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No planeta do disparate: uma semana com os Gato Fedorento

Dulce Garcia
Dulce Garcia 05 de maio de 2026 às 22:58
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Passam o tempo a jogar PlayStation, a dizer piadas e a fazer insinuações gay. No fim, ainda ganham dinheiro com isso. A SÁBADO acompanhou os Gato Fedorento durante vários dias — na praia, em Fátima, no estúdio e num campo de futebol.

Costa de Caparica

Os Gato Fedorento divertem-se na praia, em Fátima, num estúdio e num campo de futebol
Os Gato Fedorento divertem-se na praia, em Fátima, num estúdio e num campo de futebol Sérgio Lemos

Quarta-feira, 3 de Outubro

Depois de comer três pratos de sopa de feijão, Ricardo Araújo Pereira passa para a picanha, enquanto pergunta ao empregado brasileiro que circula com uma bandeja de imperiais: “Isso é para o campeão?” Ao lado, a mulher, Maria José Areias, ou Zé, conversa com uma das responsáveis do guarda-roupa do programa Diz que é uma Espécie de Magazine, Inês Borges, enquanto Tiago Dores tenta salvar o seu caderninho Moleskine e os óculos Prada da balbúrdia da mesa.

Miguel Góis manifesta o seu apreço pela refeição com um sinal sonoro (vulgo arroto) e um dos Gato Fedorento grita: “Estão abertas as hostilidades.” Ainda questionam se tal comportamento será apropriado na presença da comunicação social e das forças políticas da terra mas, se dúvidas houvesse, o olhar quase embevecido do presidente da Junta de Freguesia da Charneca de Caparica, Fernando Jorge Fernandes, acabava com elas. Aos Gato Fedorento perdoa-se tudo.

O autarca, que é também presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, não teve dúvidas quando foi preciso fazer opções de agenda. Entre uma reunião com outros políticos municipais e um dia a fazer de cicerone dos humoristas, escolheu a última hipótese. Ninguém o pode condenar. De manhã, foi vê-los gravarem um sketch no Campo dos Pescadores; agora está ali a rir-se das piadas de Araújo Pereira; e daí a nada vai levá-los à Junta de Freguesia, onde vão gravar uma cena com Vanessa Fernandes, campeã mundial de triatlo.

Ricardo Araújo Pereira está em casa. Vive ali perto, numa vivenda com piscina que foi assaltada depois de ter sido minuciosamente descrita num artigo da Grande Reportagem. Partilha-a com a mulher, as duas filhas – Rita e Inês, de 4 e 2 anos – e três cadelas que podem correr à vontade no extenso relvado.

A proximidade geográfica facilitou a presença de Maria José, produtora da RFM, no almoço, no restaurante Sabores Mineiros. Mas não escapa à piada: “Xii, veio comer à conta do presidente da Junta”, atira um dos Gatos. O riso alastra.

A regra é esta: todos fazem piadas sobre todos, ninguém tem medo de dizer asneiras e até se podem soltar uns traques. O ambiente é tipicamente masculino, mas sem os exageros do Clube do Bolinha. Aqui, menina entra. E é bem tratada.

Mas as fãs mais afoitas não têm grandes hipóteses. “Estão sempre com aquela coisa toda das raparigas, mas quando alguma avança mais, retraem-se”, conta o realizador Teotónio Bernardo, que os acompanha desde que Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela faziam uma rubrica no programa Perfeito Anormal, da SIC Radical.

A amizade garantiu-lhe uma senha: é o Tio. Porque no planeta dos Gatos cada um tem um petit nom. Ricardo é Cardi — “Vem de Cardinali porque ele sempre foi um grande palhaço”, explica Tiago Dores; José Diogo é Kaúzi, diminutivo de Kaúlza de Arriaga (a sua simpatia pela direita não será alheia a isto); Miguel Góis é Maqui, de Maquinal (é o organizador do grupo); e Tiago é Nandi — “Era Roti, de roto, mas não gostava…”, ironiza Quintela.

