O rei chokwe atribui essas práticas a uma aculturação e também à "proliferação de muitas seitas religiosas"
O rei chokwe disse à Lusa que a condenação, na segunda-feira, pelo Papa, em Saurimo, de práticas de feitiçaria fazem "todo o sentido", apelando à união de esforços para acabar este fenómeno nesta região angolana.
Papa celebra missa em SaurimoAMPE ROGÉRIO/LUSA_EPA
Mwatchissenge Wa Tembo considerou que a condenação do Papa Leão XIV às práticas de feitiçaria "faz muito sentido, porque é um fenómeno que está a ganhar velocidade" e tem de ser travado. "Há necessidade de um entrosamento entre a igreja, as autoridades do Estado e as autoridades tradicionais (...) para combaterem esses males", disse.
Criticando que se associe a prática da feitiçaria às autoridades tradicionais, o rei das Lundas salientou existir "muita diferença" entre o poder deixado pelos ancestrais e a questão de feiticismo. Mwatchissengue afirmou que não se recorda de, na sua infância, "os mais velhos serem abandonados" ou os "pais serem corridos pelos filhos" por práticas de feitiçaria, lamentando que atualmente este se tenha tornado "um fenómeno muito grande".
O rei chokwe atribui essas práticas a uma aculturação e também à "proliferação de muitas seitas religiosas". Afirmando que, embora os chokwe sejam maioritários no Leste de Angola, existem outras tribos: "a única tribo em que, no passado, acusaram algumas crianças de serem feiticeiras é uma tribo que não faz parte do povo chokwe".
"Mas, hoje em dia, estamos a ver crianças de 6, 7, 8 anos serem acusadas de feitiçaria. Isto tudo é mesmo por causa de muitas igrejas que não trazem uma boa mensagem, estão a dividir famílias, estão a destruir lares, é um caso que o Governo deve estar a ver", afirmou. Segundo Mwatchissengue, estas acusações estão a surgir nas zonas urbanas, onde estão essas seitas religiosas, "porque nas zonas rurais é difícil acusar uma criança de feitiçaria".
O mesmo está a acontecer quanto ao abandono de idosos acusados de feitiçaria, disse, acrescentando que "há igrejas que estão para educar e há igrejas que estão para destruir". Acabar com este fenómeno exige um "esforço conjunto" entre "as autoridades tradicionais, o Governo, as igrejas, a sociedade civil, o jornalista", defendeu.
"Nós, autoridade tradicional, no passado, quando não existia autoridade do Estado, tínhamos a nossas medidas para esse tipo de pessoas, é por isso que esse fenómeno não se alastrava. Hoje em dia, há situações que é só o Estado que deve resolver", enviando para a Justiça, "quando se trata da questão que já fere aquilo que é a sensibilidade humana".
Lembrando que no seu reino se realizam julgamentos, de casos menos graves, afirmou que, quando há punição, "as pessoas não voltam a fazer isso". "Deve haver uma valorização, por parte do Estado, das autoridades tradicionais, porque só elas é que sabem colocar o seu povo no seu lugar", declarou.
Mwatchissengue disse ainda partilhar a preocupação de Leão XIV com as injustiças e as desigualdades. "Quando alguns vivem bem, outros vivem mal, então nós estamos a construir uma sociedade [que não é] saudável, então vamos ter muitos problemas", declarou.
O Papa terminou esta terça-feira uma visita de três dias a Angola e termina na quinta-feira na Guiné Equatorial um périplo africano que o levou ainda à Argélia e aos Camarões.
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