Especiais Especiais C-Studio
Mais informações

C•Studio é a marca que representa a área de Conteúdos Patrocinados do universo Cofina.
Aqui as marcas podem contar as suas histórias e experiências.

“É clara a necessidade de continuar a investir em I&D para fazer face aos desafios da transição energética”.

João Peças Lopes, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, vê um futuro em que o consumidor e as comunidades terão um papel central na gestão e na produção de energia.

João Peças Lopes, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
02 Junho 2022 10:42

A transição energética implica o aumento da eficiência na utilização da energia, a eletrificação da sociedade e da economia explorando fontes renováveis, e a utilização do hidrogénio como vetor complementar de energia. Neste contexto, a massificação do autoconsumo, e o crescimento das comunidades energéticas renováveis, permite que muitos consumidores produzam parte dos seus consumos de eletricidade e ganhem uma literacia e uma consciência energética que muito beneficia a transição energética. Em entrevista, João Peças Lopes, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), fala sobre a transição energética.

Quais os principais desafios que a transição energética coloca ao país?

A transição energética implica o aumento da eficiência energética nas utilizações de energia, a eletrificação da economia e da sociedade suportada por produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, e a utilização do hidrogénio, como vetor energético complementar, obtido a partir da eletrólise da água utilizando eletricidade verde.

Pelo seu lado, a utilização de eletricidade de origem renovável exige uma monitorização e o planeamento da evolução do portfolio de geração, de forma a garantir que a segurança de abastecimento nunca seja colocada em causa. Face às caraterísticas de variabilidade temporal da eletricidade de origem renovável, é necessário gerir ativamente a procura e explorar sistemas de armazenamento com diferentes horizontes de operação. O que implica a definição de políticas públicas e regulatórias suportadas por análises técnicas que prevejam as soluções a adotar para os próximos 10 a 15 anos.

Que novas modalidades de produção e consumo de energia estão a ser promovidas com a aposta em energias renováveis?

A eletrificação da economia implicará o recurso intensivo à produção de eletricidade a partir de energia eólica e solar fotovoltaica (em terra e no mar), uma vez que o potencial hídrico está já bastante utilizado. A exploração da energia eólica off-shore, em conjunto com outras fontes, será aliás um dos grandes desígnios dos próximos anos.

Como os recursos renováveis que existem em terra estão distribuídos pelo território, esta produção assume um caráter distribuído que nos conduz à mini e micro produção de eletricidade ligada, de forma distribuída, nas redes elétricas de distribuição. Este é o cenário que se tem consolidado nos últimos 20 anos e que continuará a reforçar-se através de conceitos como o autoconsumo individual ou coletivo, e as comunidades de energia renovável.

A geração de energia distribuída é o verdadeiro processo de democratização de acesso à energia? Pode explicar?

Podemos dizer que sim. Por exemplo, face à enorme redução dos custos de investimento da produção solar fotovoltaica verifica-se hoje que é economicamente mais interessante produzir a energia que se consome. Contudo, isso não significa que se pode dispensar a rede elétrica, porque o recurso renovável nem sempre está disponível e nós temos uma crescente dependência da eletricidade. Mas com a massificação do autoconsumo, e com o crescimento das comunidades energéticas renováveis, estamos a permitir que muitos consumidores produzam parte dos seus consumos de eletricidade ganhando simultaneamente uma literacia e uma consciência energética que muito beneficia a transição energética.

A energia distribuída capacita os cidadãos para serem agentes ativos na transição energética. Estão os portugueses atentos a esta realidade? Quais as principais barreiras aos clientes na adesão à energia solar descentralizada?

Sim, já o referi anteriormente. E de facto os Portugueses estão cada vez mais atentos e participativos nesta realidade. Veja-se a adesão dos consumidores individuais à instalação de autoconsumo solar fotovoltaico com financiamento do PRR. Por outro lado, os processos de licenciamento estão atualmente já muito simplificados até à potência instalada de 30 kW. Diria, contudo, que as maiores barreiras à universalização destes conceitos residem nos condomínios, que não estão preparados para desenvolver soluções deste tipo.

