O Papa faz frente a Trump
O pontificado de Leão XIV dá sinais de pretender levar a igreja católica a assumir um papel cada vez mais relevante como bastião contra a radicalização autoritária do trumpismo.
«Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados», lamentou Leão XIV no seu primeiro discurso aos diplomatas acreditados junto à Santa Fé.
O Papa norte-americano condenou o «fervor bélico» e a violação do «princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias».
A «fragilidade do multilateralismo no plano internacional» surgiu como uma das principais preocupações do Vaticano na alocução de Ano Novo a 9 de Janeiro.
Leão XIV, conforme à tradição, fundamentou histórica e teologicamente a sua reflexão num paralelo com a meditação de Santo Agostinho na «Cidade de Deus» sobre a crise e colapso da velha ordem imperial patente no Saque de Roma pelo visigodo Alarico em 410.
O Papa reconheceu as diferenças entre duas épocas de mudança, mas destacou, também, certas semelhanças «bastante actuais».
Amplos movimentos migratórios, reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais, contam-se entre as mutações em curso que, no entendimento do Leão XIV, geram, como no tempo de Santo Agostinho, «graves perigos para a vida política decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista.»
As cogitações papais, abarcando um leque de crises do Sudão à Ucrânia, passando pela violência religiosa, em particular na perseguição de cristãos em Cabo Delgado ou na Síria, ocorreram uma semana volvida sobre a captura de Nicolás Maduro.
A mediação da diplomacia da Santa Sé, propondo a opção de exílio para o ditador, revelou-se tão impotente para evitar a intervenção norte-americana quanto anteriores encontros no Vaticano do Papa Francisco com Maduro, em 2013 e 2016, tinham sido infrutíferos para moderar a repressão e os conflitos do regime bolivariano com o clero venezuelano.
Leão XIV destacou, igualmente, «a importância do direito internacional humanitário, cujo respeito não pode depender das circunstâncias e dos interesses militares e estratégicos», marcando distâncias em relação a políticas de estado seguidas de forma despudorada e brutal por regimes ditatoriais e com cínica desumanidade por estados democráticos.
Sendo Robert Francis Prevost notoriamente o outro americano em oposição a Donald Trump, não lhe poderiam escapar os perigos da perversão da linguagem.
As palavras e o discurso obrigam à precisão e à «certeza de que cada termo está ancorado na verdade», seja ela a concepção católica de dignidade da vida ou conceitos laicos de sentido diverso.
Conclui, por conseguinte, Leão XIV que «para dialogar, é necessário que haja um entendimento sobre as palavras e os conceitos que elas representam. Redescobrir o significado das palavras é talvez um dos primeiros desafios do nosso tempo.»
Visto assim o mundo, é claro que a orientação da igreja nos Estados Unidos surge como campo de batalha privilegiado para um Papa nascido em Chicago.
Prevost tem em conta que se 20% dos adultos norte-americanos afirmam ser católicos – entre esses 53 milhões de fiéis 29% são considerados praticantes – a maioria discorda, no entanto, da doutrina acerca do controlo de nascimentos, casamento de padres e ordenação de mulheres.
Nos Estados Unidos 53% dos eleitores católicos registados declaram-se, por outro lado, republicanos – maioritariamente convertidos a visões ultraconservadoras e literalistas da Bíblia – e 43% democratas, sendo cada vez maior o fosso entre uns e outros.
O pontificado de Leão XIV, iniciado em Maio de 2015, dá sinais de pretender levar a igreja católica a assumir um papel cada vez mais relevante como bastião contra a radicalização autoritária do trumpismo.
Tendo o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova Iorque desde 2009, apresentado a sua resignação em Fevereiro ao atingir 75 anos, como é de regra, Leão XIV substitui-o logo em Dezembro.
Dolan, conhecido pelo seu apoio declarado a Donald Trump, declarou, nomeadamente, em Setembro do ano passado, que Charlie Kirk – um propagandista de extrema-direita assassinado aos 31 anos na Utah Valley University, em Orem – seria «um São Paulo do nosso tempo».
O sucessor à frente de 2,5 milhões de católicos nova-iorquinos é Ronald Hicks, de 58 anos, que, tal como o papa, tem experiência missionária, tendo vivido cinco anos em El Salvador.
Hicks está alinhado com a maioria da Conferência Episcopal dos Estados Unidos que em Novembro do ano passado condenou a «retórica desumanizadora e a violência» da «campanha indiscriminada de deportação» de imigrantes ilegais.
A arquidiocese de Nova Iorque – a segunda maior diocese dos Estados Unidos a seguir a Los Angeles onde se contam mais de 4 milhões de católicos –escapa assim à órbita de uma liderança conservadora.
O pontificado de Leão XIV projecta-se muito para além da conjuntura tenebrosa do trumpismo e, para tanto, fazer frente a abusos nos Estados Unidos, tal como no resto do mundo, é um desígnio a que o Papa se obriga.
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945
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