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No dia em que chega ao espaço, Saramago pode desaparecer dos programas escolares

Satélites portugueses lançados para órbita esta segunda-feira têm nomes de escritores. Mas cá em baixo uma polémica surge em torno do valor dado ao Nobel da Literatura português.

Na manhã desta segunda-feira, 30 de março, seis satélites nacionais foram lançados, a partir de um foguetão Falcon 9 da Space X na base de Vandenberg, na Califórnia. Quatro desses satélites foram nomeados para homenagear quatro escritores portugueses: Agustina, Pessoa, Camões e Saramago. 24 horas antes surgia a notícia de que as obras deste último podem deixar de ser obrigatórias no ensino. 

Ivo Vieira com Pilar del Río, que foi à LusoSpace pôr um autocolante com uma frase de Saramago no satélite com o seu nome
Ivo Vieira com Pilar del Río, que foi à LusoSpace pôr um autocolante com uma frase de Saramago no satélite com o seu nome DR

Em causa está a versão preliminar revista das aprendizagens essenciais (AE) que entrou em consulta pública em 27 de março, num processo que vai durar um mês e que pretende recolher contributos da comunidade educativa, especialistas e sociedade. Nesta proposta de revisão, o escritor José Saramago, prémio Nobel da Literatura, deixa de ser de leitura obrigatória no 12.º ano. Até aqui as AE tinham duas obras de José Saramago como opção dentro do romance (Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis) e passariam a contar também com um livro de Mário de Carvalho como alternativa (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde).

Rapidamente começaram a surgir acusações de que o Governo queria retirar o único prémio Nobel português (e lusófono) do programa de ensino de Português.

O ministro da Educação veio a público dizer que a consulta pública sobre as aprendizagens essenciais, que inclui a possibilidade de José Saramago deixar de ser leitura obrigatória no 12.º ano, "é absolutamente técnica" e que não há ainda nenhuma decisão.

Também esta segunda-feira, a Fundação José Saramago sublinhou que procura sempre agregar e não comparar, mas questionou qual o critério para retirar o caráter obrigatório à obra do Nobel português das aprendizagens essenciais do ensino secundário. "A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar e de não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra 'ou' pela palavra 'e', juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores", pode ler-se num comunicado divulgado hoje pela fundação presidida por Pilar del Río.

No comunicado hoje divulgado, a Fundação José Saramago lembra o fecho do discurso de agradecimento do Nobel da Literatura, em 1998: "E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar".

Quem fica e quem sai

No conto, a proposta prevê um texto de Maria Judite de Carvalho como obrigatório ("George"), incluindo vários outros autores na lista em contrato de leitura: Manuel da Fonseca, Mário de Carvalho (dois nomes que, com Maria Judite de Carvalho, já figuram nas atuais aprendizagens essenciais), José Rodrigues Miguéis, Teresa Veiga, David-Mourão Ferreira, Lídia Jorge, Irene Lisboa e Luísa Costa Gomes.

Também na poesia a proposta prevê atualizações: Miguel Torga, Herberto Helder, Manuel Alegre e Luiza Neto Jorge deixam de constar da lista de opções para passar a incluir Fiama Hasse Pais Brandão, José Régio, Mário Cesariny, Ruy Cinatti, Vitorino Nemésio, Carlos de Oliveira, Raul de Carvalho, Salette Tavares (poemas visuais), Ana Hatherly (poemas visuais) e Luís Filipe de Castro Mendes.

Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, Ruy Belo, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral mantêm-se na lista de poetas contemporâneos a ler em modo de contrato de leitura.

Ainda na poesia, é proposto o alargamento do estudo da obra de Fernando Pessoa (mais poemas de ortónimo e de Mensagem) e o documento passa a integrar Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Teixeira de Pascoaes.  

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