Num país como Portugal é possível massificar este processo?

Sim, é, e como já referi, hoje até existe enquadramento legal para promover essa massificação. A adesão a este paradigma será futuramente maior, quando o autoconsumidor puder armazenar, com custos de investimento reduzidos, os excessos de produção para consumir mais tarde. As baterias ainda estão caras, mas rapidamente diminuirão de custo e será interessante promover esse armazenamento individual ou coletivo de eletricidade. Mas quero sublinhar que, tecnicamente, esta solução é viável e fácil de implementar.

Que soluções está a FEUP a investigar e a desenvolver para permitir às empresas e às famílias portuguesas ultrapassar os desafios da geração de energia distribuída?

A FEUP, através de instituições de interface do seu perímetro, como o INESC TEC, têm vindo a desenvolver vários projetos que visam maximizar a presença da produção distribuída e da microgeração nas redes elétricas. Esta aposta já tem mais de 20 anos, começou com os projetos Europeus Microgrids e MoreMicrogrids, e tem prosseguido, com grande número de projetos com financiamento Europeu, e com contratos diretos com a indústria, nomeadamente com a EDP Distribuição, agora E-REDES. Mais recentemente, foi desenvolvido o projeto AnyPlace que permitiu desenvolver dispositivos de baixo custo (HEMS - Home Energy Management System) para gerir os consumos e a produção local, por forma a minimizar a fatura de eletricidade.

Que investigações estão a ser desenvolvidas pela FEUP para garantir que o consumo de energia é mais sustentável? Podem explicar o objetivo de cada um destes projetos?

A FEUP, através do INESC TEC, lidera atualmente o maior projeto Europeu que Portugal já liderou (no montante de 36 M€), com o objetivo de democratizar a gestão da procura através de ecossistemas digitais interoperáveis, com habitações e redes inteligentes. São ainda de referir trabalhos de investigação desenvolvidos nos projetos Europeus "Sensible", onde se avaliou a utilização distribuída de pequenos dispositivos de armazenamento de energia para apoiar a gestão de redes elétricas com grande volume de produção distribuída. E no projeto Europeu Sustainable, que envolveu o desenvolvimento de ferramentas para maximizar a integração de produção renovável e distribuída em redes elétricas de distribuição. É ainda de referir o projeto bandeira InovGrid, promovido pela E-REDES, e onde o INESC TEC teve uma participação importante ao definir a arquitetura de referência do sistema de contagem inteligente de eletricidade, que acomodava também produção distribuída. Este foi um grande projeto que a EDP teve o arrojo de promover e que colocou Portugal a surfar a inovação tecnológica nestes domínios.

O que se pode esperar desta conferência que decorre no próximo dia 6 junho na FEUP, em parceria com a E-REDES?

Será uma conferência que permitirá evidenciar a colaboração entre a E-REDES e as instituições do sistema científico e tecnológico nacional, em particular com a FEUP e o INESC TEC. A proximidade entre a Academia e as Organizações assegura o desenvolvimento de soluções inovadoras com aplicabilidade empresarial, pelo que é de fundamental o investimento neste tipo de parcerias. As universidades possuem a pesquisa no seu DNA, pelos que os seus interesses são complementares. Um tem como objetivo gerar conhecimento e o outro precisa de apoio para desenvolver novas tecnologias. Espera-se assim, que fique clara a necessidade de continuar a investir em I&D para fazer face aos desafios da transição energética de forma a garantir o aumento da eficiência, da qualidade de serviço e da resiliência das redes de distribuição perante cenários caraterizados por uma crescente presença de geração distribuída, sistemas de armazenamento, comunidades renováveis, veículos elétricos e onde o consumidor terá um papel central.

Outros Conteúdos