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A obesidade que ninguém quer ver

Mais de um quarto dos adultos portugueses vive com obesidade, uma doença crónica, complexa e multifatorial que a sociedade trata como uma escolha. No MAAT Central, conta-se o outro lado da história: os desafios e a esperança na primeira pessoa.

03 junho 2026 13:40

No âmbito do Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, este ano assinalado a 23 de maio, a Associação Portuguesa de Pessoas que vivem com Obesidade (ADEXO) promoveu no dia 20 de maio um evento no MAAT Central, em Lisboa, sob o mote 'Obesidade uma doença invisível?'. Sociedades médicas portuguesas e a ADEXO convergiram na necessidade de eliminar o estigma e na urgência de implementar uma abordagem multidisciplinar integrada. Foi neste contexto que se inaugurou a iniciativa “Stories Can't Wait”, da Lilly Portugal, que dá voz a pessoas que vivem com a doença.

A iniciativa "Stories Can't Wait" está patente até ao dia 4 de junho, no MAAT Central.

Os números são conhecidos, mas continuam a ser ignorados. 28,7% dos adultos portugueses vivem com obesidade, uma doença crónica reconhecida há mais de 20 anos pela Direção-Geral da Saúde, associada a mais de 200 doenças, e ainda assim subdiagnosticada e estigmatizada. “O financiamento dedicado ao seu tratamento continua a não acompanhar o peso real da doença”, alertou José Silva Nunes, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).

Para Maria Rita Dionísio, diretora médica da Lilly Portugal, a resposta a esta invisibilidade é contada nas histórias que a iniciativa recolheu. "Combinando ciência e emoção, pretendemos ir além dos dados já conhecidos e verdadeiramente humanizar esta doença, ligando a esfera científica à esfera sociopolítica. Acima de tudo, queremos que esta iniciativa seja suficientemente impactante para que alguém que ainda não procurou ajuda sinta esse apelo e dê o primeiro passo”, afirmou.

Para Carlos Oliveira, presidente da ADEXO, a obesidade "é muito mais do que aquilo que as outras pessoas veem ou que os doentes veem ao espelho". Por trás do que é visível, há sofrimento emocional e isolamento social. Esta é uma das facetas ocultas que a iniciativa ‘Stories Can't Wait’ pretende revelar.

O corpo que resiste à perda de peso

Um dos mitos mais persistentes em torno da obesidade é também um dos mais destruidores: a ideia de que quem tem obesidade simplesmente não se esforça o suficiente para ultrapassar a condição. A ciência contraria esta ideia há muito tempo, mas a sociedade ainda não ouviu.

Maria Rita Dionísio explicou o mecanismo biológico de uma forma que desfaz qualquer argumento sobre falta de vontade. "O organismo combate a perda de peso porque se sente em risco. Esta disfunção neurometabólica representa uma luta biológica desde os mecanismos centrais no cérebro até à gordura, que hoje se sabe que é um órgão endócrino”, afirmou.

O organismo combate a perda de peso porque se sente em risco. MARIA RITA DIONÍSIO, DIRETORA MÉDICA DA LILLY PORTUGAL
Maria Rita Dionísio, diretora médica da Lilly Portugal

Para Nuno Vicente, secretário adjunto da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), "a obesidade é uma das áreas da medicina que mais tem evoluído nos últimos anos. A cada semana surgem estudos com novas evidências e moléculas”. O tratamento disponível hoje "é muito melhor do que o que existia há uma década". O grande problema é que o acesso aos tratamentos continua a não acompanhar o ritmo da ciência, apontou o especialista.

Carlos Oliveira ilustrou o problema da desigualdade e estigma no tratamento com um exemplo do quotidiano. Oitenta por cento das pessoas com diabetes tipo 2 em Portugal têm obesidade. Se uma dessas pessoas for a uma farmácia comprar a medicação prescrita para a diabetes, corre o risco de ser julgada por a estar a tomar indevidamente quando, na realidade, está a tratar as duas doenças simultaneamente. "A pessoa só olha para o que vê e não sabe o que está por trás", lamentou Carlos Oliveira, explicando que é nessa ignorância que o estigma cresce.

