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Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
28 de novembro de 2025 às 07:00

O 25 de Novembro é uma data divisiva

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Edição de 17 a 23 de março

Os viúvos choram sempre: as lágrimas são sinceras, porque o país com que sonhavam morreu naquele dia. E não, não morreu por golpe reacionário.

Foi uma terça-feira intensa. Muitos julgam que o 25 de Novembro deveria ser uma data unânime e não divisiva. Eu estou plenamente convicto do contrário. O 25 de Novembro é uma data extremamente divisiva só que não é, como muitos narrativas querem fazer parecer, entre a esquerda e a direita, mas, sim, entre democratas e extremistas.

Até 2015, praticamente ninguém falava desta data, que era celebrada com algum pudor, talvez para não ferir suscetibilidades dos eternos viúvos do socialismo em trânsito para o comunismo. Honra-me pertencer a um partido – a Iniciativa Liberal – que desde sempre comemorou quer o 25 de Abril, quer o 25 de Novembro. Porém, os viúvos choram sempre: as lágrimas são sinceras, porque o país com que sonhavam morreu naquele dia. E não, não morreu por golpe reacionário. Morreu porque os portugueses, nas eleições de 25 de Abril de 1975, já tinham dito claramente que não queriam esse projeto. O povo é uma chatice quando não segue o guião comunista. Isto de ser quem mais ordena, tem muito que se lhe diga.

A verdade é que ao longo dos anos fomos transformando o 25 de Novembro numa espécie de instituição abstrata, uma data higienizada, quase decorativa. E quando as datas se tornam abstratas, esquecemo-nos do que estava realmente em causa. Não era um debate académico sobre modelos económicos. Era o fim de um período em que o caos se tinha tornado política pública.

Antes do 25 de Novembro, tínhamos detenções arbitrárias dignas de um manual de autoritarismo tropical. Mandados de captura assinados em branco, para despachar sem defesa qualquer “contra-revolucionário”. Comissões de trabalhadores a impedir o trabalho, porque nada diz mais “liberdade” como impedir pessoas de trabalhar. Uma normalidade tão avançada que incluía até um ataque à embaixada de Espanha que, imagine-se!, não levou à queda do regime fascista de Franco.

No Porto, no cerco ao Palácio de Cristal, militantes do CDS ficaram 12 horas a ouvir impropérios, tiros e a ver automóveis a serem alegremente incendiados. Tudo em nome de um futuro radiante, claro. E, como em qualquer processo revolucionário que se preze, a liberdade de imprensa durou o tempo suficiente para ser ocupada: Rádio Renascença, jornal República, saneamentos no Diário de Notícias conduzidos pelo camarada Saramago (a coerência sempre foi uma sua virtude), e, para fechar com chave de ouro, a ocupação da RTP.

O PREC não foi uma experiência bucólica. Foi um acelerador revolucionário que, depois do 11 de Março, levou a nacionalizações maciças, com zelo ideológico e sem qualquer consideração por quem tinha investido, criado empresas, empregos, ou simplesmente queria viver num país onde a propriedade deveria ter significado. A convicção comunista era enorme; os resultados eleitorais é que não acompanharam. Quando o PCP e reminiscências comunistas de menor monta perceberam que valiam menos de metade do que imaginavam, trataram de tentar impor pela força do PREC o que não conseguiram pelo voto.

É por isso que o 25 de Novembro merece ser celebrado e não apenas lembrado. Porque, ao contrário do que alguns insistem em proclamar, não poupou a “esquerda” nem salvou a “direita”: salvou a democracia. Salvou-nos de uma ditadura comunista. Separou quem acreditava que Portugal devia ser um país plural de quem achava que plural era sinónimo de “desvio ideológico”.

Celebrar o 25 de Novembro não é reabrir feridas. É reconhecer que houve quem quisesse fechar o país num projeto que nunca ganhou nas urnas e que, felizmente, não ganhou nas armas. E se isso ainda ofende alguns, talvez o problema não esteja na data, mas sim no luto eterno por um futuro que nunca chegou a existir. Se lhes dói, pois que lhes doa: esse é um preço muito baixo a pagar pela liberdade que foi conquistada. Que o PS queira renegar o seu papel fundamental no legado democrático que foi esta efeméride é triste? Sim… mas desde que me lembro de ser gente que o PS tenta conciliar o inconciliável: agradar à ala que o fundou e à ala que o condiciona. No processo, esquece-se de agradar à verdade. A História, porém, não depende de arranjos internos. E o 25 de Novembro continuará a ser celebrado. Com ou sem o PS, e sobretudo apesar dele.

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