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O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
O Chega nasceu prometendo uma coisa simples e sonora: acabar com os tachos. Varredura geral. Fim do compadrio. Guerra aberta ao “sistema”. A mensagem era clara, quase terapêutica: enquanto os outros distribuíam lugares, eles vinham fechar a cantina.
E, no entanto, bastou aproximarem-se do poder local - essa tentação menor, esse pecado aparentemente venial - para descobrirem que o problema nunca foi o tacho. Foi quem segurava a colher.
Em Lisboa, o caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada, sobretudo quando a namorada do vereador é colocada nos Serviços Sociais da autarquia, a filha de um dirigente do Chega vai trabalhar para a vereação e até uma cabeleireira surge como assessora para os espaços verdes. O que noutros era denunciado como “tachismo” passou a ser apresentado como gestão de confiança. A diferença é simples: quando são os outros, é promiscuidade; quando é o Chega, é mérito.
Mais a sul, em Albufeira, o enredo ganhou contornos quase familiares. Literalmente. O nome de Rui Cristino e a contratação da própria irmã não são apenas um detalhe administrativo; são um símbolo. Um símbolo de que o combate aos tachos pode ser uma excelente plataforma de lançamento para… novos tachos. O problema nunca foi o nepotismo em abstrato; foi o nepotismo alheio. Vai daí e toca a chamar a irmã que trabalhava numa câmara vizinha para trabalhar com o irmão.
A lista de incoerências do Chega não fica por aqui: por todo o país, autarcas eleitos pelo partido têm contratado outros eleitos do próprio Chega para funções remuneradas. No Entroncamento, o presidente da câmara nomeou um deputado municipal de Loures; em Almada, um vereador levou para o seu pelouro um autarca de Lisboa.
E assim se constrói a grande ironia: o partido que fez da indignação contra os privilégios a sua marca identitária começa a comportar-se como aquilo que dizia combater. Com a diferença de que o faz com a convicção moral de quem acredita estar acima do pecado estrutural.
Há algo de poeticamente português nisto. O discurso é inflamado, a denúncia é permanente, o dedo está sempre em riste até que chega a vez de escolher assessores, adjuntos, chefes de gabinete, técnicos de confiança. Nessa altura, o sistema já não é um monstro; é uma oportunidade. A pureza ideológica cede perante a utilidade prática. A meritocracia transforma-se numa caricatura de si própria, suficientemente ampla para acomodar amigos, conhecidos e parentes.
Dir-se-á que todos os partidos fazem o mesmo. Mentira. Não só não fazem, como apenas um desses partidos, faz da moralização da vida pública o seu principal argumento eleitoral. Nem todos construíram capital político à base da ideia de que eram diferentes, incorruptíveis, imunes ao vírus do tacho. A questão não é jurídica; é ética. Não é saber se os procedimentos cumpriram formalmente os requisitos legais. É saber se quem se apresentou como alternativa moral pode replicar os vícios que denunciava sem que isso revele uma tremenda hipocrisia.
O discurso anti-sistema vive de uma premissa simples: “eles são todos iguais, nós não”. O problema começa quando o “nós” começa a parecer desconfortavelmente parecido com o “eles”. Quando os tachos passam de escândalo estrutural a ferramenta de gestão. Quando a indignação dá lugar à normalização.
Talvez a lição seja menos sobre um partido específico e mais sobre a natureza do poder. O poder não transforma santos em pecadores; apenas revela prioridades. E, ao que parece, a prioridade não era acabar com os tachos. Era ocupá-los.
No fim, tudo fica mais claro. O combate do Chega não era contra o tacho. Era contra o seu tacho vazio.
O Chega não quer acabar com os tachos. Quer rapá-los todos.
Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
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