Carlos Oliveira, presidente da ADEXO

O custo de não tratar

"A obesidade é a mãe de muitas doenças e custos”. Palavras de José Silva Nunes, alertando para o impacto desta doença. Em 2018, o sistema de saúde português gastou 1,2 mil milhões de euros a tratar as doenças associadas à obesidade, o equivalente a 5% do orçamento da saúde. Para tratar a obesidade gastou apenas 3 milhões. Por cada euro investido no tratamento da obesidade, o Estado poupa até seis euros em custos das doenças associadas, sublinhou o especialista.

A obesidade é a mãe de muitas doenças e custos. jOSÉ SILVA NUNES, PRESIDENTE DA SOCIEDADE PORTUGUESA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE

A invisibilidade tem também um preço político. Carlos Oliveira recordou que o Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade foi estabelecido pelo Ministério da Saúde em 2004 e que, pela primeira vez em 22 anos, não se fez representar na cerimónia oficial. "É mais uma das situações da invisibilidade política da doença”, afirmou.

A ciência exige ação

Catarina Lucas, coordenadora adjunta do Núcleo de Estudos de Obesidade da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SMPI), explicou a complexidade neurobiológica da doença, nomeadamente no papel central desempenhado pelo cérebro na regulação do peso, com áreas responsáveis pela saciedade, emoções associadas à comida e à tomada de decisão. Uma pessoa com obesidade apresenta, como explicou, uma desregulação em pelo menos numa dessas áreas, o que demonstra como a dieta e o exercício físico podem ser insuficientes a longo prazo.

Por sua vez, Leonor Manaças, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (SPCO), referiu que a cirurgia bariátrica é uma ferramenta poderosa, quando enquadrada num plano de tratamento contínuo. Por esse motivo, salvaguardou que é uma abordagem que não pode ser encarada como último recurso.

Esta visão é partilhada pelo presidente da ADEXO, que acrescentou que, como doença crónica, exige um acompanhamento para a vida, independentemente do tipo de tratamento e dos resultados obtidos com o mesmo. “Não se cura, mas consegue-se controlar”, rematou.

Histórias que não podem esperar

A Torre dos Desequilíbrios é a peça central da iniciativa “Stories Can't Wait”, representando a fragilidade emocional da doença. Uma estrutura alta de blocos verdes empilhados em desequilíbrio apresenta sentimentos gravados em letras amarelas: frustração, ansiedade, julgamento, insegurança, preconceito, rejeição, impotência, angústia, descontrolo. Alguns blocos já caíram.

Mais à frente, na entrada da sala, um ecrã anuncia o que está do outro lado: "Há histórias de peso que merecem ser conhecidas." Lá dentro, conhecemos os testemunhos. Oito estruturas iluminadas com um depoimento na primeira pessoa e um objeto simbólico como representação dos desafios, mas também da esperança, de quem vive com obesidade. Dois testemunhos áudio transportam o visitante para a perspetiva do doente, completando a experiência.

"Há histórias de peso que merecem ser conhecidas" é a frase que convida a conhecer as perspetivas de dez pessoas que vivem com obesidade, promovendo a compreensão e empatia.

Fátima S. escondeu-se durante anos atrás de roupas escuras e largas, tentando ficar invisível. “[Escondi-me] até de mim, evitando olhar-me ao espelho". A sua experiência explica o que a ciência já atestou. "Deixei de ter vergonha porque percebi que a culpa não é minha. A culpa não é nossa, e isso é difícil para as restantes pessoas entenderem."

André D. chegou aos 154 quilos. Evitava situações sociais, fotografias e até apertar os sapatos, porque tudo lhe lembrava as limitações. Hoje, com 74 quilos, recuperou "a mobilidade, a energia e a capacidade de participar na própria vida", mas acrescenta que sabe que "a obesidade não desapareceu, exige atenção e gestão contínua."