O massacre prossegue. “O Cardi é o mais comilão. Parece que tem dentes até ao rabo”, goza Tiago. “O Maqui é o pastelão. Ficamos sempre meia hora a mais à mesa por causa dele.” Góis entra na brincadeira. “O Fininho (o outro petit nom de Quintela) é o beto, mas não tem maneiras nenhumas à mesa. E já repararam que ele come os ‘des’? Deve ser para disfarçar. Diz Campo Ourique, casa banho.”

O grupo sai do restaurante para se ir vestir à Junta de Freguesia, transformada em posto da GNR. É lá que Vanessa Fernandes há-de ir pedir ajuda para tirar os Gato Fedorento de uma ilha deserta.

Acena, uma paródia à série Lost (Perdidos), abre e fecha o primeiro programa da terceira série de Diz que é uma Espécie de Magazine, da RTP1. No domingo, 7 de Outubro, foi o terceiro programa mais visto do dia, atrás do jogo União de Leiria-Benfica e dos comentários da partida, com 30,5% de share. Prova de que o público tinha saudades, de que a vida lhes sorri e de que até o poder os elogia.

Marcelo Rebelo de Sousa, que voltou a ser parodiado por Araújo Pereira, diz em público que eles têm um humor inteligente. E o primeiro-ministro, José Sócrates, terá comentado mais de uma vez a graça dos rapazes, que o puseram a dar lições de obediência a jornalistas.

É preciso aproveitar a onda de simpatia. “Quase todas as pessoas que eles convidam para o programa aceitam. E quando se fala em Gato Fedorento há uma série de portas que se abrem”, confirma Francisco Santos, o novo produtor do quarteto, que veio substituir Ana Torres. Trouxe com ele Afonso Azevedo Gomes, chefe de produção, e Sílvia Paulos, assistente.

No rés-do-chão da Junta, fazem-se rastreios auditivos. No primeiro andar, maquilhadoras e responsáveis pelo guarda-roupa rasgam e sujam de óleo os humoristas. Araújo Pereira não cabe nos ténis (calça o 47, é sempre um problema), eleva as calças rasgadas no cós porque não lhe servem. “Está mais gordo”, dizem. José Diogo também não consegue enfiar-se nos jeans e tem de ir com umas bermudas verde-garrafa.

A ilha deserta do Pacífico é, afinal, uma praia da Costa de Caparica, a Bela Vista, mais conhecida por Praia do 19 e que aparece referenciada no Portugal Gay como paraíso nudista. Está-se mesmo a ver as piadas. “Ó Tiago, está ali um homem nu a olhar para ti”, grita Araújo Pereira, enquanto Quintela escreve uma mensagem na areia: “O Cardi a…”.

“Querem ver? Ou é ‘abafa’ ou ‘agasalha’”, aposta Ricardo. Era “abafa”.

À equipa junta-se uma menina de roupão cor-de-rosa, que vai fazer de dupla de Vanessa Fernandes e mergulhar no mar gelado da Caparica. Os Gato Fedorento divertem-se. “Coitadinha. Demos-lhe almoço e agora mandamo-la para dentro de água. Ainda lhe dá alguma congestão.”

O humor não lhes tira a educação. Levantam-se para a cumprimentar e explicam-lhe o que fazer. Essa é outra particularidade do quarteto. Estão sempre a brincar, mas trabalham a sério. Visionam todas as cenas que gravam, dão palpites, sugerem melhorias e só abandonam o plateau quando se dão por satisfeitos. Ou quando há jogo do Benfica.

Como é o caso nessa noite. A ida ao estádio acaba por anular a gravação de uma promoção ao programa. É o que dá serem patrões deles próprios.

Quinta-feira, 4 de Outubro

Estúdio Cinemate, Matinha, Lisboa / Centro Paulo VI, Fátima

Já passadas 15h quando Ricardo entra na sala de maquilhagem, no primeiro andar dos estúdios da Cinemate, com uma raquete Tecnifibre na mão e um charuto Cohiba na outra. Ainda traz na cara o resultado do jogo da noite anterior, com os ucranianos do Shakhtar Donetsk. Escusado será dizer que assistiu à derrota do Benfica no seu lugar cativo, no Estádio da Luz. “Cá estamos…”, diz, entregando a raquete a Tiago Dores, que anda a dar aulas de ténis aos outros.

