Sábado – Pense por si

Miguel Costa Matos
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
18 de novembro de 2025 às 07:22

O ponto de viragem laboral

Capa da Sábado Edição 17 a 23 de março
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 17 a 23 de março

Há momentos que quebram um governo. Por vezes logo. Noutras, há um clique que não permite as coisas voltarem a ser como dantes. Por vezes são casos. Noutras, são políticas. O pacote laboral poderá ser justamente esse momento para a AD.

O Governo calculou mal as suas opções. Não percebeu que a sua omissão do programa eleitoral, num contexto de maioria reforçada mas ainda muito relativa, seria visto como cobardia. Tampouco percebeu que nem entre os seus colhe o estafado discurso ideológico de como as pessoas hoje querem é ser precárias. Essa banha da cobra foi vendida em 2012 e nos anos seguintes e a muito poucos passou despercebida a sua fina ironia.

Apenas o deslumbre poderia permitir a um político astuto como Luís Montenegro ignorar os poderosos Trabalhadores Sociais-Democratas, que estiveram na linha da frente para denunciar esta iniciativa e . Apenas uma prolongada distração justifica que tenha deixado a sua Ministra do Trabalho não responder aos parceiros sociais , ao mesmo tempo que dizia que não abdicava das do pacote, tudo enquanto ameaçava mandar o mesmo para o Parlamento sem qualquer alteração s.

Também é possível que o chefe do Governo tenha entendido tudo isso e, ainda assim, pretendesse passar entre os pingos da chuva, como . Incerto sobre a duração do seu consulado, Montenegro quis assim cumprir um ritual dos governos de Direita e conceder o favor a algumas empresas amigas. Para cumprir esse objetivo, para quê negociar? O pacote ficará menos a jeito e, de qualquer modo, pouco jeito dá que se fala muito do assunto. Até para distrair os partidos e os comentadores, o Governo abriu o jogo com um ataque vil às famílias e, em especial, às mães que amamentam, permitindo-lhe agora recuar em matérias que jamais entrariam numa proposta séria de revisão do Código do Trabalho.

A greve geral, convocada em conjunto pelas duas centrais sindicais, veio estragar os planos ao Governo. Assim será mesmo que pouca gente vá à rua no dia 11 de dezembro. Ao contrário do que acontecia no tempo do PREC, a força de uma causa já não se mede pelo tamanho da sua manifestação. Todavia, um pouco por todo o país, de local de trabalho em local de trabalho, as pessoas sussurram e comentam os impactos que esta legislação pode ter– atrasar o sonho da maternidade ou da casa própria, trabalhar mais horas e quem sabe ao fim-de-semana, o risco de ser substituído por uma empresa de outsourcing.

As alterações que mais preocupação estão a causar aos portugueses, a par do alargamento da contratação a termo certo, é a liberalização do despedimento. O artigo 53.º da Constituição da República Portuguesa proíbe os despedimentos sem justa causa. Ao longo do tempo, as razões pelas quais permitimos um despedimento foram evoluindo bem como o valorda indemnização. Quem ainda assim achasse pouco poderia ainda tentar um despedimento por mútuo acordo. O que jamais foi admissível foi fazer um processo disciplinar contra um trabalhador que se quer dispensar sem apresentar provas por escrito, nem permitir à “defesa” contrapor com testemunhas. Contestar que isto seja “assim tão mau” remetendo os trabalhadores para a litigância judicial pode ser um bom negócio para os advogados mas é um mau serviço à Justiça que, neste como em tantas áreas, tarda a chegar.

De igual modo, é bastante assustador para muitos pensar na restrição generalizada à reintegração dos trabalhadores. Afinal, mesmo que ganhem a longa e batalha judicial para conseguirem ser reintegrados, agora o empregador na generalidade dos casos pode opor-se à reintegração. Isso sucede mesmo que o empregador mais próximo se encontre a várias dezenas de quilómetros.

Estes exemplos simples do que faz o pacote laboral permitem a quem se lhe quer opor um caminho simples para o senso comum do homem e da mulher que trabalham. Não é que o mercado de trabalho não se esteja a transformar mas que o tipo de políticas que temos de desenhar é oposta àquela que o Governo agora apresenta – com mais estabilidade, mais inovação e maior valor acrescentado nos nossos empregos. Por isso arrisco a dizer: ou muito me engano, ou será desta que o estado de graça deste Governo vai quebrar.

Mais crónicas do autor
24 de março de 2026 às 11:41

A formiga e a cigarra

Há alguns meses, o PS apresentou uma proposta para reformar as regras de corte de árvores - uma medida prevista no Plano Nacional Integrado de Gestão de Fogos Rurais desde 2021 e que permanecia por concretizar. A situação era, no mínimo, paradoxal: em muitos casos, era mais fácil cortar árvores do que plantar.

17 de março de 2026 às 07:14

Isto não é só combustíveis

A guerra está já a aumentar as taxas de juro, acrescentando ainda mais pressão ao custo de vida sentido pelas famílias. Não tenhamos ilusões: a crise que aí vem será dura, como foi a de 2022.

10 de março de 2026 às 07:11

Os limites da era Marcelo

Para muitos de nós, será estranho imaginar a vida pública sem Marcelo e a forma expressiva com que traduz a atualidade. Era – e continuará a ser – uma espécie de avô da nação.

03 de março de 2026 às 12:22

Entre a estagnação e a radicalização

O governo parece preso num “pântano”, sem iniciativa política e a reboque dos acontecimentos. Como se tivesse sumido a tensão inicial ou tivessem, simplesmente, esgotado as ideias que tinham. De lá para cá, reduz-se à gestão corrente e nem nisso são bons.

24 de fevereiro de 2026 às 07:21

Trump faz o que quer. E a Europa?

Trump faz o que quer e a Europa é a primeira a deixar que assim seja.

Mostrar mais crónicas