças, e ainda assim subdiagnosticada e
estigmatizada. “O financiamento dedicado ao seu tratamento continua a não
acompanhar o peso real da doença”, alertou José Silva Nunes, presidente da
Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).
Para Maria Rita Dionísio, diretora médica
da Lilly Portugal, a resposta a esta invisibilidade é contada nas histórias
que a iniciativa recolheu. "Combinando ciência e emoção, pretendemos ir
além dos dados já conhecidos e verdadeiramente humanizar esta doença, ligando a
esfera científica à esfera sociopolítica. Acima de tudo, queremos que esta
iniciativa seja suficientemente impactante para que alguém que ainda não
procurou ajuda sinta esse apelo e dê o primeiro passo”, afirmou.
Para Carlos Oliveira, presidente da ADEXO,
a obesidade "é muito mais do que aquilo que as outras pessoas veem ou que os
doentes veem ao espelho". Por trás do que é visível, há sofrimento
emocional e isolamento social. Esta é uma das facetas ocultas que a iniciativa
‘Stories Can't Wait’ pretende revelar.
O corpo que resiste à perda de peso
Um dos mitos mais persistentes em torno da
obesidade é também um dos mais destruidores: a ideia de que quem tem obesidade
simplesmente não se esforça o suficiente para ultrapassar a condição. A ciência
contraria esta ideia há muito tempo, mas a sociedade ainda não ouviu.
Maria Rita Dionísio explicou o mecanismo
biológico de uma forma que desfaz qualquer argumento sobre falta de vontade.
"O organismo combate a perda de peso porque se sente em risco. Esta
disfunção neurometabólica representa uma luta biológica desde os mecanismos
centrais no cérebro até à gordura, que hoje se sabe que é um órgão endócrino”,
afirmou.
O organismo combate a perda de peso porque se sente em risco.
MARIA RITA DIONÍSIO, DIRETORA MÉDICA DA LILLY PORTUGAL
Para Nuno Vicente, secretário adjunto
da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM),
"a obesidade é uma das áreas da medicina que mais tem evoluído nos últimos
anos. A cada semana surgem estudos com novas evidências e moléculas”. O
tratamento disponível hoje "é muito melhor do que o que existia há uma
década". O grande problema é que o acesso aos tratamentos continua a não
acompanhar o ritmo da ciência, apontou o especialista.
Carlos Oliveira ilustrou o problema da
desigualdade e estigma no tratamento com um exemplo do quotidiano. Oitenta
por cento das pessoas com diabetes tipo 2 em Portugal têm obesidade. Se uma
dessas pessoas for a uma farmácia comprar a medicação prescrita para a diabetes,
corre o risco de ser julgada por a estar a tomar indevidamente quando, na
realidade, está a tratar as duas doenças simultaneamente. "A pessoa só
olha para o que vê e não sabe o que está por trás", lamentou Carlos
Oliveira, explicando que é nessa ignorância que o estigma cresce.
O custo de não tratar
"A obesidade é a mãe de muitas doenças
e custos”. Palavras de José Silva Nunes, alertando para o impacto desta doença.
Em 2018, o sistema de saúde português gastou 1,2 mil milhões de euros a tratar
as doenças associadas à obesidade, o equivalente a 5% do orçamento da saúde.
Para tratar a obesidade gastou apenas 3 milhões. Por cada euro investido no
tratamento da obesidade, o Estado poupa até seis euros em custos das doenças associadas,
sublinhou o especialista.
A obesidade é a mãe de muitas doenças e custos.
jOSÉ SILVA NUNES, PRESIDENTE DA SOCIEDADE PORTUGUESA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE
A invisibilidade tem também um preço
político. Carlos Oliveira recordou que o Dia Nacional de Luta Contra a
Obesidade foi estabelecido pelo Ministério da Saúde em 2004 e que, pela
primeira vez em 22 anos, não se fez representar na cerimónia oficial. "É
mais uma das situações da invisibilidade política da doença”, afirmou.
A ciência exige ação
Catarina Lucas, coordenadora adjunta do
Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
(SMPI), explicou a complexidade neurobiológica da doença, nomeadamente no
papel central desempenhado pelo cérebro na regulação do peso, com áreas
responsáveis pela saciedade, emoções associadas à comida e à tomada de decisão.
Uma pessoa com obesidade apresenta, como explicou, uma desregulação em pelo
menos numa dessas áreas, o que demonstra como a dieta e o exercício físico
podem ser insuficientes a longo prazo.
Por sua vez, Leonor Manaças,
vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças
Metabólicas (SPCO), referiu que a cirurgia bariátrica é uma ferramenta
poderosa, quando enquadrada num plano de tratamento contínuo. Por esse motivo,
salvaguardou que é uma abordagem que não pode ser encarada como último recurso.
Esta visão é partilhada pelo presidente da
ADEXO, que acrescentou que, como doença crónica, exige um acompanhamento para a
vida, independentemente do tipo de tratamento e dos resultados obtidos com o
mesmo. “Não se cura, mas consegue-se controlar”, rematou.
Histórias que não podem esperar
A Torre dos Desequilíbrios é a peça
central da iniciativa “Stories Can't Wait”, representando a fragilidade
emocional da doença. Uma estrutura alta de blocos verdes empilhados em
desequilíbrio apresenta sentimentos gravados em letras amarelas: frustração,
ansiedade, julgamento, insegurança, preconceito, rejeição, impotência,
angústia, descontrolo. Alguns blocos já caíram.
