Habitação: Dezenas de pessoas na vigília solidária contra despejo de família em Lisboa
Ao microfone, um porta-voz da Acampada de Lisboa defendeu a necessidade de continuar a protestar pelo direito à habitação: "Por cada despejo, 1.000 ocupações. Por cada despejo, 1.000 acampadas."
Várias dezenas de pessoas protestam esta sexta-feira contra o despejo de uma jovem mãe, viúva, e dos dois filhos menores de uma habitação municipal no Bairro do Condado, na freguesia lisboeta de Marvila, numa vigília solidária no local.
Juntou-se à vigília o movimento Acampada de Lisboa, que grita palavras de ordem como "as pessoas não são lixo para serem despejadas".
"Casas sim, despejos não", "habitação é um direito, sem ela nada feito", "Moedas escuta, o povo está em luta" e "gente despejada e casas vazias" gritam também os manifestantes junto à habitação municipal de onde foi despejada a jovem e os filhos menores de 4 e 2 anos.
Ao microfone, um porta-voz da Acampada de Lisboa defendeu a necessidade de continuar a protestar pelo direito à habitação: "Por cada despejo, 1.000 ocupações. Por cada despejo, 1.000 acampadas."
Organizada pela Comissão de Moradores e Utentes de Marvila (COMUM), esta iniciativa de mobilização popular surge em protesto contra a decisão da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e da Gebalis - empresa que gere a habitação municipal - em manter o despejo desta família, que ocorreu no final de julho, "sem qualquer solução ou garantia de alternativa habitação".
Os manifestantes erguem ainda cartazes com frases de ordem: "Vergonha: mãe e filhos despejados sem soluções dignas!", "Gente despejada e tanta casa vazia!", "A CML não pode ser uma agência de despejos!" e "Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto (...) - artigo 65 da Constituição da República Portuguesa".
Na quinta-feira à noite, a Acampada de Lisboa pela habitação, que se tem concentrado desde sábado na praça do Rossio, decidiu deslocar-se hoje para Marvila para participar na vigília contra o despejo desta jovem mãe e dos seus filhos.
A jovem vivia numa habitação municipal no Bairro do Condado, em Marvila, pagava as rendas e procurou regularizar o contrato de arrendamento, na sequência da morte dos dois titulares da casa, o companheiro e pai das crianças e a avó deste, que morreram em 2024.
Em declarações à agência Lusa, João Albuquerque, da COMUM, comissão de moradores que acompanha este processo desde o momento do despejo, disse que esta vigília pretende que este "problema social" não caia no esquecimento, exigindo-se "uma habitação digna para esta família".
João Albuquerque criticou a forma como foi realizado este despejo, com caráter "injusto, insensível e desumano", com "um alto aparato policial" e sem a presença de uma assistente social, mandando "duas crianças para o olho da rua".
O responsável disse ainda a família foi acolhida por familiares, vivendo numa casa sobrelotada, enquanto a habitação onde viviam no Bairro do Condado se mantém vazia, somando-se a outras casas no mesmo prédio que estão desabitadas.
Quanto à informação revelada hoje pela empresa municipal Gebalis, de que também viveria na casa um idoso de 84 anos, que "tinha direito a morar" lá e terá sido coagido a sair, o responsável da COMUM acusou a Gebalis de levantar essa questão para "tirar o ónus de terem despejado duas crianças" e para "tentar difamar" esta família, lamentando ainda as declarações do vereador da Habitação de que existem "2.800 famílias à frente" para atribuição de uma casa.
Em solidariedade com esta jovem mãe despejada, que não esteve na vigília porque um dos filhos está doente, estiveram eleitos do PCP e do BE nos órgãos locais de Lisboa.
"Viva a acampada, a resistir, a resistir", gritaram os manifestantes.
Adriana Lima, uma das porta-vozes da Acampada de Lisboa, referiu que esta ação está a ser organizada pela Vida Justa e conta com o apoio do movimento por se enquadrar na causa pelo direito à habitação.
"Uma das nossas exigências é precisamente o fim dos despejos", expôs, referindo que, por isso, "faz todo o sentido" a descentralização da acampada do Rossio para o Bairro do Condado, onde ocorreu o despejo.
Questionada sobre a possibilidade de haver uma acampada no Bairro do Condado, Adriana Lima recusou à Lusa essa ideia até para não colocar os moradores numa situação desconfortável.
Pelas 19h50, de forma pacífica, os manifestantes juntaram-se no campo desportivo do bairro para se reunirem em assembleia popular, que se tem realizado diariamente, sendo esta a sétima que fazem.