Quando João Cotrim de Figueiredo o apertou num debate, Ventura respondeu com a confiança de quem conta com a memória curta do eleitorado e trata todos os eleitores por estúpidos.
Há revelações que fingem surpresa como quem tropeça num móvel que sempre esteve no meio da sala. A “descoberta” de que André Ventura votou em José Sócrates é uma dessas. Não é nova, não é chocante e não é irrelevante. É apenas embaraçosa, sobretudo porque Ventura fez o que sempre acusou os outros de fazer: negou, tergiversou e mentiu quando confrontado. Ademais, porque Ventura diz combater tudo aquilo que Sócrates representa. Diz, mas não o faz.
Quando João Cotrim de Figueiredo o apertou num debate, Ventura respondeu com a confiança de quem conta com a memória curta do eleitorado e trata todos os eleitores por estúpidos. Era uma mentira. Afirmou, aliás, que o que é escrito sobre ele ou sobre o Chega (qual é a diferença?) é quase sempre mentira. O problema é que a verdade tem um vício irritante: deixa rasto. E esse rasto não vem apenas de adversários políticos; vem também de quem o estudou de perto.
Alexandre Malhado, jornalista da Sábado e autor do livro Dias de Raiva, desmontou a versão com a serenidade de quem cita factos e páginas. Malhado não “acha”, não “supõe”: escreve, documenta e desmente. Documenta de forma imbatível: com um áudio da entrevista ao próprio André Ventura que deu origem ao livro, onde Ventura assume que foi enganado por Sócrates. E, para agravar a situação, o próprio Ventura já assumira o voto — num livro que ele próprio escreveu e durante a campanha autárquica de 2017, quando era candidato do PSD a Loures. A negação posterior não foi lapsus; foi método.
É aqui que o paralelismo com Sócrates deixa de ser coincidência e passa a ser padrão. Ambos são produtos de laboratório do sistema que dizem combater: carreiras moldadas na comunicação, na teatralização do conflito, na convicção de que a realidade é maleável se dita com suficiente convicção. Sócrates aperfeiçoou a técnica do “não fui eu, foram eles”; Ventura limita-se a atualizá-la para a era do sound bite e do directo televisivo vertido para o TikTok.
Há também a afinidade estética: a pose de vítima permanente, a retórica messiânica, a certeza inabalável de que qualquer crítica é perseguição. Em Sócrates, chamava-se “campanha negra”; em Ventura, “o sistema”. Muda o rótulo, mantém-se o conteúdo. Ambos acreditam que a verdade é negociável e que o eleitor prefere uma fabulosa história a um facto aborrecido.
O mais irónico é ver Ventura a brandir o anti-socratismo como certificado de pureza política, quando o seu percurso revela uma proximidade de práxis desconfortável. Não é saber muito de ambos para lhes reconhecer o estilo: a centralidade do ego, a alergia ao contraditório, a convicção de que mentir hoje é aceitável se render votos amanhã e a convicção que qualquer escrutínio é uma cabala com objectivo de vergar o homem na sua função de salvador nacional. É o mesmo manual, mudou a capa.
No fundo, Ventura e Sócrates representam duas edições do pior que o sistema já produziu: políticos que prometem romper com tudo enquanto reciclam os vícios de sempre. Ambos mais do que dispostos a vender o nosso futuro em nome da sua ambição pessoal; ambos confiam na amnésia colectiva e na ideia de que a coerência é um luxo para tempos calmos.
A revelação do voto não é, portanto, um escândalo. Até porque qualquer eleitor pode ser enganado por um populista mais ou menos capaz (Ventura que o diga!) O escândalo é a mentira posterior: a negação do facto já consumado e a convicção (esperança?) de que ninguém iria ligar os pontos. Sobretudo para quem diz que os portugueses gostam de quem lhes diz as verdades. Porém, os pontos foram ligados e o espelho político devolve uma imagem pouco favorável: por trás do discurso anti-sistema, está um reflexo bem conhecido. O cabelo é menos grisalho, mas o estilo é inconfundível. A imagem é tão vívida, tão vívida que dela emana o mesmo cheiro nauseabundo. Só mudam as moscas.
Politicamente falando, Ventura é o Sócrates do nosso tempo. Não por acaso nem por exagero, mas por afinidade. Ambos rodeados de yes-men (tachistas) que vivem nas suas sombras e os enaltecem por dizerem tudo e o seu contrário. Ambos acreditam que a política é um palco, onde a verdade é descartável e o eleitor existe apenas para aplaudir, nunca para questionar. O país já pagou caro por esse erro uma vez. A pergunta não é se Ventura será desmascarado, mas quanto nos custará, novamente, fingir que não vimos aquilo que sempre esteve à vista.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
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