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Gonçalo Capitão
Gonçalo Capitão Deputado do PSD
10 de fevereiro de 2026 às 07:16

12 garrafas depois

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Edição de 17 a 23 de março

Apesar da demagogia de carregar garrafas de água e de haver dúvidas sobre a genuinidade da quantidade de precipitação que aparece num dos vídeos em que Ventura se “transveste” de Super Homem, Seguro venceu em toda as zonas atingidas pelas tormentas.

Decididas as presidenciais, registo o desejo de estabilidade expresso pelo novo Presidente e a disponibilidade para consensualizar manifestada pelo Primeiro-Ministro.

Importa, ainda assim, pôr as coisas em perspectiva, sublinhando que António José Seguro não se limitou a ganhar; cilindrou André Ventura.

No entanto, mantenho o que afirmei antes: o Chega (o que é o mesmo que dizer Ventura) é o PCP da Direita; mesmo quando perde, ganha sempre.

Analisemos então os argumentos refinadamente fantasiados pelo nosso populista mais famoso. Em primeiro lugar, Ventura leva daqui a certeza de vir a governar, segundo disse. Se uma derrota for garantia de vitórias futuras, pensarei seriamente em apoiar o próximo adversário da minha Académica! Dito de outra forma, Ventura teve, como veremos, menos votos e menor percentagem (desde que não comparemos alhos com bugalhos) do que Luís Montenegro - olvidando até que ainda existe de permeio a Iniciativa Liberal - mas entende que é esta a rampa de lançamento que lhe faltava. Palavras para quê quando “o sonho comanda a vida”?...

Diz-nos que teve uma percentagem superior à da AD. Tecnicamente, devia estar distraído, porque não mentiu, se a análise não for comparativa.

Contudo, o resultado tem de ser lido com bom senso, algo que obviamente não ousaríamos pedir a Ventura. Vejamos…

1) Teve uma percentagem mais elevada nas presidenciais do que a da AD nas eleições legislativas, mas teve menos votos, quando seria tecnicamente mais fácil superar esse pecúlio.

2) Desde logo, porque existiam apenas dois contendores; ou seja, o “bolo” era apenas dividido por dois. O “grande líder” da Direita tinha de ter mais votos, agora que, segundo o próprio, representava todo esse sector do espectro político.

3) Mesmo em matéria de percentagem, superando a AD, voltamos ao ponto de início; tinha apenas um adversário, o que vale por dizer não teve de enfrentar, entre outros, Luís Montenegro. Com o caminho aberto, 33,2% acaba por ser uma percentagem pobre para quem nos quer governar, sendo que, para esse efeito, terá de enfrentar mais adversários (aliás, em Lisboa, Coimbra e no Porto, Ventura teve menos de 30%, acrescento). Fazendo as contas, nesta eleição os votos a mais que AD teve nas legislativas (particamente mais 280.000) equivaleriam a mais 5% do que obteve Ventura, pelo que até aqui perderia, se me não falha a matemática (pelo menos, sei que três não é o triplo de zero…).

4) Vem depois outra dúvida que deveria ser existencial para o próprio: então o grande líder da Direita tem metade (números redondos) do resultado obtido por um candidato que apelidou de “Melhoral” e que acusou de não ter ideias?! É este o homem que veio para nos salvar?!

5) Se, como repete constantemente, veio para livrar o povo das elites e de anos e anos de corrupção, podemos concluir que quase 70% dos eleitores pertence à elite e adora regimes corruptos?! Ou preferirá o líder do Chega apelidar dois terços dos votantes de ignorantes e ingratos?! Ventura é a nova muleta da Esquerda, isso sim.

Poderíamos continuar indefinidamente demonstrando a falácia que entusiasmou o impagável Pinto e a devota Rita. Basta, porém, dizer que não ganhou um só distrito ou uma região autónoma, venceu em apenas dois concelhos (um no Continente que não é qualquer um daqueles em que o Chega preside à câmara municipal) e em menos de centena e meia das mais de três mil freguesias do País.

Contudo, a meu ver, a cereja no topo do bolo (o tal de que só comeu um terço) é que, apesar da demagogia de carregar garrafas de água (querendo ajudar sem proveito próprio, fazia-o enviando um carregamento decentemente organizado e entregue discretamente) e de, ao que leio, haver dúvidas sobre a genuinidade da quantidade de precipitação que aparece num dos vídeos em que Ventura se “transveste” de Super Homem, Seguro venceu em toda as zonas atingidas pelas recentes tormentas. Isto apesar de, em alegado benefício das populações, Ventura ter quase que implorado o adiamento da votação.

Não sendo impossível um dissabor futuro, fica a nota de que, quando é necessário, a maioria silenciosa grita bem alto.

A Ventura, se a intenção era verdadeira, sobra agora tempo para continuar a carregar bens para quem deles necessita. Creio, contudo, que podemos esperar sentados. Se o esgar de dor era comovente com uma dúzia de garrafas, poupemos o líder da “sua própria direita” a uma hérnia discal.

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