Sábado – Pense por si

Vitaliy Venislavskyy
Vitaliy Venislavskyy Investigador em História, Segurança e Defesa
27 de março de 2026 às 07:00

A armadilha da escalada

Porque é que as guerras são mais fáceis de começar do que de terminar.

As guerras modernas raramente começam com a intenção de se tornarem grandes guerras. Normalmente, os objetivos declarados são relativamente limitados: restaurar a dissuasão, punir um adversário, alterar o equilíbrio estratégico ou forçar negociações. No entanto, um estudo retrospectivo mostra que, uma vez iniciado o confronto militar, controlar o seu ritmo e a sua intensidade torna-se extraordinariamente difícil.

É precisamente esse risco que hoje paira sobre o conflito entre a coligação Israel/Estados Unidos e o Irão. Não estamos ainda perante uma guerra total no Médio Oriente, apesar da alta intensidade das operações militares. O que vemos é algo mais subtil e potencialmente mais perigoso: uma guerra calibrada, onde cada lado tenta pressionar o adversário sem atravessar o limiar de uma escalada regional irreversível.

O problema é que guerras calibradas são, por definição, instáveis.

Objetivos políticos que não foram alcançados

A operação militar conduzida por Israel e pelos Estados Unidos tem três objetivos implícitos. O primeiro era degradar seriamente a capacidade estratégica iraniana. O segundo era forçar Teerão a aceitar um novo acordo nuclear sob pressão militar. E o terceiro, a mudança de regime iraniano. Assim, pelo menos, foi constatado pelo Presidente dos EUA.

Até agora, apenas um desses objetivos parece ter sido parcialmente alcançado, e refiro-me à degradação da capacidade iraniana.

O regime iraniano não caiu. Pelo contrário, continua funcional e não há sinais claros de que esteja disposto a regressar rapidamente à mesa de negociações em condições favoráveis para Washington.

Isto cria um problema clássico de estratégia: quando o instrumento militar não produz rapidamente os efeitos políticos esperados, aumenta a tentação de escalar o conflito para tentar alterar o resultado.

A lógica da sobrevivência iraniana

Do lado iraniano, o cálculo pode ser bastante diferente. Para a liderança de Teerão, a vitória não exige derrotar militarmente Israel ou os Estados Unidos. Exige apenas algo muito mais simples: sobreviver.

Essa lógica de sobrevivência é comum em regimes revolucionários sujeitos a pressão externa. O objetivo passa por absorver o choque inicial, preservar a estrutura do regime e prolongar o conflito o suficiente para que o adversário comece a enfrentar custos políticos crescentes.

Além disso, o Irão possui um instrumento de pressão importante: a capacidade de projetar instabilidade regional através de aliados e milícias em vários pontos do Médio Oriente. Essa rede permite aumentar a pressão sem necessariamente entrar numa guerra convencional direta com os Estados Unidos. Nesta mesma lógica, o Irão ataca os parceiros dos EUA na região, perseguindo o objetivo de fragilizar a coligação.

O fator tempo

É aqui que surge um dos riscos mais importantes deste conflito: a assimetria temporal.

Os Estados Unidos tendem a operar com horizontes políticos relativamente curtos. As operações militares externas são frequentemente concebidas para produzir resultados rápidos, tanto por precauções estratégicas como por motivos domésticos.

O Irão, por outro lado, pode estar preparado para um conflito mais prolongado. Se Teerão acreditar que consegue resistir durante tempo suficiente, pode apostar numa estratégia de desgaste político e económico sobre os seus adversários.

Quando dois atores entram em guerra com horizontes temporais diferentes, a probabilidade de escalada aumenta. Um lado procura encerrar rapidamente o conflito; o outro procura prolongá-lo.

A pressão regional

Há aqui uma equação que complica o controlo da escalada, que é o papel dos aliados regionais. Os países do Golfo Pérsico observam o conflito com grande preocupação.

Qualquer aumento da instabilidade pode afetar diretamente a segurança energética global e provocar choques significativos no mercado petrolífero.

Essa preocupação cria uma pressão adicional sobre Washington para garantir segurança e credibilidade estratégica na região. E essa pressão pode traduzir-se em maior envolvimento militar, mesmo que a intenção inicial fosse manter a operação limitada.

Assim, a escalada nem sempre resulta de decisões deliberadas de ampliar a guerra. Muitas vezes surge da soma de pequenas decisões destinadas a preservar credibilidade ou responder a pressões externas.

A sucessão no Irão

A morte de Ali Khamenei não desencadeou uma sequência de acontecimentos que levassem ao colapso rápido do regime, como alguns planeadores em Washington e Tel Aviv poderiam desejar. Pelo contrário, a sucessão de Mojtaba Khamenei agora consumada revela uma mutação profunda na estrutura do poder persa. Mojtaba é o rosto de um regime patrocinado e garantido pela Guarda Revolucionária (IRGC), ao contrário do pai Ali Khamenei, que tinha ascendido enquanto clérigo respeitado no regime.

Se antes a IRGC era um "Estado dentro do Estado", hoje ela é o próprio garante da sucessão. A instituição assumiu o papel de árbitro final, assegurando que a transição para o filho do falecido Líder Supremo ocorresse sem contestação interna, transformando a Guarda no pilar de sobrevivência da dinastia. E isso altera profundamente a equação negocial. Trump não negoceia, hoje, com o mesmo Irão, com o qual negociou antes de 28 de fevereiro.

O risco de uma escalada não intencional

A história das guerras está cheia de exemplos de conflitos que se expandiram para além das intenções iniciais dos seus protagonistas. O problema raramente é uma decisão consciente de travar uma grande guerra. O problema é a dificuldade de controlar uma série de escaladas sucessivas.

Cada ataque gera pressão por resposta. Cada resposta cria novas exigências de credibilidade. E, gradualmente, o espaço político para a desescalada torna-se cada vez mais estreito.

Neste contexto, a maior ameaça não é uma decisão súbita de entrar numa guerra total. A maior ameaça é um processo gradual em que nenhum dos lados quer escalar demasiado, mas também nenhum consegue recuar.

Conter a guerra

Conter a escalada exigiria algo que raramente existe em conflitos deste tipo: canais diplomáticos eficazes e incentivos políticos claros para a desescalada.

Sem esses mecanismos, as guerras tendem a seguir a sua própria lógica interna. Uma lógica onde decisões tomadas para preservar credibilidade no curto prazo podem acabar por ampliar o conflito no longo prazo.

É por isso que a armadilha da escalada continua a ser uma das maiores dificuldades da estratégia militar contemporânea. Começar uma guerra pode ser uma decisão política. Terminá-la raramente é.

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