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Alexandra Antunes
14.01.2026

O poder emocional de estarmos juntos à mesa!

Muitas pessoas passaram a comer sozinhas diante de um ecrã. Este isolamento compromete a possibilidade de estabelecer ligações com os outros, de comunicar e de sentir que faz parte de uma comunidade.

A aproximação da quadra festiva reaviva, em muitos, o tema da importância de conviver à mesa. Os hábitos alimentares estão muito para além de uma necessidade fisiológica e das escolhas nutricionais. A importância da companhia, do local e da frequência é determinante no nosso bem-estar físico e mental. Não há dúvida de que a alimentação é um comportamento emocional e social e que, por isso, o que acontece durante as refeições tem impacto direto nesse comportamento. Sabemos que conversar durante a refeição melhora o ritmo alimentar, facilita a regulação emocional e diminui a impulsividade. Por outro lado, a presença constante de tecnologia, como o telemóvel, a televisão ou o computador, desvia a atenção, aumenta ou reduz o consumo automático de alimentos e empobrece a experiência relacional.

Todos vivemos dias com ritmos acelerados e esta mudança de realidade fez com que muitas pessoas passassem a comer sozinhas e, muitas vezes, diante de um ecrã. Contudo, este isolamento compromete a possibilidade de estabelecer ligações com os outros, de comunicar e de sentir que faz parte de uma comunidade. Sentar-se à mesa com alguém é criar oportunidades únicas de conexão. O facto de poder partilhar as histórias do dia, o contacto visual e a atenção dedicada ao outro ativam mecanismos psicológicos que reforçam os vínculos e a sensação de suporte social.

Quando falamos de crianças e adolescentes, estes momentos são ainda mais determinantes. Hoje sabe-se que os jovens que fazem refeições familiares regulares apresentam menor risco de sintomas depressivos e ansiosos, têm melhor comunicação e menos comportamentos de risco. Não podemos esquecer que as refeições, para além de estimularem o reforço de vínculos, são também de aprendizagem. Perceber o comportamento dos outros à mesa permite apreender por modelagem. O ritual de sentar-se à mesa à mesma hora, a rotina de preparar a refeição ou até pequenos gestos, como esperar que todos estejam presentes, contribuem para a segurança emocional e a regulação do stress. Para crianças, esta constância é estruturante e securizante.

Em relação aos adultos, a companhia durante as refeições implica níveis mais elevados de satisfação com a vida e a perceção de redes de suporte mais estáveis, que é um fator decisivo numa sociedade onde a solidão cresce silenciosamente. O sentimento de pertença que surge durante as refeições tem peso psicológico pois funciona como uma espécie de âncora de estabilidade num dia frequentemente exigente. No sentido oposto, ou seja, a solidão às refeições pode ser um sinal de vulnerabilidade. Comer isoladamente, de forma repetida, está associado a maior risco de ansiedade, tristeza e pior qualidade da alimentação.

Os idosos, que de acordo com o estudo “Hábitos alimentares e Convivialidade?à Mesa”, da Pitagórica, fazem mais refeições sozinhos, devem ser alvo de preocupação da nossa sociedade. É importante que se promovam programas comunitários com refeições partilhadas. Estes momentos vão diminuir o sentimento de abandono e tristeza, muitas vezes presentes nesta faixa etária, e promovem, não só o bem-estar emocional e social, como escolhas alimentares saudáveis. Se estar juntos à mesa tem tanta influência sobre as nossas emoções, é, então, determinante que se façam mudanças. O que pode e deve ser feito? Escolher um momento por dia para comer sem ecrãs e dirigir atenção ao outro de forma ativa; envolver todos na preparação da refeição, ajuda a criar ligação e sentimento de colaboração; refeições comunitárias em escolas, empresas, lares ou entre vizinhos podem ser formas eficazes de combater o isolamento; estar atento a sinais de fragilidade emocional, nomeadamente quando o isolamento é uma opção para evitar estar com outras pessoas.

Comer acompanhado continua a ser um comportamento muito simples, mas que precisa de ser reforçado e revalorizado. A mesa é, sem dúvida, um lugar de encontro e cuidado, o espaço ideal para a construção de memórias afetivas e reforço de vínculos. Num mundo cada vez mais digital, devolver significado às refeições é devolver bem-estar emocional a todas as pessoas.

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