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Uma viagem pelos navios do contágio: do hantavírus à peste negra

O caso mais mediático deste ano, e mais grave, foi o surto de hantavírus no MV Hondius, mas só em maio, milhares de pessoas viram-se isoladas em três navios de cruzeiro diferentes. No entanto, os surtos em navios têm uma história antiga.

Embarcar num navio de cruzeiro é, em si mesmo, uma espécie de confinamento. Durante semanas, por vezes meses, os passageiros passam a maior parte do seu tempo num meio de transporte rodeado por água de todos os lados, muitas vezes sem terra à vista. É certo que há sempre desembarques planeados nos roteiros, mas os navios sempre foram ecossistemas propícios para a propagação de doenças. Primeiro dentro e depois fora da viagem. 

MV Hondius
MV Hondius ELTON MONTEIRO/LUSA_EPA

A peste negra, por exemplo, foi trazida de barco para a Europa e durante séculos devastou populações. Felizmente, no mundo contemporâneo os casos de surtos de vírus em navios têm sido acompanhados com atenção. As autoridades de saúde determinam o isolamento e o tratamento e controlo partem daí. A SÁBADO fez uma incursão por alguns dos principais casos de surtos a bordo da história. Da frente, para trás. Até à peste negra. 

Caribbean Princess (2026)

A 11 de maio, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano publicou um relatório onde revelava as contas finais de um surto de norovírus, reportado a 7 de maio pelo navio de cruzeiro Caribbean Princess e amplamente difundido pela imprensa. A embarcação que tinha partido da Florida e navegava junto às Bahamas. Sem fatalidades registadas, foi acionado um plano que incluiu a desinfeção da embarcação, o isolamento dos passageiros e tripulantes doentes.

Ambition (2026)

Na verdade, o norovírus é também conhecido como “o pesadelo dos cruzeiros” e poucos dias depois, na noite de 12 de maio, 1700 pessoas ficaram confinadas no Ambition, um navio cruzeiro que tinha chegado a Bordéus, na França. O isolamento foi imposto devido a uma de epidemia de gastroenterite (que teve como agente o norovirus) que vitimou um homem de 92 anos a bordo e se espalhou por pelo menos 50 pessoas que demonstravam sintomas. A gastroenterite é uma doença caracterizada por inflamação gástrica e intestinal que pode ter origem em bactérias, vírus ou parasitas, muitas vezes contraída pela ingestão de alimentos contaminados. As autoridades de saúde acabaram por confirmar que se tratou de norovírus, uma gastroenterite viral aguda.

Cruzeiro Ambition retido em Bordéus devido a surto de gastroenterite
Cruzeiro Ambition retido em Bordéus devido a surto de gastroenterite

MV Hondius (2026)

Foi o mais grave e, por isso, o mais mediático surto a bordo dos últimos anos. Três pessoas morreram após ficarem infetadas com hantavírus, durante uma longa viagem a bordo do cruzeiro MV Hondius, que viajava entre a Argentina e Cabo Verde. A comunidade internacional uniu-se em torno do posterior isolamento de passageiros de várias nacionalidades e gerou alguma apreensão no mundo sobre se estaríamos perante uma nova pandemia. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já garantiu que não

Diamond Princess (2019)

Estávamos nos primórdios pandemia Covid-19. Antes de Portugal ir para dentro, 3711 passageiros do cruzeiro Diamond Princess ficaram várias semanas em quarentena na sequência de um surto do coronavírus, enquanto o navio estava ancorado no Japão. Cerca de 700 pessoas contraíram o vírus e o número de mortes nunca chegou a estar totalmente fechado, uma vez que algumas pessoas acabaram por morrer após o desembarque. As estimativas apontam para entre 7 e 14. A bordo seguia Adriano Maranhão, o primeiro português infetado com Covid-19. 

Costa Pacífica (2014)

No final de fevereiro de 2014, foi identificado um surto de sarampo a bordo do navio de cruzeiro Costa Pacifica, que tinha partido de Palma de Maiorca, Espanha, e atracado em Civitavecchia, Itália. Cerca de quarenta membros da tripulação apresentaram sintomas de um surto que, de acordo com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), teve como paciente zero um membro da tripulação. Embora o risco de transmissão fosse considerado elevado, não foram registados casos entre os passageiros e também não foi implementada quarentena total do navio. Em vez disso, as autoridades optaram por hospitalizar e isolar em terra dos membros da tripulação infetados ou suspeitos. O cruzeiro prosseguiu o seu itinerário normal, com inspeções sanitárias nos diferentes portos e monitorização contínua da situação. 

Legionella (1994)

Em 1994, a doenças dos legionários - também conhecida como Legionella - propagou-se por várias viagens do navio Horizon, que decorreram entre 30 de abril e 9 de julho, altura em que, junto às Bermudas, a sequência de surtos foi reconhecida. A doença transmite-se ao respirar aerossóis contaminados e uma investigação posterior acabou por encontrar a bactéria Legionella pneumophila no sistema de filtragem de um dos jacuzzis a bordo. Ao todo, foram identificados14 casos confirmados e 28 suspeitos. Segundo o CDC, foram implementadas várias intervenções, incluindo o tratamento da água com níveis elevados de cloro do sistema de água potável do navio, bem como a remoção dos filtros dos jacuzzis.  

Os navios da morte

Se recuarmos uns séculos, o cenário de surtos a bordo torna-se incomensuravelmente mais trágico. Foi o caso da peste Negra, que se propagou através das rotas marítimas, sobretudo pelos navios mercantes que ligavam o Oriente à Europa durante o século XIV. A bactéria Yersinia pestis era transportada por pulgas que viviam em ratos infestados a bordo dessas embarcações, permitindo que a doença viajasse rapidamente entre portos, infetando as populações locais e dando origem a novos focos de contágio. Estima-se que na Europa tenha causado entre 25 e 75 milhões de mortes.

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