Sábado – Pense por si

António Diniz
António Diniz Pneumologista e responsável médico da Hipra Human Health Portugal
09 de outubro de 2025 às 07:00

A propósito de vacinação sazonal e hesitação vacinal: o caso da COVID-19

Hoje sabe-se que a vacinação contra a COVID-19 permite reduzir os casos de doença grave, o número de internamentos hospitalares e o número de óbitos associados, sobretudo nas pessoas que apresentam fatores de risco para uma evolução grave da doença.

No passado dia 3 assinalaram-se os 60 anos do Plano Nacional de Vacinação, justamente uma semana após o arranque da campanha de vacinação sazonal contra a Gripe e COVID-19. Esta campanha inicia-se com o receio, assumido pela DGS, que a hesitação vacinal venha a estar na origem de uma taxa de vacinação contra a COVID-19 inferior à do ano passado.  

A maioria das reflexões sobre hesitação vacinal, entendida como o atraso ou a recusa de vacinação, aponta três fatores que a influenciam: a conveniência, a complacência e a confiança. A conveniência inclui, entre outros, os conceitos de acessibilidade e gratuitidade; a complacência refere-se à noção que cada pessoa tem em relação ao risco associado à doença que se pretende prevenir e o benefício da sua prevenção; a confiança inclui a confiança que se tem na vacina e no processo de vacinação, nos profissionais e instituições de saúde envolvidas e nos órgãos de decisão institucionais. Dos três fatores referidos, os que em Portugal (e no mundo ocidental) podem contribuir de forma mais relevante para a hesitação vacinal são os dois últimos: a complacência e a confiança. Importa, na minha perspetiva, perceber os motivos e reforçar os aspetos positivos que podem contribuir para melhorar a taxa de vacinação sazonal, nomeadamente, em relação à COVID-19. Recorrendo a uma ideia regularmente aplicada em diversos contextos, também neste caso parece claro que não será possível, repetindo as mesmas ações, esperarmos resultados diferentes.  

Em Portugal, nos anos 2023 e 2024 foram notificados, respetivamente, 86.651 e 31.110 casos, e 2.132 e 1.149 óbitos associados à COVID-19. Em 2025, até 21 de setembro, tinham sido notificados 12.149 casos e 419 óbitos. Estes números estão, seguramente, subestimados, dado que a testagem sistemática de todos os casos suspeitos não está indicada.  

Em 2023, último ano em que existem dados comparativos, o número de óbitos associados à COVID-19 foi superior ao número de óbitos por gripe, tuberculose ou VIH, e pela grande maioria dos cancros do tubo digestivo, da mama, ginecológicos, da próstata e do aparelho geniturinário.  

Acresce que, em termos do verdadeiro impacto da doença, ainda desconhecemos quantos internamentos ocorreram e durante quanto tempo, qual a idade em que ocorreram os casos diagnosticados e qual o estado vacinal das pessoas com COVID-19, tal como desconhecemos o impacto físico, mental, social e profissional da condição pós-COVID-19 (usualmente denominada “COVID longo”).  

E, no entanto, estamos perante uma doença prevenível, cuja gravidade, sobretudo, pode ser evitada, nomeadamente em populações mais vulneráveis, devidamente identificadas nas várias publicações científicas e oficiais.  

Reduzir a complacência significa informar as pessoas sobre o potencial impacto da doença na sua vida e na dos seus familiares. Informando que hoje se sabe que a vacinação contra a COVID-19 permite reduzir os casos de doença grave, o número de internamentos hospitalares e o número de óbitos associados, sobretudo nas pessoas que apresentam fatores de risco para uma evolução grave da doença. Sabemos quais são essas pessoas e a indicação que têm para se vacinarem. E, entre outros benefícios, a vacinação poderá permitir ainda a redução do absentismo laboral e os efeitos potenciais da condição pós-COVID-19. 

A confiança (ou, neste caso, a sua ausência) é o terceiro elemento que influencia a hesitação vacinal. Pode ser em relação ao processo de vacinação ou à vacina utilizada (à sua eficácia, ao seu perfil de segurança ou a eventuais efeitos adversos), embora a sua utilização em larga escala tenha mostrado ser uma vacina eficaz e segura. Porém, o aparecimento recente de vacinas proteicas contra o SARS-CoV-2 (vírus responsável pela COVID-19), baseadas em tecnologias utilizadas desde há anos com sucesso generalizado (ex.: hepatite B, HPV) pode contribuir para aumentar a confiança no processo de vacinação no seu conjunto, pois permite disponibilizar alternativas de vacinação à população, com a vantagem adicional de apresentarem menor número de efeitos secundários e manterem ou aumentarem mesmo a eficácia da vacinação, através de uma duração mais prolongada da sua proteção. 

Este último aspeto é relevante se verificarmos que, em Portugal, a evolução do número de casos e de óbitos durante os anos 2023-2025 apresenta picos de frequência consideráveis nos meses de verão, mais de seis meses após o período de vacinação sazonal. Embora com os dados disponíveis não seja possível determinar com rigor qual o motivo preciso deste agravamento (as variantes em circulação não são substancialmente diferentes), deve-se considerar a hipótese de a vacina administrada em setembro/outubro do ano anterior ter perdido parcialmente a sua capacidade de proteção, nomeadamente nas populações mais vulneráveis de todas, como tem sido referido teoricamente. Neste contexto, deve ser valorizada a capacidade destas novas vacinas assegurarem uma proteção mais duradoura. E, já agora e adicionalmente, considerar protelar o início da época de vacinação, uma vez que, por um lado, a época gripal se inicia habitualmente em dezembro e, por outro, no final de setembro, a curva de casos de covid-19 já é decrescente. 

Para esta época de vacinação sazonal, fica então a sugestão de algo diferente, a acrescentar ao muito que se tem feito: conhecer e comunicar melhor o impacto da COVID-19, particularmente sobre as populações em maior risco de doença grave; considerar a importância das novas vacinas contra o SARS-CoV-2, como um contributo para a confiança dos cidadãos no processo de vacinação sazonal e para a melhoria da saúde das populações, sobretudo as mais vulneráveis. Para termos resultados diferentes… e melhores.  

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