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Desde o começo da agressão russa à Ucrânia, a Hungria, não obstante ter eventualmente dado apoio aos diversos pacotes de sanções, tem sido o maior obstáculo a qualquer apoio a Kyiv.
Visto de Bruxelas, a União Europeia pode estar a poucas semanas de se ver livre de
Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria. Mas, seria um erro subestimar o
campeão da ‘democracia iliberal’ que está no poder desde 2010. No dia 12 de
abril, para além do futuro da Hungria, joga-se o destino da Europa e põe-se à
prova a relação transatlântica: Orbán é o candidato favorito de Vladimir Putin
e de Donald Trump, já para não falar da proximidade entre Budapeste e Pequim.
Em Bruxelas, Kyiv e em muitas capitais dos vinte e sete, a derrota do Sr. Veto
seria uma notícia bem-vinda.
‘Compagnons
de route’
Se havia dúvidas de que Orbán tinha um fraquinho por
Vladimir Putin, a Rússia e a sua energia barata, as recentes revelações,
de que a Hungria passa, até em tempo real, informações para Moscovo de reuniões
a decorrer em Bruxelas, desfizeram-nas por completo. Budapeste, que começou por
apelidar estas notícias como fake news,
confirmou-as depois pela voz do seu
ministro dos negócios estrangeiros, declarando abertamente que falava com o seu
homólogo russo (entre outros) antes e depois dos Conselhos de Negócios
Estrangeiros da UE.
Desde o começo da agressão russa à Ucrânia, a Hungria,
não obstante ter eventualmente dado apoio aos diversos pacotes de sanções
(exceto o último que Budapeste bloqueou), tem
sido o maior obstáculo a qualquer apoio a Kyiv, opondo-se
também frontalmente à entrada do país na União. Até às eleições de 12 de abril,
é improvável que Orbán liberte a ajuda europeia de 90 mil milhões de euros à
Ucrânia, sem que seja sanada a disputa entre os dois países sobre o oleoduto de
Druzhba que transita pela Ucrânia e (ainda) abastece a Hungria e a Eslováquia
de petróleo russo.
O curioso caso do Sr. Orbán é que junta ao favoritismo
que lhe é dado pelos russos, a admiração e o apoio do Presidente Trump, da sua
administração e do movimento MAGA. O amigo americano eurocético, fiel ao seu
estilo, afirmou recentemente:
“Hungria: SAIAM E VÃO VOTAR EM VIKTOR ORBÁN. É um verdadeiro amigo, lutador e
VENCEDOR, e tem o meu total apoio para a reeleição como Primeiro-Ministro da
Hungria.” Dando corpo à nova Estratégia de Segurança Nacional, que privilegia partidos europeus ditos “patrióticos”
e crítica a UE, Marco Rubio tinha antes dado apoio público a Orbán numa visita ao
país em fevereiro. Já o movimento conservador nos EUA olha para a Hungria de
Orbán como possível inspiração e modelo.
Mais interessante ainda é que a somar a Trump e a
Putin, a Hungria tornou-se, recentemente, no principal destino do investimento direto estrangeiro chinês na Europa, superando a
Alemanha, a França e a Inglaterra, e é vista por muitos analistas como o país
mais pró-China na
Europa. Desconhece-se o que o magnata americano pensa desta ligação…
Naturalmente, o Sr. Orbán tem toda a legitimidade de
escolher com quem se dá. Mas, as amizades com estes líderes ou países contrastam
com o desprezo profundo que ele distila regularmente contra aquilo a que
designa por “burocratas Bruxelianos (Brusselian
no original).” Se von der Leyen era um caso perdido para Orbán (o desdém é
mútuo), parece que agora nem António Costa
consegue amansar o líder húngaro.
Democracia
iliberal
Excluindo as afinidades internacionais que complicam a
política externa da UE e que frequentemente dificultam a afirmação do bloco
europeu de forma coerente lá fora, as violações frequentes ao Estado de Direito
e a defesa do conceito de ‘democracia
iliberal’ por parte de Viktor Orbán comprometem, internamente, o projeto de
integração europeia. De acordo com
um relatório recente da Comissão das Liberdades Cívicas do Parlamento Europeu,
o ataque ao Estado de Direito e às liberdades no país continua a agravar-se.