Maria Rita Dionísio acredita no poder das histórias para mudar perceções. "Ao longo de 150 anos de história, a Lilly ajudou a desconstruir tabus relacionados com a diabetes e a saúde mental. Esta iniciativa é a continuação natural deste trabalho, numa ótica de complementaridade: investimos em ciência e soluções que melhoram a qualidade de vida dos doentes, e damos palco às perspetivas de quem vive com obesidade, humanizando a doença", afirmou.

A iniciativa Stories Can't Wait, disponível para visita até ao dia 4 de junho, no MAAT Central, convida a descobrir dez histórias reais e a perceber que a obesidade tem um rosto, uma voz e um peso que os números nunca vão conseguir medir. Quem ainda não pediu ajuda pode começar por aqui.


Q&A com Carlos Oliveira, presidente da ADEXO

O que é que torna a obesidade uma doença invisível?

A obesidade é muito mais do que aquilo que as outras pessoas veem ou que os doentes veem ao espelho. Há todo um conjunto de facetas ocultas que explicam a complexidade da luta individual de quem vive com obesidade. Isso é a invisibilidade da doença. Devemos dar voz a estas experiências, e revelar o que merece mais atenção.

No que diz respeito à obesidade, qual é o aspeto que não pode efetivamente esperar?

As pessoas perceberem que a obesidade é uma doença biológica sobre a qual o indivíduo não tem controlo. Além disso, sendo uma doença crónica, é crucial que entendam que exige um acompanhamento para a vida, independentemente do tipo de tratamento e dos resultados obtidos. Não há cura, mas há controlo.

De que forma é que estes testemunhos reais poderão ajudar a sociedade a encarar a doença de outra forma?

O objetivo é passarmos a mensagem de que por trás daquilo que as pessoas veem, há um ser humano, há sentimentos, há uma vida. Oitenta por cento das pessoas com diabetes tipo 2 em Portugal têm obesidade. Se uma dessas pessoas for a uma farmácia comprar a medicação prescrita para a diabetes, corre o risco de ser julgada por a estar a tomar indevidamente quando, na realidade, está a tratar as duas doenças simultaneamente.


Q&A com Maria Rita Dionísio, diretora médica da Lilly Portugal

A ‘Torre dos Desequilíbrios’ é a peça central da iniciativa “Stories Can’t Wait”. O que representa e o que gostaria a Lilly que as pessoas sentissem quando a vissem?

Gostávamos que esta iniciativa, e esta peça em particular, trouxesse momentos de reflexão e suscitasse novas conversas sobre obesidade, uma vez que é construída com base na visão do próprio sobre a doença. Esta torre representa o peso da fragilidade emocional que as pessoas que vivem com obesidade carregam todos os dias, bem como a dificuldade no equilíbrio dos desafios associados.

O que é que precisa de mudar para que a obesidade seja tratada com o mesmo rigor e recursos que as outras doenças crónicas?

É necessária uma mudança sistémica, que começa com literacia e na educação do doente e da sociedade em que está inserido. O reconhecimento da obesidade como doença crónica tem de ser traduzido em políticas de saúde que garantam um percurso multidisciplinar integrado que beneficie o doente. A humanização na ciência trará as oportunidades certas para os doentes. Com 150 anos de história, a Lilly sabe que tal exige persistência e compromisso a longo prazo, mas estamos aqui para fazer parte da solução.

Que mensagem quer deixar a alguém que ainda não procurou ajuda?

A minha primeira mensagem é de validação e empatia. Gostava que alguém que ainda não procurou ajuda encontrasse, nesta iniciativa, força e confiança para o fazer, mas também para fazer perguntas sem medo. A obesidade é uma doença tratável. A ciência avançou de forma significativa no seu reconhecimento e no desenvolvimento de abordagens que permitem controlá-la. É tempo de pedir ajuda, sem medo e sem culpa.


CMAT-32871/MAI2026