Miguel chega, entretanto, com o pulôver errado. “Olha o risquinhas. Essa camisola é um bocado… prò roto”, diz Araújo Pereira. Quando se pergunta quem é o mais vaidoso, a resposta é imediata. “O Quintela é o mais fashion.” E usa cremes. José Diogo defende-se: “É por causa da maquilhagem. Tive acne.”

Depois de maquilhados, Tiago e Quintela cortam o cabelo com Inês. É um hábito. Miguel já levou um cabeleireiro da Hair Station, um salão da moda, à Cinemate. E Ricardo Araújo Pereira tem um fetiche capilar: corta o cabelo com um ucraniano, num centro comercial da Charneca de Caparica. “Na véspera de gravar um programa fui lá, pedi pente quatro e o homem, sem querer, passou-me com o pente um e deixou-me uma pelada. Se vissem a cara dele a pedir desculpa [imita o sotaque de um ucraniano]… Desde aí vou sempre lá e peço pente dois. Assumi a carecada.” Sempre disfarça os cabelos brancos que já lhe ocupam boa parte da cabeça. Um sinal de charme, dizem. Ele não se pode queixar. Tem bandos de adolescentes a gritarem por ele, e até já deu autógrafos no peito de algumas.

Às 20h metem-se os quatro no carro de Tiago — um Renault Mégane — e arrancam para o Auditório do Centro Paulo VI, em Fátima. Este ano não se conseguiram esquivar à Gala da Central FM, onde estão convocados para receber o prémio de Melhor Programa de Humor Nacional. O convite inclui um jantar no famoso restaurante Tromba Rija e quarto no Hotel Regina. “Malta, Hotel Gina… Isto é demais”, brinca Araújo Pereira, que nessa tarde, e antes da conferência de imprensa que a RTP marcou para apresentar a nova série de programas, recebe a visita da mulher e das duas filhas.

A piada é arrojada mas o discurso da directora da Central FM, Emília Pinto, escrito pelo seu próprio punho, deixa-os KO. É uma variação subversiva do pai-nosso, que lhes chama, entre outras coisas, espermatozóides do humor nacional.

O quarteto está sentado na primeira fila, mas só actua no fim da noite, para manter a plateia em polvorosa. Durante o intervalo, ofuscam todas as caras famosas da RTP — José Carlos Malato, João Baião, Sílvia Alberto, Fátima Campos Ferreira — e são devorados por uma multidão que se bate por autógrafos e fotografias.

José Diogo Quintela, sentado ao lado do governador civil de Leiria, José Miguel Medeiros, intercala a conversa com uma competição sui generis: ele e Ricardo tentam bater a última palma de cada vez que alguém discursa. As gargalhadas sucedem-se.

Quando sobem ao palco, para receber o prémio das mãos de Herman José, Tiago Dores não perdoa: “Penso que é a primeira vez que se pronuncia a palavra espermatozóide neste auditório.”

A seguir vê-se um dos sketches mais famosos do Diz que é uma Espécie de Magazine, aquele em que Araújo Pereira imita Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito do referendo ao aborto. Outra heresia, tendo em conta que estão num auditório com nome de Papa, a poucos metros do Santuário de Fátima. Mas ninguém pára de rir. Este ninguém inclui Patrícia Cavaco Silva, filha do Presidente da República, sentada ao lado do marido, Luís Montez.

Nas traseiras do palco, ainda têm tempo para se aproximar da mesa da ceia e conversar com Sérgio Godinho. A seguir fogem de mais autógrafos e metem-se no carro.

Sexta-feira, 5 de Outubro

Estúdio Cinemate, Matinha, Lisboa

Ricardo Araújo Pereira chega às 16h45, com livros e jornais debaixo do braço. Vem de boleia porque o seu jipe Volkswagen Touareg preto tinha ficado na noite anterior estacionado nos estúdios, ao pé da carrinha Citroën Picasso de Miguel Góis. Entrega-se à leitura do jornal Record, enquanto Inês Franco lhe forra a cabeça com látex para o caracterizar como Luiz Felipe Scolari.

