Os adolescentes da década de 80 cresceram e já têm dinheiro para comprar o disco que sempre quiseram, o DVD dos desenhos animados preferidos ou a colecção de cromos que nunca chegaram a acabar. A nostalgia está a dar e rende milhões.
Responda depressa: rebentou teclados a jogar Decathlon no ZX Spectrum? Brincava ao bate-pé e ao elástico no recreio? Chorava desalmadamente com o Marco que nunca mais encontrava a mãe e com o ET? Fez o enxoval da Tucha? Para si o Herman José do Tal Canal é que tinha graça e o Michael Jackson do Thriller era um génio? Sim? Não é grave. Há uma geração de nostálgicos dos anos 80 que já fizeram nascer uma nova indústria. E o negócio rende milhões.
Década de 80 impulsiona negócio da nostalgia com música, filmes e colecionáveisRTP
Começou como Conan, aquele rapaz do futuro que limpava o nariz com os dedos dos pés. Os três amigos, todos trintões, falavam com saudades dos desenhos animados preferidos que nunca mais puderam ver. “E o Marco, sempre encontrou a mãe?”, perguntavam os mais traumatizados. “E como era mesmo a música do Tom Sawyer?” Ninguém passava do refrão, mas todos cantavam alegremente. Havia ali uma boa possibilidade de negócio.
“Somos todos fãs e quando nos juntávamos a conversar ia invariavelmente dar ao mesmo”, explica Diogo Bívar, 32 anos, que tem a vantagem única de ser dono, com os tais dois amigos, de uma empresa de venda e distribuição de filmes, a Newage. “Queríamos editar o Conan para podermos rever os episódios. Tínhamos a certeza de que ia funcionar e funcionou mesmo. Vendemos 28 mil cópias”, orgulha-se o sócio-gerente. “Viemos todos da LNK, tivemos de investir 150 mil euros e o negócio já está a dar lucro.”
Em três anos, a Newage, que edita grandes clássicos da animação, como Tom Sawyer, Banie Flapi ou O Micha, conseguiu uma facturação de 1,5 milhões de euros. “A geração que tinha 10 ou 12 anos em 1980 está bem na vida e pode comprar o que quiser”, raciocina Vítor Ferreira, outro sócio, que também fornece a desculpa para andar com um DVD de desenhos animados arcaicos debaixo do braço: “A minha filha Mafalda tem 6 anos e aprovou a nossa colecção.” Só há um problema: “Há um número limitado de séries. Vamos lançar Rui, o Pequeno Cid e depois acabou.”
É normal ter saudades da adolescência. Acontece com todas as gerações e a que cresceu nos anos 80 teve a sorte de viver uma época boa. Ainda se brincava na rua sem problemas, vestia-se calças de bombazine com joelheiras ou jardineiras de ganga e não havia telemóveis. Comprar um disco de vinil era uma festa e dançar um slow não era foleiro. O computador mais avançado era o ZX Spectrum e os jogos vinham em cassetes (hoje pode fazer downloads em www.worldofspectrum.org). Miguel Sousa Tavares e Manuela Moura Guedes eram os sex symbols, risca ao lado a imitar a estrela de Os Anjos de Charlie. As cadernetas de cromos eram um sucesso e a nota de 20 escudos era a mais utilizada entre os jovens.
Sim. É verdade que também havia os desenhos animados checoslovacos no programa de Vasco Granja e o Patrick Duffy com membranas nos pés, na série O Homem da Atlântida, era o máximo dos efeitos especiais. Freitas do Amaral lançou a moda do loden verde nas presidenciais de 86. O Tang e o Capri-Sonne eram as bebidas preferidas das crianças. Mais grave: as FP-25 de Abril e a sida. Portugal era um país ainda mais pobre, onde se demorava cinco horas de Lisboa ao Porto e mais um pouco da capital ao Algarve. Mas, mesmo contando com os capítulos negativos, a nostalgia vende.
Os bancos farejaram o negócio e a Caixa Geral de Depósitos foi o primeiro a apanhar a onda. Para vender um crédito à habitação destinado a clientes com 36 anos, usou uma imagem do cubo mágico, que quase toda a gente desmontou para conseguir pôr as faces iguais, e o hit dos Dexys Midnight Runners, Come on Eileen, que todos se lembram de assobiar. Porquê? “Procurou-se encontrar elementos de identificação dos jovens dos anos 80”, explica uma fonte do banco. “A música é um elo de ligação forte que une a geração que era adolescente durante essa década.”
Fernando Morgado não se admira. Este controlador financeiro do hotel Alfa é um homem sério que trabalha de fato e gravata durante o dia. À noite, veste T-shirts à antiga e põe música no Incógnito, um dos raros bares da moda nos anos 80, em Lisboa, que sobreviveu de boa saúde. Fernando é disc-jockey e responsável pelas festas pop e pop and a wave. Passa muita música da época e para além dos trintões óbvios que tiram o blusão de ganga do armário, já tem uma surpreendente clientela fiel: “É a cena do momento. Mais de metade do público dessas noites tem menos de 30 anos e reage bem às músicas.”
A geração dos filhos dos adolescentes dos anos 80 também ouve Joy Division, Talking Heads, Cure e Depeche Mode. “E coisas mais kitsch, como as Doce, os Fischer Z ou os Táxi.”