Mais à frente, na entrada da sala, um ecrã
anuncia o que está do outro lado: "Há histórias de peso que merecem ser
conhecidas." Lá dentro, conhecemos os testemunhos. Oito estruturas
iluminadas com um depoimento na primeira pessoa e um objeto simbólico como
representação dos desafios, mas também da esperança, de quem vive com
obesidade. Dois testemunhos áudio transportam o visitante para a perspetiva do
doente, completando a experiência.
"Há histórias de peso que merecem ser conhecidas" é a frase que convida a conhecer as perspetivas de dez pessoas que vivem com obesidade, promovendo a compreensão e empatia.
Fátima S. escondeu-se durante anos atrás de
roupas escuras e largas, tentando ficar invisível. “[Escondi-me] até de mim,
evitando olhar-me ao espelho". A sua experiência explica o que a ciência já atestou. "Deixei de
ter vergonha porque percebi que a culpa não é minha. A culpa não é nossa, e
isso é difícil para as restantes pessoas entenderem."
André D. chegou aos 154 quilos. Evitava
situações sociais, fotografias e até apertar os sapatos, porque tudo lhe
lembrava as limitações. Hoje, com 74 quilos, recuperou "a mobilidade, a energia
e a capacidade de participar na própria vida", mas acrescenta que sabe que
"a obesidade não desapareceu, exige atenção e gestão contínua."
Maria Rita Dionísio acredita no poder das
histórias para mudar perceções. "Ao longo de 150 anos de história, a Lilly
ajudou a desconstruir tabus relacionados com a diabetes e a saúde mental. Esta
iniciativa é a continuação natural deste trabalho, numa ótica de complementaridade:
investimos em ciência e soluções que melhoram a qualidade de vida dos doentes,
e damos palco às perspetivas de quem vive com obesidade, humanizando a doença",
afirmou.
A iniciativa Stories Can't Wait, disponível
para visita até ao dia 4 de junho, no MAAT Central, convida a
descobrir dez histórias reais e a perceber que a obesidade tem um rosto, uma
voz e um peso que os números nunca vão conseguir medir. Quem ainda não pediu
ajuda pode começar por aqui.
Q&A com Carlos Oliveira, presidente da ADEXO
O que é que torna a obesidade uma doença
invisível?
A obesidade é muito mais do que aquilo que
as outras pessoas veem ou que os doentes veem ao espelho. Há todo um
conjunto de facetas ocultas que explicam a complexidade da luta individual de
quem vive com obesidade. Isso é a invisibilidade da doença. Devemos dar voz a
estas experiências, e revelar o que merece mais atenção.
No que diz respeito à obesidade, qual é o
aspeto que não pode efetivamente esperar?
As pessoas perceberem que a obesidade é uma
doença biológica sobre a qual o indivíduo não tem controlo. Além disso, sendo
uma doença crónica, é crucial que entendam que exige um acompanhamento para a
vida, independentemente do tipo de tratamento e dos resultados obtidos. Não há
cura, mas há controlo.
De que forma é que estes testemunhos reais
poderão ajudar a sociedade a encarar a doença de outra forma?
O objetivo é passarmos a mensagem de que por
trás daquilo que as pessoas veem, há um ser humano, há sentimentos, há uma
vida. Oitenta por cento das pessoas com diabetes tipo 2 em Portugal têm
obesidade. Se uma dessas pessoas for a uma farmácia comprar a medicação
prescrita para a diabetes, corre o risco de ser julgada por a estar a tomar
indevidamente quando, na realidade, está a tratar as duas doenças
simultaneamente.
Q&A com Maria Rita Dionísio, diretora médica da
Lilly Portugal
A ‘Torre dos Desequilíbrios’ é a peça
central da iniciativa “Stories Can’t Wait”. O que representa e o que gostaria a
Lilly que as pessoas sentissem quando a vissem?
Gostávamos que esta iniciativa, e esta peça
em particular, trouxesse momentos de reflexão e suscitasse novas conversas
sobre obesidade, uma vez que é construída com base na visão do próprio sobre a
doença. Esta torre representa o peso da fragilidade emocional que as pessoas
que vivem com obesidade carregam todos os dias, bem como a dificuldade no
equilíbrio dos desafios associados.
O que é que precisa de mudar para que a
obesidade seja tratada com o mesmo rigor e recursos que as outras doenças
crónicas?
É necessária uma mudança sistémica, que
começa com literacia e na educação do doente e da sociedade em que está
inserido. O reconhecimento da obesidade como doença crónica tem de ser
traduzido em políticas de saúde que garantam um percurso multidisciplinar
integrado que beneficie o doente. A humanização na ciência trará as
oportunidades certas para os doentes. Com 150 anos de história, a Lilly sabe
que tal exige persistência e compromisso a longo prazo, mas estamos aqui para
fazer parte da solução.
Que mensagem quer deixar a alguém que ainda
não procurou ajuda?
A minha primeira mensagem é de validação e
empatia. Gostava que alguém que ainda não procurou ajuda encontrasse, nesta
iniciativa, força e confiança para o fazer, mas também para fazer perguntas sem
medo. A obesidade é uma doença tratável. A ciência avançou de forma
significativa no seu reconhecimento e no desenvolvimento de abordagens que
permitem controlá-la. É tempo de pedir ajuda, sem medo e sem culpa.
CMAT-32871/MAI2026