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Tomás não resistiu à leucemia, mas outras crianças podem ter uma oportunidade

Lucília Galha
Lucília Galha 21 de abril de 2026 às 19:00
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Depois da morte do filho mais velho, a família (conhecida pelo nome Batazu) tem feito de tudo para conseguir que um inovador tratamento de imunoterapia possa ser feito no país. Ainda não existe produção de células CAR-T em Portugal - mas eles estão perto de o conseguir.

De uma experiência muito dura, e com um desfecho infeliz, está a nascer uma coisa positiva – e que pode vir a ser uma mais-valia no tratamento de crianças com cancro. Posto de outro maneira: a história de Tomás – o filho mais velho da família Batazu, que em 2021 foi diagnosticado com um tipo agressivo de cancro no sangue, leucemia mieloide aguda, mas não resistiu à doença – não foi em vão.

Tomás foi diagnosticado em 2021 com um tipo agressivo de cancro no sangue, mas não resistiu à doença.
Tomás foi diagnosticado em 2021 com um tipo agressivo de cancro no sangue, mas não resistiu à doença. DR

Desde a sua morte que os pais, Tomás e Margarida, têm lutado para trazer a produção de um tratamento de imunoterapia (as chamadas células CAR-T) para Portugal. E nesta terça-feira, 21 de abril, que é o dia em que se assinala internacionalmente a doença, anunciam mais um passo nesse sentido: a fundação de uma empresa de biotecnologia que vai permitir que isso aconteça.

“Percebemos que tudo o que vivemos com o nosso filho, que foram tempos espetaculares mas muito difíceis ao mesmo tempo, em que ele sofreu muito, pode ser uma mais-valia. Aproveitar aquilo que sabemos para trazer alguma coisa boa para as nossas crianças”, diz à SÁBADO o pai, Tomás Lamas, que é médico intensivista e fundador da empresa chamada .

O tratamento que está disponível para este tipo agressivo de tumor no sangue é a quimioterapia e o transplante de medula. “Nós últimos 20 anos, embora tenham surgido alguns fármacos, não houve uma mudança de paradigma”, lamenta. Depois de esgotarem estas opções com o filho – sendo que Tomás não pôde ser transplantado em Portugal, porque não reunia as condições necessárias – foram procurar outras opções ao estrangeiro.

Tomasinho (como a família o tratava) fez terapias inovadoras com células CAR-T em Israel e também na China – onde acabaria por morrer, a 8 de fevereiro de 2023. O tratamento é uma forma de imunoterapia que usa o próprio sistema imunitário do doente para combater o cancro. Também já existe em Portugal mas depende de centros de produção no estrangeiro.

A família começou a usar o nome Batazu, que significa guerreiro, em homenagem ao filho
Tomás (o segundo a contar da direita) com os irmãos Mariana, Carlota e Francisco
Família Batazu luta por terapia inovadora para leucemia em Portugal, após perda do filho.
Irmãos Batazu unidos por tratamento de leucemia inovador em Portugal

As células do doente são recolhidas no hospital (em sítios como o IPO de Lisboa ou o do Porto), enviadas para laboratórios na Europa e nos Estados Unidos que as modificam geneticamente, e depois reenviadas para Portugal para serem administradas. Outra limitação é que para este tipo de cancro (que Tomás tinha) não eram eficazes. “Porque a doença conseguia ter um mecanismo de escape à terapêutica”, explica o pai.

Mas, graças ao esforço desta família, isso pode estar prestes a mudar. “Procurámos encontrar soluções de CAR-T para introduzir em Portugal e surgiu esta oportunidade de uma que já foi desenvolvida nos Estados Unidos, que demonstrou grande eficácia na eliminação da doença”, conta Tomás Lamas.

O próximo passo

A novidade é que, de forma diferente de outras destas soluções que existem no mercado, tem um mecanismo que ataca dois alvos ao mesmo tempo. “O que faz com que a possibilidade de ter uma recaída depois da terapêutica reduza significativamente”, diz. Outra boa notícia é que a empresa criada pela família conseguiu obter as patentes para desenvolver esta tecnologia em Portugal.

Neste momento, estão a estabelecer parceria com uma empresa no norte de Portugal (para já não querem divulgar o nome) – que é das únicas com classificação específica própria para poder produzir terapias celulares avançadas. O próximo passo é demonstrar que é possível produzir esta CAR-T com segurança no país, e receber a aprovação das entidades reguladoras (da Agência Europeia do Medicamento, EMA, e do Infarmed). Mas para isso é preciso financiamento.

“Estamos a falar de cerca de um milhão de euros só para fazer esta parte do desenvolvimento e de demonstrar às autoridades que isto funciona. E como não é fácil encontrar este tipo de financiamento em Portugal submetemos candidatura a financiamento europeu”, diz.

Conseguindo o dinheiro para arrancar, prevê-se que os testes demorem um ano e que depois disso, se for tudo aprovado pelas entidades reguladoras, os ensaios clínicos (em doentes) possam logo começar. A ideia é usar a tecnologia como estratégia para reduzir a taxa de recaída dos doentes, ou seja, “como ponte para transplante”, avança.

Família Batazu procura terapia CAR-T para leucemia em Portugal após morte do filho
O que vivemos com o nosso filho pode ser uma mais-valia. Vamos aproveitar o que sabemos para trazer alguma coisa boa para as nossas crianças Tomás Lamas, médico intensivista e fundador da Batazu Advanced Therapeutics

O especialista explica porquê: “Os doentes, mesmo quando fazem o transplante, a taxa de recaída anda à volta dos 50%. E a taxa de sobrevivência ao fim de cinco anos é de 20%, o que é muito desanimador”, diz o pai. “Ao aplicarmos esta CAR-T nesta fase vamos conseguir, talvez, eliminar a chamada célula rainha responsável pela leucemia e, com isso, reduzirmos as recaídas. Se conseguirmos que baixe para os 20% já salvaria muitas vidas”, diz, esperançoso.

Apesar de manter o seu trabalho como médico, esta é a missão que ocupa todas as suas horas livres, admite Tomás Lamas. A família quer que o percurso e o infeliz desfecho do filho possam ganhar algum sentido - dando esperança aos doentes com leucemia mieloide aguda.

“Obviamente, não era isto que queríamos para o nosso filho, acreditámos fortemente que conseguiríamos chegar a uma solução, mas infelizmente não fomos a tempo. Portanto, queremos fazer aqui uma mudança e permitir que os filhos de outros não tenham de ir para o estrangeiro à procura de soluções.”

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