À sua frente, deposita O Meu Nome é Legião, o último romance de António Lobo Antunes, de quem já fez a apresentação de uma obra. Sabe-se que é consumidor compulsivo de livros e que os seus interesses oscilam entre o romance, a poesia e a BD (é louco pelas aventuras de Tintim, de Hergé). Tem cultura geral muito acima da média. A entrevista que deu a Judite de Sousa, a 11 de Janeiro, matou as dúvidas. Foi a Grande Entrevista mais vista de sempre, com 33,6% de share.

Miguel Góis é o último a chegar, perto das 19h. Vem de Carnaxide, onde vive com a mulher, Teresa, e os dois filhos, Gonçalo e Frederico, de 2 e 4 anos. As crianças — que tratam os outros Gatos por tios — têm um certo receio de José Diogo Quintela. “Vieram substituir dois figurantes que falharam e fizeram um sketch como Fininho, em que ele prometia arrancar-lhes a língua. Ficaram com medo até hoje”, conta Miguel.

As relações do grupo não têm só a ver com trabalho. Todos frequentam a casa de todos e até trocam presentes de Natal. “Mas vamos deixar-nos disso”, diz Quintela, o único solteiro e também o mais noctívago dos quatro. Sai uma vez por semana com os amigos e põe música em dois bares do Bairro Alto: o Frágil e o Napron. Gosta de rock, de pop e de música popular portuguesa, como a dos Anjos, com que este ano fez um sucesso incrível, no Festival Sudoeste.

A mania dos pratos partilha-a com o amigo Nuno Miguel Guedes, o outro membro dos DJs do C…… Em casa, acumula CDs e DVDs, que encomenda pela Internet. Na literatura, tem veia anglo-saxónica — acabou de ler um romance de Philip Roth, O Complexo de Portnoy, e colecciona livros do britânico Evelyn Waugh.

De todos os Gatos, é o único de direita, do Sporting e que não acabou o curso de Comunicação Social no ISCSP. “Comecei a trabalhar na Expo 98, perdi o ano e nunca mais lá fui.” Ricardo e Miguel formaram-se ambos em Comunicação Social na Universidade Católica. Tiago Dores é o economista do grupo.

Os Gatos entram e saem para gravar os “croma” — são filmados à frente de uma parede e posteriormente encaixados em cenários reais. É a técnica usada para fazer os famosos Tesourinhos Deprimentes, que se tornaram o maior sucesso do programa. No início, eram os próprios humoristas a lembrar-se de programas e episódios hilariantes. “O Luís Arriaga, por exemplo”, diz Tiago Dores. Também houve funcionários da RTP a mandarem sugestões. “Foi o que aconteceu com o Tudo às Escuras, da Rita Salema. Pegámos na cassete e, logo nos primeiros três programas, descobrimos aquelas pérolas.”

O grupo termina o contrato com a RTP no fim do ano e ainda não sabe o que fazer à vida. Falaram em 2008 como um ano sabático, mas a pausa não deve ultrapassar os seis meses. “É o mínimo, para podermos pensar num formato novo, e regressar lá para Outubro de 2008”, revela Tiago Dores.

Nuno Santos, director de Programas da RTP, não parece disposto a deixá-los fugir. Mesmo que tenha de repensar o orçamento. Os Gatos são pagos duas vezes: como autores do programa e como produtores. Fala-se em 250 mil euros só para pôr o programa de pé, mas nenhum confirma. “Só posso dizer que preferimos ser nós a gerir a verba. Assim não deixamos de fazer o que queremos por falta de orçamento”, explica Miguel Góis.

O quarteto pode queixar-se de tudo menos de estar na bancarrota. Continuam todos a dar a cara pela PT, com a qual assinaram em Junho mais um contrato semestral. Os 50 mil euros que se diz cobrarem, semestralmente, pela publicidade fazem pouco sentido. “É realmente um valor baixo”, admite Miguel Góis, instigado — sem sucesso — a corrigir valores.