Na Mercearia, instalada no Estádio da Luz, em Lisboa, mata-se a nostalgia do estômago. Há bombocas das verdadeiras a 1,5 euros a caixa; sandes de Tulicreme para os gulosos e de Planta para os masoquistas; sombrinhas de chocolate e tabletes da Regina. “A frase mais ouvida dos clientes é ‘há tantos anos que eu não via isto’”, explica o gerente Francisco Garcia, que viciou a filha em rebuçados Bola de Neve e bolachas Beijinho.
Tiago Cunha e Silva é um dos tais filhos da geração de 80 com um olho raro para o negócio. Tem 23 anos, sabe tudo sobre séries, filmes e desenhos animados da época e ganha uns trocos a vender roupa usada. “Vejo o que as pessoas procuram, aceito encomendas dos amigos e dos amigos deles, compro tudo pela Internet e depois vendo.”
Quem pode gastar um pouco mais de dinheiro vai ao El Dorado, uma loja do Bairro Alto famosa por vender roupa em segunda mão extravagante e muito cara. “Os nossos clientes são mulheres de todas as idades e homens, digamos, do show business”, explica a gerente Joana Sarrazy, enquanto segura umas botas de borracha com florzinhas, o maior sucesso da loja. As galochas, que todos os miúdos dos anos 80 usavam para dar saltos nas poças, são agora um acessório elegante e custam 70 euros.
E há coisas mais exóticas: “Anda tudo à procura das calças afuniladas em baixo e com a cintura mais subida.” Um pormenor: custam 85 euros e são de napa brilhante. “Vinil”, corrige Sandra a correr para o charriot onde está pendurado mais um modelo de sucesso antigo que renasceu: as leggings. Parecem ceroulas, mas não: “São calças de lã justinhas e muito quentinhas. Podem usar-se com uma saia curtinha no Inverno.”
“É a onda do pijaminha”, precisa Alexandra Moura, estilista que fez sucesso na última ModaLisboa com uns modelos a lembrar o que se vestia há 20 anos. “É cíclico e estamos em pleno boom das influências dessa década. É visível sobretudo nas botas por cima das calças, nas leggings, nos macacões e nas camisolas de cor forte.”
Tiago satisfaz outro tipo de clientela: “Os artigos mais procurados são as T-shirts dos Joy Division e dos Clash, cintos com picos, óculos escuros Ray-Ban iguais aos do Tom Cruise em Top Gun e bonés de basebol metade rede, metade pano. Vende-se tudo.”
Um dos DVD com mais procura é o da série espanhola Verão Azul. Vendeu 38 mil exemplares, um valor que supera a trilogia da Guerra das Estrelas (22 mil) e “acima do que vendeu em Espanha”, admira-se Diogo Bívar, da Newage.
Há alguns meses, um grupo de cantores pegou numas cassetes com canções de António Variações, guardadas numa caixa de sapatos, e gravou um disco. Vendeu 120 mil exemplares. “Mais do que a soma dos meus seis discos”, brinca o fadista Camané. “A música dos Humanos reflecte o espírito dos anos 80, soa a anos 80 e, se calhar, essa é uma das razões para ter sucesso”, elogia.
“Isto não é uma loja”, protesta indignado Ricardo Leite na cave de um prédio cheio de prateleiras com bonecos minúsculos, naves da Guerra das Estrelas, cadernetas de cromos e um Darth Vader em tamanho natural. Ricardo tem 40 anos e vive do negócio das memórias há cinco. “Vendo daquilo às carradas”, diz a apontar para uma nave Eagle, do Espaço 1999. “Consigo facturar uns 5 mil euros por mês. O Astérix é o mais procurado. Mas o recorde foi um boneco do Obélix com o Idéfix na mão. Consegui 204 euros.” Os bonecos custam 5 euros cada. Um cubo mágico, 1 euro. Um ZX Spectrum, 5 euros.
Tarzan Boy. Quem? “Sou o Tarzan Boy. Era aquela música assim: óóó-óóóó.” E cantarola o grito do Tarzan. Paulo Cardoso é um ajuizado professor de Inglês que mora no Porto e criou um blogue chamado Queridos Anos 80 (http://dear80s.blogspot.com). Assina os textos com o nome do maior e único sucesso da banda Baltimore, disponibiliza telediscos da época e já conseguiu atrair 200 visitas diárias.
A mulher até entra na brincadeira. Lara Moutinho, 31 anos, coordenadora de projectos, assina Maria Magdalena, título de uma música da cantora alemã Sandra. “Faz-me sugestões, dá-me ideias e põe comentários no blogue”, elogia Paulo, para quem os anos 80 foram feitos de coisas banais, que agora ganham o encanto das foleirices antigas.
Entre outras “antiguidades”, Paulo guarda “uma colecção de cromos do México 86 e outra de caricaturas dos jogadores”. Outra moda de regresso: este ano, a Panini lançou uma colecção com as equipas da SuperLiga e os pais trintões andam a trocar os cromos repetidos alegremente e a esgotar os stocks nos quiosques. Os miúdos lá vão ganhando o gosto.
Com Sónia Lima
Artigo originalmente publicado a 29 de Dezembro de 2005.
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