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"Merecem ter liberdade". Sá Pinto fala sobre dificuldades que viveu no Irão

Treinador de futebol português apanhou voo para Portugal um dia antes dos bombardeamentos americanos ao Irão.

A guerra voltou a marcar o quotidiano do Irão e apanhou de saída um treinador português que conhece bem a tensão que se vive no país. Ricardo Sá Pinto regressou a Portugal na véspera do início da mais recente vaga de bombardeamentos, num momento em que o conflito entre Teerão e Washington reacendeu um clima de instabilidade que, garante, nunca chegou verdadeiramente a desaparecer.

Sá Pinto já está em Portugal. Veio do Irão um dia antes.
Sá Pinto já está em Portugal. Veio do Irão um dia antes. DR

Em entrevista à SÁBADO, o técnico descreve como “terríveis” alguns dos episódios que viveu enquanto treinava o Esteghlal F.C., um dos históricos do futebol iraniano. “Não foram fáceis estes anos no Irão”, resume, traçando um retrato duro de um país onde, apesar da riqueza cultural, a repressão e a crise económica moldam o dia a dia.

Sá Pinto recorda que chegou a Teerão “num ambiente de guerra, que terminou” pouco depois, em 2019, quando o governo iraniano anunciou um aumento abrupto do preço dos combustíveis, o que desencadeou uma onda de protestos populares em várias cidades do país, mas sublinha que a sensação de instabilidade foi constante. Um dos momentos mais marcantes coincidiu com os protestos populares desencadeados por apelos à mobilização nas redes sociais, incluindo vídeos atribuídos a Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão, a incentivar a população a sair à rua e a protestar contra o regime islâmico no princípio deste ano. 

"Foi terrível, muito doloroso de assistir"

Segundo o treinador, a resposta das autoridades foi violenta. “Houve milhares e milhares de pessoas que foram mortas, essencialmente jovens entre os 20 e os 30 anos”, afirma, referindo também o bloqueio de sites estrangeiros e um controlo apertado da informação. “Foi terrível, muito doloroso de assistir. Houve várias vítimas, figuras da cultura e da música, foi muito, muito mau. Depois disso, nunca mais nada foi igual.”

Por causa disto, o técnico português “considera a guerra normal. Este tipo de intervenção exige mudança”, diz ao defender que o atual regime deve cair para que o Irão possa alcançar estabilidade e liberdade.

Sá Pinto insiste no carinho pelo povo iraniano e na admiração por uma cultura que classifica como “extraordinária”. “É um país fantástico, tem tudo para ser um grande país”, sublinha, antes de apontar a degradação das condições de vida como um dos sinais mais evidentes da crise: “Um pão ou uns ovos começaram a custar cinco vezes mais, mas os ordenados eram sempre mais baixos.”

O regresso a Portugal acabou por acontecer por razões profissionais. O treinador revela que tinha salários em atraso há quase dois meses, numa altura em que a equipa estava na luta pelo campeonato e pela taça. “Tornou-se uma situação insustentável. Dei a minha vida até certa altura”, afirma. A coincidência de ter deixado o país um dia antes do início dos bombardeamentos “foi uma casualidade.”

Num cenário novamente dominado pela guerra, deixa uma mensagem direta: “Este povo e este país lindíssimo merecem ter liberdade”.

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