Sábado, 6 de Outubro, 21h

Estúdio Cinemate, Matinha, Lisboa

Grupos de rapazes e raparigas começam a espalhar-se pelo velho armazém do Estúdio Cinemate, junto à Expo, onde há cartazes de Kilas, o Mau da Fita, e de Monica Bellucci. A faixa etária dominante na plateia para assistir à gravação do programa dos Gatos vai dos 18 aos 30 anos, mas há gente mais velha e crianças que podiam já estar a dormir.

“Eles costumam pedir para não ter público abaixo dos 15 anos, por causa das piadas”, explica Francisco Santos, antes de se ir juntar ao grupo, na sala com Sport TV, no segundo andar.

José Diogo ataca um bife com ovo, encomendado no restaurante mais abaixo, enquanto vê o Sporting-Vitória de Guimarães. A Sagres sobe e desce na sua mão e é finalmente pousada com estrondo na mesa quando os leões marcam o primeiro dos três golos da noite.

Miguel Góis e Tiago Dores abrem as marmitas do bacalhau com natas. Só um foge à cerveja: Tiago, que enche o copo de Coca-Cola. Ricardo faz um reparo à ementa: “É pá, encontrei um bocado de bacalhau no meu sal”, ironiza.

De comando na mão, Quintela alterna o futebol com o râguebi, que praticou durante vários anos. A vitória surpreendente da selecção francesa sobre a Nova Zelândia reanima-lhe a gíria da modalidade. “Olha-me para aquela placagem.”

Os outros testam a memória, tentando construir o 11 ideal do Benfica quando disputou a final da Taça UEFA, em 1982-1983. “Shéu, Diamantino…”, enumera Quintela, doido para se meter ao barulho.

Raquel Cautela, a anotadora — ou Shorty, como chamam à ruiva baixinha e simpática — anda à volta deles, a confirmar o alinhamento do programa.

Miguel pede um bolo de bolacha mas, à falta deste, contenta-se com um pedaço de bolo de chocolate e um café. Ricardo desaparece por uns bons 45 minutos, para se fechar numa sala a escrever a crónica para o jornal A Bola. Tem mais duas colaborações: uma no Sapo, onde faz um filme semanal; outra na revista Visão, onde assina uma crónica. Miguel escreve para o Record e José Diogo Quintela para o Público, e também colabora com o Sapo. Só Tiago se dedica em exclusivo aos Gato Fedorento.

O realizador Teotónio Bernardo aproveita para contar alguns episódios hilariantes que passou com eles. “Fomos filmar à Serra Nevada e ficámos no Hotel Alixares, em Granada. O quarto era tão pequeno que entravam na casa de banho de lado e, para se sentarem na retrete, tinham de pôr as pernas no ar.” Os jantares do realizador com os Gatos são uma animação. “Uma vez disseram tantos disparates que me saiu a cerveja pelo nariz.”

A antiga produtora, Ana Torres, entra na sala. “Olha, a nossa Ana… veio ver se a gente consegue safar-se sem ela”, brincam os Gatos, que lhe faziam a vida negra com os prazos. “Estamos atrasados? No teu tempo ainda era pior…”

São quase 23h e cada um combina as suas falas antes de se ir vestir. Miguel bem pode precaver-se. O Gato tem a mania de só dizer as suas falas quando ouve a deixa previamente combinada com os outros. E Diogo Quintela adora baralhá-lo. “Uma vez esteve três dias sem me falar por causa disso”, conta.

Cá em baixo, Nico (o assistente de realização) continua a fazer a chamada, embora já haja muita gente sentada na plateia. São cerca de centena e meia de pessoas.

Nesse dia, os autógrafos, beijinhos e fotografias estão comprometidos. Os Gatos vão dar uma conferência de imprensa para comentar o regresso do programa.

Dez minutos depois da meia-noite descem todos ao armazém — inclusive a antiga equipa de produção — para fazer o habitual brinde com um shot de vodka. A seguir é tempo de entrar para o estúdio, onde técnicos, jornalistas e uma falsa equipa de râguebi disputam cada centímetro.

