Punch: a doçura viral que expõe a insustentabilidade da empatia digital
Tal como os macacos, também rejeitamos sem razão. Afastamo-nos do que sentimos como diferente numa reacção primária, movida pelo medo de não pertencer, de não ser reconhecido, de ser excluído sem explicação.
Um macaquinho derreteu os corações da internet e um macaco provocou a ira da mesma internet. Eis o paradoxo do mundo online: entre a doçura e a maldade, são sempre as nossas emoções mais básicas que se destacam.
Se não sabem de que falo, estão, literalmente, desligados. O que não é, necessariamente, negativo. A história conta-se rapidamente. No Japão, um bebé macaco, nascido em julho de 2025, foi rejeitado pela mãe. Transferido para outro zoo, tentou integrar-se junto de outros macacos que também o rejeitaram. Para o confortar e reduzir a ansiedade, o tratador deu-lhe um peluche: um orangotango que Punch, o bebé macaco, passou a carregar sempre consigo.
Os vídeos e as imagens desse macaquinho agarrado ao peluche tornaram-se virais. Hashtags como #HangInTherePunch espalharam-se pelas redes sociais digitais. A internet ficou de coração partido e passou a acompanhar, com devoção quase diária, a história deste bebé abandonado que encontra conforto num objecto inanimado e este é um pormenor que não é irrelevante: o peluche é de uma (muito) conhecida marca sueca de mobiliário. Já lá vamos.
Num outro contexto, no qual egos inflamados por vezes quase transformam um estádio de futebol num zoo, consta que um jogador do Benfica chamou “macaco” a um jogador do Real Madrid. O pior veio depois. A arena mediática transformou-se numa espécie de macacada colectiva, com comentadores indignados a proclamarem que “já não se pode dizer nada”. Não repetirei a frase que circula por aí. Amplificá-la seria dar palco a um grunhido que põe em causa o mais básico da decência humana.
Tal como os macacos, também rejeitamos sem razão. Afastamo-nos do que sentimos como diferente numa reacção primária, movida pelo medo de não pertencer, de não ser reconhecido, de ser excluído sem explicação. A exclusão, afinal, continua a ser uma das experiências humanas mais universais, mesmo quando disfarçada de comentário ou piada.
Como em outras ocasiões, a Ikea esteve atenta. Abraçou a causa. De forma pragmática, transformou o seu Djungelskog, o orangotango de peluche, na mãe simbólica do bebé abandonado. E a internet parou.
O conforto de um peluche que custa menos de 12 euros faz as delícias de quem circula online, posiciona a marca e, num golpe de asa, põe o algoritmo a trabalhar em rede. Amanhã sobrarão análises sobre o fenómeno e a rapidez da reacção da Ikea, sempre pronta a surfar a onda, mesmo quando esta ameaça ser gigante. Aposta imediata, retorno garantido. Emoção do momento capitalizada. Atenção conquistada junto de quem nem sabia que o Djungelskog existia, ou que um macaquinho havia sido rejeitado.
O que é doce mobiliza milhões e explode em likes. Mas a doçura, no mundo digital, não existe em abstracto. Funciona como combustível do algoritmo e da economia de mercado. Quando um peluche barato se transforma num símbolo global de consolo, não é apenas porque emociona, é porque o sistema de atenção converte emoção em valor comercial. A Ikea não inventou a história mas soube capitalizar a empatia, transformá-la em comunicação e vendas reais. Doou peluches ao zoo, garantiu companhia ao Punch e consolidou-se como protagonista de uma narrativa global de conforto e afecto. É fofo, temos de reconhecer.
Num mundo cada vez mais disperso, desligado e feito de ligações emocionais superficiais, ser um peluche que nos une é o paradoxo que faltava para provar como a empatia se simplificou e, talvez, se empobreceu. Nos vídeos que circulam, o Punch isolado é também metáfora da exclusão social, amplificada pela lógica tanto emocional quanto paradoxal das plataformas.
No mesmo espaço digital onde milhões aplaudem um macaquinho que procura amor, outros usam a metáfora do macaco como insulto. A mesma palavra, duas emoções opostas. Vivemos num tempo em que nos comovemos colectivamente com um animal que abraça um peluche, mas falhamos, repetidamente, em transformar essa empatia em mudança social concreta. Ficamos pelas emoções básicas, fragmentadas. As que nos permitem sentir ternura num feed e, no instante seguinte, gritar “macaco” sem noção.
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