Começar de novo - a batalha de São Mamede de 24 de junho de 1128
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Já agora, que tal definir muito claramente qual o momento a partir do qual podemos afirmar que Portugal passou a existir como país independente?
Gostaria de clarificar, logo à partida, que não sou historiador, nem tenho qualquer vontade de o ser.
Mas gosto muito da História, e muito particularmente da História de Portugal, que é longa e rica.
E, obviamente, esse gosto estende-se, de igual modo, ao período que antecedeu o reconhecimento da independência do nosso país, e que se inicia com a criação, em 868, do Condado Portucalense, como consequência de uma campanha militar a que foi dado o nome “Pressúria de Portucale”, que foi desencadeada pelo nobre Vimara Peres e da qual resultou a tomada aos mouros da região que correspondia sensivelmente à área de entre Douro e Minho, cujo povoado principal era o então designado “Portus Cale”, o actual Porto.
Como prémio dessas conquistas, Vimara Peres foi investido como primeiro Conde desse Condado, que foi formalmente extinto com a assinatura, a 5 de outubro de 1143, do Tratado de Zamora.
Já agora, que tal definir muito claramente qual o momento a partir do qual podemos afirmar que Portugal passou a existir como país independente?
E não será esse momento exactamente o da assinatura desse tratado?
E, sendo assim e o meu intransigente republicanismo não me impede de o desejar, não deveríamos comemorar esse facto quando comemoramos a implantação da República?
Voltando à história das origens de Portugal, no contexto que descrevi, para além da batalha de Ourique, ocorrida em 25 de julho de 1139, o confronto que se desenvolveu há 898 anos entre as tropas de Afonso Henriques e as de sua mãe Teresa de Leão, assume uma especial relevância.
Efectivamente, a partir dessa data, foram abandonadas as ligações do condado com a Galiza e ficou definitivamente estabelecido que o objectivo político de obtenção da independência do mesmo se iria concretizar com a expansão do seu domínio para o sul, com a conquista de territórios aos muçulmanos.
O que veio a acontecer.
Recordo esses factos – e recomendo a leitura dos trabalhos do historiador José Mattoso sobre essa época histórica -, porque, nos tempos que correm, não encontro entre os dirigentes do país alguém que tenha uma ideia clara (ou sequer uma vaga ideia) de qual deve ser o desígnio nacional de Portugal e qual deve ser o seu papel num Mundo cada vez mais caótico e irracional.
Ou, se a têm, não a mostram nem divulgam, o que, a acontecer, será ainda muito pior, porque tal significaria (significará?) que esses desígnios ou objectivos são inconfessáveis e maléficos.
Reconheço que, dada a sua dimensão territorial e populacional, a relevância planetária de Portugal poderá não ser muita, especialmente tendo em conta que a Nova Ordem Mundial que está a ser construída sobre as ruínas daquela que vigorou a seguir ao final da Segunda Grande Guerra, assenta na força arbitrária dos poderosos. Mas tem alguma.
E, ainda que seja pouca, é indispensável que se saiba quais são os caminhos que, como Povo, queremos percorrer.
Ou, ao menos, e parafraseando José Régio, pseudónimo literário de José Maria dos Reis Pereira, aqueles que não queremos trilhar.
Mas esse é um debate que não está a ser feito, sendo que parece que ninguém o deseja ou pretende realizar.
Só que, entretanto, há actos que estão a ser praticados que indiciam que os portugueses e as portuguesas estão a ser conduzidos e conduzidas em direcções politicamente muito bem definidas e que, em minha opinião, são mesmo maléficas e constituem uma pérfida e perversa inversão do rumo que o país seguiu após o 25 de Abril (de 1974), pondo objectivamente em causa os valores éticos e morais que constituíram o sustentáculo desse nosso percurso histórico.
E, cinicamente, esses ataques - que são verdadeiros retrocessos, ou tentativas disso, aos tempos anteriores a essa data – são apresentados como constituindo novidades e progressos que visam um maior bem-estar da população e uma melhoria das suas condições de vida.
Que logro!
Refiro-me à legislação aprovada relativa às questões da nacionalidade, da igualdade e identidade de género, e às propostas de revisão constitucional e, mais recentemente, à felizmente chumbada proposta de revisão da lei laboral.
É, portanto, urgente denunciar os verdadeiros objectivos dessas políticas – que estão a conduzir para o alargamento do fosso que separa os poucos (e cada vez em menor número) que já são sociologicamente privilegiados daqueles que, em cada vez maior número, são desprotegidos, e que cada vez mais o são.
Mas é igualmente urgente apresentar alternativas viáveis a essas políticas e, trazendo de volta a racionalidade ao debate público, estabelecer objectivos que se traduzam numa real e efectiva melhoria das condições de vida da população do país.
Real e efectiva melhoria e não aquela que as alarves e desenvergonhadas mentiras da propaganda nos querem fazer crer que existe.
O pior é que não está a ser fácil parar para pensar quais são essas alternativas a essa “narrativa” dominante que contínua e sistematicamente nos inunda com propostas e mais propostas, criando problemas que não existiam, às quais, pela sua gravidade, têm de ser dadas respostas.
E, por outro lado, é bem possível que Valter Hugo Mãe esteja coberto de razão quando afirma que “o mundo corre o risco de estar a viver o século mais imbecil da história, marcado por uma infantilidade insuportável” e que “a imbecilidade perdeu a vergonha e ganhou auto-estima”.
Mas há que lutar contra essa situação.
O ideal social cosmopolita - ou, internacionalista, se assim for preferido - baseado na racionalidade solidária, com os outros e com o Planeta, expresso na proclamação “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” não é uma utopia irrealizável.
Bem pelo contrário.
Mas para um tal projecto poder ser concretizado temos mesmo de debater os temas que os novos Donos Disto Tudo não querem e não nos deixam discutir.
E, entre outros, um desses temas é o que respeita aos problemas da paz e da guerra e do tipo de União Europeia em que queremos viver.
Não deixemos que nos afoguem na espuma dos dias.
Começar de novo - a batalha de São Mamede de 24 de junho de 1128
Estou a referir-me ao convite feito pela Comissão Europeia a representantes do governo dos taliban para se deslocarem a Bruxelas para debater questões relativas aos “imigrantes” afegãos aos quais não foi concedido o direito de asilo no seio da União.
Nunca como hoje os meios tecnológicos - as novas tecnologias não são neutras nem apolíticas (porque nada na vida é neutro e muito menos apolítico) - foram um instrumento de manipulação tão poderoso.
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