O sonho de usar óculos
Corria o mês de agosto de 2026 quando o meu braço direito ficou curto, de repente
O meu adro da igreja foi um rótulo. Eu sei: aos 43 para 44 anos, a grande procissão da perda de visão ao perto ainda vai no adro – mas aquele rótulo, que me fez cair na armadilha de culpar os outros pelas minhas falências (“Poupam em tudo, agora até no tamanho de letra?”), foi o meu adro da igreja. De lá para cá? Deus me ajude.
Corria o mês de agosto de 2026 quando o meu braço direito ficou curto, de repente – eu, que tinha aprendido a ler rótulos para me proteger do presunto com dextrose e/ou da creatina com pozinhos (e sem selo de confiança), não tinha extensão braçal suficiente para afastar os rótulos e focar. Olhava para as letras e não distinguia um “v” de um “elha”.
Não ignorei os sinais, até porque era impossível – apesar de paradoxal – não os ver. Fiz testes caseiros para perceber se a falta de definição se aplicava aos dois olhos e marquei consulta com o meu oftalmologista (homem habituado a dramas, como quando achei que uma pálpebra a tremer era um caso bicudo – “falta de magnésio”, diagnosticou-me ele).
Entre o dia das primeiras dificuldades e o dia da consulta, percebi que estava em perda. Tinha perdido, por exemplo, a vontade de ler na cama porque as letras pareciam dançar quando eu só me queria embalar. Havia, contudo, algo por que ansiar. E foi perante o olhar atento do meu oftalmologista que o confessei: “Doutor, vai concretizar-me um sonho.”
Eu já tinha tentado convencê-lo a recomendar-me o uso de óculos para ler (acho elegante). Ele tinha dito o óbvio: eu não perderia pela demora. A perda de visão ao perto seria sinal de que estaria viva – velha mas viva. O meu oftalmologista, elegantérrimo, respondeu-me ao repto: “Agora sim, vamos fazer dos seus sonhos realidade.” Eu não disse, mas pensei: “E se é preciso andar de olhos abertos por estes dias.”
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