O programa tem uma única interrupção, para intervalo, mas é preciso gravar duas vezes o momento musical porque os convidados são tão bons a jogar como a cantar a música Doidas Andam as Galinhas. A ideia era ter uma selecção portuguesa de râguebi, mas a Federação não achou graça ao convite.

O programa termina à 1h10, mas os Gatos ainda estão longe da cama. Regressam novamente ao segundo andar, onde posam para a SÁBADO. Segue-se a conferência de imprensa, com muitas latas de Sagres — a única extravagância destes rapazes, que parecem uns grandes malucos mas afinal são uns meninos —, e uma surpresa da produção: um bolo decorado com as fotografias dos quatro quando eram pequenos.

José Diogo Quintela prepara-se para a fotografia e pergunta para a geral: “Estou sensual?” E desata a cantar uma música de Toy, na qual é acompanhado pelos outros três. “Sensual, és tão sensual…”

O realizador será o último a abandonar o estúdio, às 8h, depois de ter feito o alinhamento em vídeo e assistido à pós-produção áudio. Está de volta às 13h para aprovar o programa, que pode ser alterado até às 15h. A cassete tem de estar na RTP até às 17h.

Segunda-feira, 8 de Outubro

Estádio Pina Manique, Monsanto, Lisboa

Todas as segundas-feiras à noite, Cardi, Maqui e Nandi jogam no Estádio Pina Manique, propriedade da Casa Pia de Lisboa. Kaúzi esquiva-se com o pretexto de um compromisso familiar: jantar em casa dos pais, que vêem e comentam o programa.

O campeonato dele é mais PlayStation. É viciado em Pro Evolution Soccer — um jogo virtual de futebol que põe qualquer um a dar os famosos pontapés de trivela de Quaresma. “Acumulo o título de The Better Kid com o de The Comeback Kid, quer ouveia o Ricardo”, gaba-se. Mas admite que Cardi está à frente. “É o Melhor Jogador da Actualidade.”

O ritual da PlayStation faz parte da preparação do programa. A rotina é sagrada: na segunda-feira começam a ler jornais e a ver noticiários. Durante o dia, falam ao telemóvel e trocam emails com ideias.

Na terça-feira, encontram-se em casa de José Diogo, junto às Amoreiras, em Lisboa, e saem para almoçar. Nenhum é grande artista na cozinha, e só um tem cuidado com a ementa. “É o Fininho. Faz dieta.” Frequentam restaurantes como o La Campania e o Mezzaluna, de comida italiana, na Rua da Artilharia 1. E cada um paga a sua conta. A seguir voltam para casa e pegam nos jornais.

Como são pouco organizados a comprar, chegam a ter três e quatro exemplares de cada diário ou semanário. Tentam juntar algumas ideias. Ou jogam Pro Evolution Soccer. O vício é tal que chegam a levar a consola para os estúdios da Cinemate. “Já tive de ficar à espera que eles acabassem um campeonato para começarmos a gravar”, conta Teotónio Bernardo.

Às 21h em ponto, Tiago entra em campo no Estádio Pina Manique, protegido do frio gélido por uma sweatshirt azul, com capuz. Miguel vem animado: “Hoje é que nos vão ver a fazer uma coisa em que somos realmente bons”, promete. Mais tarde, ao telefone, recorda: “Pode-se dizer que fui o homem do jogo.”

Ricardo é o último a chegar. “Estive a ditar uma crónica ao telefone.” Vem de camisola do Benfica e de calções pretos, e aquelas pernas longas e desengonçadas, só por si, dão vontade de rir. O atraso merece castigo: vai para a baliza.

Quanto a José Diogo Quintela, nem vê-lo. “Teve uma lesão no ombro”, brinca Tiago Dores. Só se fosse a dançar. Na madrugada de domingo, foi o único que não foi directamente da Cinemate para o sofá da sala. Aproveitou a adrenalina para ir à discoteca Lux, que nessa noite estava dominada pela concorrência — foi ali que se juntou parte da equipa da SIC, a festejar os 15 anos da estação. Com um bocadinho de sorte, talvez tenha tropeçado na Soraia Chaves.

Isso é que era…