Quando os papas entram no bloco operatório: histórias de quando os papas foram submetidos a cirurgia
O papa Leão XIV anunciou que será operado, num gesto que rompe com o secretismo que a Santa Sé preferiu manter em relação à saúde dos sumos pontífices. Sobre João XXIII não revelou que sofria de cancro e sobre Bento XVI, inventou um acidente com um radiador quando ainda era perfeito
O mundo católico foi surpreendido quando no passado domingo, dia 11, o Papa Leão XIV anunciou durante a oração do Angelus, na Praça de São Pedro, que seria operado a um nódulo encontrado nos pulmões. É que, nem sempre, a Santa Sé revelou as doenças e as idas ao bloco operatório dos papas.
Manter segredo era a regra no século passado, quando o assunto eram doenças graves que afetam os papas. Foi assim com João XXIII, que em setembro de 1962, foi diagnosticado com cancro no estômago aos 81 anos. Mas a gravidade da doença não foi revelada ao público. Em dezembro, o Vaticano emitiu um comunicado, publicado no jornal L'Osservatore Romano em que revelava que “a condição do santo pontífice estava a melhorar.” Acrescentava ainda: “Os tratamentos médicos e dietéticos estão a surtir os resultados esperados”. Informava ainda que João XXIII tinha-se levantado da cama durante a tarde e tinha-se ocupado dos assuntos da Santa Sé.
Segundo o Vaticano, o Papa sofria de um mal-estar gástrico que lhe tinha provocado uma anemia severa. O comunicado foi necessário depois da visita do prestigiado cirurgião italiano Pietro Valdoni ter alarmado o mundo. Mas, rapidamente, o seu médico pessoal, Antonio Gasbarrini, informou à imprensa de que uma intervenção cirúrgica tinha sido colocada de parte. Mas quando foi questionado se a vida do Papa corria risco, respondeu: “Na sua idade, nada é certo.” João XXIII morreu seis meses depois, no dia 3 de junho de 1963.
Atentado e apendicite
João Paulo II foi operado cinco vezes durante o seu papado de 26 anos, o terceiro mais longo da história do Vaticano. A primeira intervenção ocorreu três anos depois de ser eleito, a 13 de maio de 1981, quando foi alvejado várias vezes no abdómen pelo turco Mehmet Ali Agca, no momento em que abençoava os fieis do seu papamóvel, na Praça de São Pedro, em Roma. O Papa, então com 61 anos, perdeu três quartos de sangue e foi intervencionado durante cinco horas no Hospital Gemelli. Antes da cirurgia e dada a gravidade dos ferimentos, recebeu a unção dos enfermos, o sacramento oferecido no final da vida. João Paulo II sobreviveu, segundo o próprio, por graça de Nossa Senhora de Fátima.
Em 1992, foi-lhe diagnosticado um tumor benigno no cólon, após se ter queixado de inchaço e dor abdominal. Aos 72 anos, foi sujeito a uma cirurgia de quatro horas, enquanto dezenas de fieis rezavam no exterior do Hospital Gemelli, aguardando por notícias. O boletim médico do Vaticano informava que a operação tinha sido “radical e curativa porque a lesão era de natureza benigna.”
Dois anos depois, o Papa polaco escorregou na banheira e partiu o fémur. Nesta altura, já tinha sido diagnosticado com Parkinson, a doença neurológica que afeta os movimentos e o equilíbrio, mas o diagnóstico não foi tornado público. Foi operado para tratar a fratura e colocaram-lhe uma prótese da anca. “O Papa vai melhorar com uma anca não como as feitas por Deus, mas com uma desenhada em laboratório de bioengenharia”, explicou na altura o cirurgião ortopédico, Gianfranco Fineschi.
João Paulo II voltaria ao bloco operatório por mais duas vezes. Em 1976, uma apendicite levou-o novamente ao Hospital Gemelli, onde ficou internado durante uma semana, após ter-lhe sido removido o apêndice inflamado. Antes de sair do hospital, depois de receber alta, visitou as crianças que estavam internadas na ala de oncologia pediátrica.
Dois meses antes de morrer, em 2005, o Papa, já muito debilitado devido à doença de Parkinson, foi sujeito a uma traqueotomia (realização de um orifício na traqueia) para facilitar a respiração. A intervenção deixou-o incapaz de falar. A 2 de abril, morreu após uma infecção urinária lhe ter provocado um choque séptico.
Males do coração
Quando Bento XVI foi eleito Papa, em abril de 2005, os cardeais do conclave eram dos poucos que sabiam que o cardeal alemão tinha problemas cardíacos. Em 1991, aos 64 anos, tinha sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico que lhe afetou a visão temporariamente. Na época, o Vaticano não revelou o problema médico e, para justificar o problema de visão, informou que o então Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé tinha caído e batido com a cara num radiador. Um mês depois, em maio, o Vaticano revelou que o Papa tinha sofrido outro AVC ligeiro.
Em julho de 2009, Bento XVI caiu e fraturou o punho direito durante umas férias na residência de verão, no Vale de Aosta, nos Alpes. Foi sujeito a uma cirurgia de 20 minutos, com anestesia local, no hospital público da região. Esta cirurgia foi anunciada ao mundo.
Em novembro de 2012, três meses antes de anunciar a sua resignação como papa - a primeira vez na história da Igreja desde 1415 - Bento XVI foi operado para substituir a pilha do seu pacemaker, colocado antes de ter sido eleito. A cirurgia foi realizada em segredo, na clínica Pio XI, em Roma, e apenas revelada após o anúncio de resignação.
Hérnia e cataratas
O Papa Francisco foi eleito em 2013, com conhecimento do conclave de que tinha sido sujeito a uma excisão de parte do pulmão quando era mais novo. Mas não foi o aparelho respiratório que o levou de novo ao bloco operatório. Em 2019, o papa foi operado às cataratas de forma discreta e sem anúncio público.
Em 2021, aos 84 anos, o papa argentino queixava-se de dor abdominal e foi intervencionado ao cólon para tratar uma estenose diverticular (o estreitamento do cólon devido a inflamação crónica). “Sua santidade o papa Francisco está bem, alerta e a respirar por si mesmo”, anunciou, na altura, o Vaticano.
Dois anos depois, foi-lhe diagnosticada uma hérnia abdominal, provocada por aderências que terão tido origem na cicatrização da operação anterior. Na altura, o próprio desmentiu e classificou a suspeita de que as aderências poderiam ter causa oncológica como “rumores da cúria”. A cirurgia, de três horas, correu bem.