O título deste artigo remete para uma entrevista de Lobo Antunes a Ana Sousa Dias no programa Por Outro Lado. Lobo Antunes (ALA) explicava que sempre desejou apenas "pôr a vida inteira dentro de um livro". A jornalista questiona: "E é possível?". "Pelos vistos é. Eu faço-o", respondeu o escritor.
Ao longo de mais de quarenta anos, ALA publicou 32 livros sob a forma de romance (o escritor nunca quis chamar-lhes isso porque achava que menorizava o que fazia), seis livros de crónicas, um livro infantil e poemas para serem musicados (pelo amigo Vitorino).
É difícil (e injusto) escolher quais os romances mais importantes de Lobo Antunes ou aqueles que merecem mais destaque. Foi um escritor profícuo que criou personagens memoráveis e passagens capazes de revoltar a alma do leitor. Mas escolhemos alguns romances escritos pelo médico que amava as coisas e as pessoas aqui em baixo e que morreu esta quinta-feira.
Memória de Elefante
Publicado em 1979, este não foi o primeiro romance de António Lobo Antunes. Nas cartas que escreveu à mulher a partir de África, António Lobo Antunes falou muitas vezes do romance que estava a preparar. Mais tarde, em várias entrevistas, confirmou que escreveu, reescreveu e deitou fora três romances antes de se estrear, em 1979, na editora Vega.
Memória de Elefante é um livro difícil, barroco e altamente influenciado por William Faulkner, um dos heróis literários de António Lobo Antunes. Por entre metáforas e comparações, o narrador conta a história de um psiquiatra que se debate com o isolamento do mundo. É incompreendido pela mulher, não sente uma ligação às filhas e lida com uma depressão causada pela guerra do ultramar. Mais tarde, Lobo Antunes renegou-o, considerando-o fraco e desequilibrado.
Memória de Elefante é ao mesmo tempo um romance sobre o poder da memória (e Lobo Antunes era dono de uma memória pródiga, sendo capaz de recitar poemas e passagens de livros de cabeça) e sobre uma crise existencial com problemas de expressão.
Inicialmente Lobo Antunes queria chamar ao livro D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto, frase retirada de Ângelo Lima, poeta de Orfeu que enlouqueceu e que foi internado em Rilhafolhes. Não podendo dar o nome que queria ao livro, acabaria por ser o título da coleção de cartas que enviou à mulher a partir de Angola.
Foi o primeiro livro da trilogia que continuou com Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno.
Cus de Judas e Conhecimento do Inferno
Igualmente publicado em 1979, de novo pela Vega, Cus de Judas é um livro que se foca mais na experiência que o seu autor teve na Guerra Colonial onde acompanhou batalhões enquanto médico. Retomando o estilo de escrita barroco que iniciara com Memória de Elefante, este segundo livro foi também um sucesso de vendas e tem a particularidade de ter passagens totalmente copiadas do primeiro livro que editou.
Cus de Judas está polvilhado de referências a pintores (folheando rápido encontramos Miró, Picasso, Cézanne ou Modigliani), músicos (John Coltrane e Bob Dylan) ou realizadores (Fellini, VIsconti, Hitchcock). É um livro que pressupõe que o leitor tem uma bagagem cultural (e uma memória visual) tão grande como a do próprio escritor, o que não deixa de ser curioso num livro que foi um sucesso de vendas.
A conclusão da trilogia original de romances de Lobo Antunes chega em 1980. Por entre analepses e prolepses, o narrador traça paralelos entre a sua carreira enquanto médico psiquiatra no Hospital Miguel Bombarda e na guerra do Ultramar. Há passagens de enorme humanidade e que deixavam antever que mais do que autobiografias, Lobo Antunes tinha um dom para escrever o Outro.
Nestes livros, Lobo Antunes reavalia a sua vida privada à luz de uma sociedade em convulsão, ainda a sair de um salazarismo cinzento, mas sem um rumo bem definido e do qual o autor não se sentia parte (talvez durante a sua vida só tenha sentido que fez parte de um grupo: o da sua família de sangue).
Explicação dos pássaros
O quarto romance de Lobo Antunes é o primeiro que foge da autobiografia declarada. Rui S. é o protagonista, uma personagem que se vai construindo através da memória (da infância, da família, do casamento falhado com Tucha e da convivência com um meio pequeno-burguês conservador) em constante embate com o presente (a militância à esquerda, a relação com Marília, os textos que o afastam da família).