Outra chaga que define os anos de governação de Orbán
é a alegada corrupção endémica, frequentemente associada a amigos ou familiares
do primeiro-ministro. Hoje, de acordo com a transparency international, a
Hungria é o país mais corrupto
da UE, na posição 82 entre 182 países. A somar a isto, após dezasseis anos no
poder, muitas das instituições do país e os média estão ligados ou são controlados por Orbán ou pelo
seu partido, Fidesz. Esta ‘captura’ tem importância tanto no presente como para
o futuro.
Será desta?
A julgar pela maioria das sondagens, os dias de Orbán poderão
estar contados. Na mais recente pesquisa de opinião, a distância do principal opositor, o eurodeputado Péter Magyar, aumentou:
o seu partido, Tisza, conta com 46% das intenções de voto, enquanto que o
Fidesz de Orbán se fica pelos 30%. Segundo o mesmo estudo, entre os eleitores
que já decidiram o seu voto, 58% estão com o novo partido da oposição e 35% com
o partido do governo. No entanto, seria um erro subestimar Viktor Orbán. Em
eleições anteriores também houve a expetativa (depois gorada) de que ele saísse
derrotado.
As eleições de dia 12 de abril até poderão ser livres.
É duvidoso é que sejam disputadas em pé de igualdade, dada a ‘orbanização’ do
país, já para não falar nos apoios externos importantes que Orbán tem. O atual
regime na Hungria tem muito a perder com uma derrota nas eleições e por isso
nada nos deve surpreender nem na campanha eleitoral, nem nos resultados. A
diferença desta vez é que a oposição se galvanizou à volta de um candidato
credível com hipóteses de vencer.
Ora, mesmo que Péter Magyar ganhe, teme-se que a
vitória possa ser curta, comprometendo a governação que poderá também ser
dificultada por todos aqueles que o primeiro-ministro foi colocando no aparelho
do Estado e nas empresas públicas. Mas, há esperança que a situação política
possa mudar como mudou na Polónia com o regresso ao poder de Donald Tusk.
Hungria: para
além do veto
De acordo com Michal
Ovádek, professor no University
College London, houve, desde 2011, 48 vetos por parte de países
da UE, impedindo uma atuação conjunta dos vinte e sete. Na estatística, a
Hungria conta com 21 vetos, seguida pela Polónia com sete. Nos demais casos, ou
são dois ou um veto entre os quinze países que usaram esse mecanismo. Caso
Orbán seja reeleito, este problema vai seguramente agravar-se.
Num cenário em que a oposição vença, a expetativa é
que a obstrução persistente à tomada de decisões em Bruxelas acabe. Só isso, já
seria um avanço. O que não deveria surpreender é se, mesmo mudando o estilo, Péter
Magyar continuasse algumas políticas de Orbán no que diz respeito à Ucrânia, à
energia russa ou à imigração.
Desde o começo da agressão russa à Ucrânia, a Hungria, não obstante ter eventualmente dado apoio aos diversos pacotes de sanções, tem sido o maior obstáculo a qualquer apoio a Kyiv.
O ano de 2026, que só leva 2 meses e uns dias, é já uma eternidade em termos geopolíticos e a UE não parece estar a passar no exame que tem pela frente para se afirmar como um ator global estratégico.
A convergência de fatores externos e internos vai continuar a pressionar os decisores europeus à medida que o crescimento económico continua morno, a erosão de consensos e as pressões sobre os governos se intensificam, a competição por recursos naturais acelera, a crise climática não abranda e os ataques híbridos e a insegurança cibernética passam a ser mais frequentes.
Com a velocidade a que os acontecimentos se sucedem, a UE não pode continuar a adiar escolhas difíceis sobre o seu futuro. A hora dos pró-europeus é agora: ainda estão em maioria e 74% da população europeia acredita que a adesão dos seus países à UE os beneficiou.
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