Medicina de precisão: quando o tratamento se ajusta ao ADN do tumor
Os testes biomoleculares já permitem tratar cada tumor de cancro do pulmão de forma individual. Saber identificar a mutação certa pode significar mais anos de vida e melhor qualidade de vida para o doente.
Agosto é o mês que se assinala do Dia Mundial do Cancro do Pulmão e como forma de sensibilizar para a Doença está em curso a campanha "Não Deixes que o Pulmão te Rebente na Mão", promovida pela Johnson & Johnson Innovative Medicine Portugal em parceria com a Pulmonale, Associação Portuguesa de Luta contra o Cancro do Pulmão.
Um dos alertas a reter desta campanha é que a medicina de precisão deixou de olhar para o cancro do pulmão como uma doença única. Hoje trata-se o tumor de cada doente em particular, um passo que depende de um elemento essencial: os testes biomoleculares realizados logo no momento do diagnóstico.
"Há 15 anos, o tratamento do cancro do pulmão avançado era praticamente uniforme para todos os doentes, a mesma quimioterapia, independentemente de quem tínhamos à nossa frente", recorda Nídia Caires, assistente hospitalar de Pneumologia Oncológica no Hospital Beatriz Ângelo.
Hoje, o cenário é outro. "Analisamos o ADN de cada tumor como se fosse uma impressão digital única, e isso permite-nos identificar mutações específicas, no gene EGFR, no ALK, no ROS1, entre outras, para as quais já existem terapêuticas dirigidas, desenhadas para bloquear aquela alteração genética em concreto", explica Nídia Caires.
O que são os biomarcadores e porque importam
Os biomarcadores são alterações genómicas próprias de cada tumor, uma espécie de assinatura biológica que ajuda a perceber o que está a impulsionar o crescimento da doença. Para as identificar, os médicos recorrem a testes como o NGS (Next-Generation Sequencing) e a avaliação da expressão de PD-L1.
"Cada tumor possui alterações genómicas próprias, uma espécie de impressão digital biológica que está na origem da doença", explica Patrícia Garrido, pneumologista na Unidade do Pulmão da Fundação Champalimaud. Segundo a especialista, cerca de 60% dos doentes com cancro do pulmão apresentam alterações moleculares para as quais já existem terapêuticas-alvo. "Em alguns subgrupos de doentes, a medicina de precisão pode mesmo reduzir o risco de morte em mais de 50%", sublinha a pneumologista.
As consequências de não testar um doente podem ser significativas. "Quando um doente não é testado para biomarcadores, pode perder a oportunidade de receber um tratamento mais eficaz, mais direcionado e potencialmente menos tóxico", alerta Patrícia Garrido, acrescentando que isso pode traduzir-se numa progressão mais rápida da doença e em maior sofrimento para o doente e a família.
Tratar cedo, tratar certo
Para Nídia Caires, o timing da primeira linha de tratamento é decisivo. "É, provavelmente, o fator isolado que mais pesa em todo o percurso da doença", afirma. "Um tumor tratado com a terapêutica errada, ou tarde demais, ganha tempo para adaptar-se, criar resistências e tornar-se mais agressivo", explica a pneumologista, para quem acertar na escolha logo à partida permite controlar a doença de forma muito mais eficaz, muitas vezes durante anos.
Na prática, dois doentes com o mesmo diagnóstico e no mesmo estádio podem hoje seguir tratamentos completamente diferentes. Um comprimido dirigido a uma mutação específica, uma imunoterapia, ou uma combinação das duas, porque o perfil molecular de cada tumor é único. "Doentes que antigamente tinham sobrevivências medidas em meses vivem hoje anos, com boa qualidade de vida. Muitos continuam a trabalhar, a viajar, a brincar com os netos", conta Nídia Caires.
Mais anos de vida e melhor qualidade de vida
A medicina de precisão não se mede apenas em tempo de sobrevivência. "Atualmente, o objetivo do tratamento não é apenas prolongar a sobrevivência, mas também garantir a melhor qualidade de vida possível, preservando a autonomia e o bem-estar dos doentes", nota Patrícia Garrido.
As terapias-alvo, ao atuarem especificamente nas células tumorais, permitem evitar tratamentos desnecessariamente tóxicos. "Um controlo mais rápido da doença traduz-se frequentemente numa redução dos sintomas e do sofrimento associado ao cancro", acrescenta a pneumologista.
Porque o diagnóstico ainda chega tarde
Apesar dos avanços terapêuticos, o diagnóstico precoce continua a ser o maior desafio. "O pulmão, em si, não dói. Um tumor pode crescer silenciosamente durante meses, até anos, sem provocar qualquer sintoma. E mesmo esses sinais, como uma tosse persistente ou cansaço, confundem-se facilmente com uma gripe mal curada, com a idade ou com banalidades do dia a dia ", explica Nídia Caires.
Todos os anos surgem mais de 6100 novos casos de cancro do pulmão em Portugal.
A isto soma-se a inexistência, em Portugal, de um programa de rastreio organizado para o cancro do pulmão. Segundo a pneumologista, o rastreio com TAC de tórax de baixa dose de radiação já demonstrou ser custo-efetivo em populações de risco, grandes fumadores ou ex-fumadores entre os 50 e os 80 anos, e pode reduzir a mortalidade por cancro do pulmão em mais de 20%.
Há ainda um segundo obstáculo, mais técnico. "Mesmo depois de termos o diagnóstico, o estudo genético do tumor, essencial para escolher a terapêutica dirigida certa, ainda demora, tipicamente, algumas semanas. E em oncologia, semanas contam, e muito", refere Nídia Caires. "O que falta não é conhecimento, é rastreio, é rapidez nos circuitos de diagnóstico, e é acesso equitativo aos testes moleculares em todo o país", remata a pneumologista.
Todos os anos surgem mais de 6100 novos casos de cancro do pulmão em Portugal, o equivalente a 9% do total de cancros diagnosticados no país. A doença é responsável por cerca de 5.600 mortes anuais e continua a ser a principal causa de morte por cancro em Portugal, apesar de não representar 10% da incidência oncológica total.
Um tratamento dirigido pode fazer a diferença. Informe-se junto do seu médico.