A construção da personalidade da personagem acontece ao longo de quatro dias de narrativa no presente que culminam com a morte (sem direito à ressurreição) a um domingo, por suicídio. O último capítulo, dedicado a esse trágico domingo, surge sob a forma de um monólogo rico, intrincado e emotivo que explicam o que levou à morte de Rui S., o homem que em criança só queria que o pai lhe explicasse os pássaros.
Fado Alexandrino, Auto dos Danados e As Naus
Com Fado Alexandrino, o quinto romance, inicia-se uma nova trilogia, desta feita dedicada ao 25 de Abril e os anos de refluxo do PREC. "De repente, pumba, o povo no Carmo, tanques na baixa, soldados de metralhadoras nas esquinas, a PIDE engaiolada, o Governo de Pantanas, títulos gigantescos nos jornais", escreve o autor no primeiro livro da trilogia.
No Auto dos Danados dá voz às mais variadas personagens, diferentes pontos de vista, diferentes linguagens e pensamentos. É o romance no qual a voz principal não é a do escritor, mas de um povo que não leu, não conviveu e não ouviu as elites.
Em 1988, António Lobo Antunes continua a ser considerado um dos escritores mais importantes da nova vaga das letras nacionais, mas já sem o sucesso fulgurante dos primeiros romances. A escrita intrincada e metódica de António Lobo Antunes afasta leitores, mas As Naus revitaliza esse interesse pelo médico psiquiatra que escrevia em blocos de receitas.
António Lobo Antunes disse, sobre As Naus, que era a versão dele dos bigodes que se desenham nas personagens dos livros de história. O escritor recupera personagens icónicas da história marítima portuguesa (Luís de Camões, Diogo Cão, Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral) e coloca-os na pele dos retornados que chegaram a Portugal depois da Revolução.
Apagando os 500 anos que separam uns eventos dos outros, o que temos é um retrato duro de uma sociedade que nunca soube lidar com a sua história e ainda menos com o seu presente.
Livro de Crónicas
Primeiro no Público, a convite de Vicente Jorge Silva, e depois na Visão, para muitos leitores António Lobo Antunes é ilegível a não ser nas suas crónicas. Delicodoces, melodramáticas ou hilariantes, Lobo Antunes escreveu milhares de crónicas, quase sempre contrariado. Dizia que eram uma parte menor da sua literatura, mas também muito proveitosa.
O primeiro livro de compilação foi um sucesso estrondoso no mercado editorial nacional e entretanto foram publicados outros seis tomos. Mas o primeiro é o mais emblemático, com textos sobre o avô ("Foi a pessoa mais importante da minha vida"), sobre os irmãos, as saudades de Benfica e dos pais e até sobre comer gelados com a filha no jardim zoológico depois de visitas a museus que são muito menos interessantes do que os bichos ou gelados.
As crónicas de Lobo Antunes podem ser lidas uma e outra vez até à exaustão. E foram (e serão).
D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto
"A escolha de as publicar [as cartas] não é nossa: é a vontade expressa da nossa Mãe, destinatária e conservadora deste espólio até há pouco tempo. Sempre nos disse que as poderíamos ler e publicar depois da sua morte, e esse momento chegou agora", escreveram as filhas de António e Maria José, a sua primeira mulher e grande amor da sua vida.
É um livro que compila as cartas que ALA escreveu à mulher a partir do navio que o levou a Angola e do terreno. "Este é o livro de amor dos nossos pais, de onde nascemos e do qual nos orgulhamos", escrevem ainda as filhas no prólogo.
São aerogramas de amor, de ansiedade e de certezas que Maria José e Joana Lobo Antunes partilharam com o mundo e que pode ser lido em momentos de ternura, ansiedade e felicidade.
A História do Hidroavião
As filhas sempre o descreveram como ternurento e um excelente abraçador. Lobo Antunes reconheceu que gostava de demonstrar afecto beijando as filhas. Mas é um escritor que não é, certamente, para crianças. No entanto, escreveu um pequeno livro infantil, ilustrado pelo amigo Vitorino: A História do Hidroavião. Sobre Lisboa, África, retornados e africanos.