O jardim onde a imaginação ganhou raízes
Houve um escritor excêntrico, um poeta romântico e um colecionador apaixonado que mudaram para sempre a história de Monserrate. Hoje, o Parque e Palácio de Monserrate continua a ser um dos lugares mais surpreendentes de Sintra, onde arquitetura, natureza e cultura se encontram numa experiência única.
Há lugares que parecem nascer de uma ideia. Outros parecem nascer de um encontro. Monserrate pertence aos dois. Quem hoje percorre os seus caminhos dificilmente imagina que este lugar foi, durante séculos, sendo transformado pelas mãos e pela imaginação de diferentes protagonistas. Primeiro surgiu uma pequena ermida. Depois vieram o terramoto, o abandono, os viajantes românticos e os escritores fascinados pela Serra de Sintra. Finalmente, um industrial inglês decidiu transformar aquele cenário numa das mais extraordinárias obras do Romantismo europeu. O resultado continua a surpreender quase dois séculos depois.
É precisamente essa sucessão de encontros que inspira o quarto episódio de O Tempo de Sintra, a série criada pela Parques de Sintra para celebrar os 30 anos da classificação da Paisagem Cultural de Sintra como Património Mundial da UNESCO. Em Monserrate, o tempo não se observa apenas na arquitetura. Descobre-se na relação permanente entre natureza, arte e pessoas.
Um lugar que conquistou escritores antes de conquistar arquitetos
Muito antes da construção do palácio atual, Monserrate já despertava fascínio. No final do século XVIII, William Beckford, um dos homens mais ricos e excêntricos de Inglaterra, encontrou neste lugar um refúgio, onde transformou o palácio então existente e começou a moldar um espaço que refletia o seu gosto pelo exotismo, pela arquitetura e pela contemplação. Poucos anos depois, outro inglês ilustre chegaria à Serra de Sintra: Lord Byron. A passagem do poeta por Monserrate acabaria por marcar profundamente a reputação internacional do lugar. Ao descrevê-lo no poema Childe Harold’s Pilgrimage, Byron transformou Monserrate num destino quase mítico para sucessivas gerações de viajantes românticos. Foi essa aura que, décadas mais tarde, conquistou Sir Francis Cook.
O homem que transformou um sonho em património
Quando Francis Cook visitou Monserrate em meados do século XIX, encontrou um lugar cheio de histórias, mas distante da grandiosidade que hoje conhecemos.
Colecionador de arte, empresário de enorme sucesso e profundo admirador da paisagem de Sintra, decidiu adquirir a propriedade e transformá-la numa residência de verão sem paralelo em Portugal.
Com o arquiteto James Knowles Jr., concebeu um palácio no qual convivem influências góticas, indianas, islâmicas e renascentistas. No interior, colunas rendilhadas, estuques delicados, cúpulas e motivos vegetalistas criam uma continuidade quase impercetível entre arquitetura e natureza. No exterior, desenvolveu um parque onde espécies provenientes dos cinco continentes foram organizadas segundo a sua origem geográfica, numa das mais ambiciosas experiências botânicas do Romantismo europeu.
Nada foi deixado ao acaso. Cada caminho, cada vale, cada lago e cada árvore fazem parte de uma composição pensada para surpreender quem a percorre.
Um jardim onde o mundo inteiro cabe
Percorrer Monserrate é viajar por diferentes geografias sem sair da Serra de Sintra. Num vale, prosperam fetos-arbóreos vindos da Austrália e da Nova Zelândia. Mais adiante surgem bambus, camélias e espécies orientais que evocam jardins japoneses. O percurso continua até palmeiras, agaves e plantas características do México, convivendo naturalmente com medronheiros, sobreiros e outras espécies autóctones da Serra de Sintra.
Este diálogo entre diferentes paisagens traduz uma das ideias mais marcantes do Romantismo: a possibilidade de reunir o mundo inteiro num único jardim.
É também por isso que Monserrate integra atualmente a Rota Europeia dos Jardins Históricos, reconhecida pelo Conselho da Europa, distinguindo um património que ultrapassa fronteiras nacionais.
Um património que voltou a ganhar vida
Durante grande parte do século XX, Monserrate conheceu um longo período de degradação, até ter início um vasto programa de recuperação que permitiu restaurar coberturas, fachadas, interiores e jardins. O próprio processo de restauro foi acompanhado pelos visitantes, permitindo observar de perto um trabalho de conservação raro em Portugal. O palácio reabriu ao público em 2010 e a recuperação dos interiores prolongou-se até 2016.
Hoje, além da visita ao monumento, Monserrate acolhe concertos, iniciativas culturais, programas educativos e projetos ligados à conservação da natureza, mantendo vivo o espírito de encontro que sempre definiu este lugar.
O encontro continua
Talvez seja essa a maior surpresa de Monserrate. Não é apenas um palácio rodeado por um jardim extraordinário. É um lugar onde diferentes tempos continuam a cruzar-se.
O romantismo permanece na arquitetura. A natureza continua a transformar a paisagem. Novos visitantes percorrem os mesmos caminhos que inspiraram escritores, artistas e viajantes há mais de dois séculos. Celebrar os 30 anos da classificação da Paisagem Cultural de Sintra como Património Mundial da UNESCO é também reconhecer essa continuidade.
Porque Monserrate nunca foi apenas um lugar para contemplar. Continua a ser um lugar de encontro.