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Canoas com 5200 anos rescrevem a história das Américas

O achado arqueológico no Lago Mendota, Wisconsin, Estados Unidos, revela presença humana milénios antes das pirâmides do Egito e questiona o conhecimento cultural das nações indígenas da região.

No fundo de um lago aparentemente tranquilo do Midwest norte-americano, arqueólogos encontraram vestígios de vida humana que antecedem em séculos a construção das pirâmides egípcias, uma descoberta que está a obrigar a reavaliar a cronologia da ocupação humana na América do Norte.

A descoberta trouxe nova informação relativa à presença humana nos atuais Estados Unidos
A descoberta trouxe nova informação relativa à presença humana nos atuais Estados Unidos Dean Witter/Wisconsin Historical Society

Foi numa manhã soalheira de junho de 2021 que a arqueóloga Amy L. Rosebrough recebeu uma chamada inesperada. Estava em casa, em Madison, quando a mergulhadora Tamara Thomsen, sua colega da , lhe pediu que fosse até ao Lake Mendota. “Encontrei qualquer coisa”, disse-lhe. Debaixo de água, Thomsen tinha-se apercebido de que pairava diretamente sobre uma canoa escavada num tronco, preservada no leito do lago.

A equipa imaginou, de início, tratar-se de uma peça com cerca de 300 anos. A datação revelou, porém, uma idade próxima dos 1200. “Perdemos todos a cabeça”, recordou Rosebrough, em declarações à BBC. A surpresa inicial depressa deu lugar a outra ainda maior: em 2022 foi encontrada uma segunda canoa, com cerca de 3000 anos, e as campanhas arqueológicas subsequentes trouxeram à superfície mais 14 embarcações pré-históricas, seis delas já em 2025.

A análise por radiocarbono indica que a mais antiga terá cerca de 5200 anos. Das 16 canoas identificadas até agora, a mais recente terá ainda assim 700 anos, criando uma linha temporal contínua de utilização do lago ao longo de milénios. Segundo os investigadores, isto significa que comunidades indígenas habitavam esta região mais de 4000 anos antes da chegada dos primeiros europeus e cerca de 400 anos antes da construção das pirâmides do Egito.

Para Bill Quackenbush, responsável pela preservação histórica tribal da Ho-Chunk Nation, o impacto da descoberta vai muito além da arqueologia. “Com que frequência temos a oportunidade de tocar em algo com 1200 anos?”, questionou. Para a comunidade, as canoas tornaram-se uma chave para compreender como os povos originários navegavam, pescavam e estabeleciam redes de troca na paisagem lacustre.

Os territórios ancestrais Ho-Chunk estendiam-se por grande parte do atual estado do Wisconsin e do norte do estado do Illinois. Hoje, os investigadores acreditam que aldeias foram erguidas em torno destes lagos muito antes da chegada histórica dos Ho-Chunk, ligadas por trilhos terrestres e rotas aquáticas. As canoas – robustas, pesadas, escavadas em troncos maciços – funcionariam como instrumentos partilhados entre comunidades, algo que Rosebrough compara a “estações antigas de bicicletas elétricas”, facilitando deslocações e trocas.

A colonização europeia, iniciada no final do século XVIII e intensificada após a Guerra de 1812, levou à remoção forçada de populações Ho-Chunk entre as décadas de 1820 e 1860, fragmentando territórios e práticas culturais. Parte do povo acabou por se fixar no Nebraska, outra permaneceu no Wisconsin, embora sem reserva territorial reconhecida durante décadas.

Os artefactos foram datados recorrendo a tecnologia de radiocarbono
Os artefactos foram datados recorrendo a tecnologia de radiocarbono Tamara Thomsen

Esse processo histórico contribuiu para que o saber tradicional de construção de canoas escavadas se perdesse. “O conhecimento tinha desaparecido dentro da própria tribo”, referiu Quackenbush. Agora, as descobertas arqueológicas estão a desencadear um movimento inverso: a revitalização cultural, novas exposições museológicas e uma viagem anual em canoa, a Ho-Chunk Nation Dugout Canoe Journey, que liga os participantes às antigas vias navegáveis.

Mais do que objetos antigos, estas embarcações revelam uma malha humana profundamente enraizada no tempo. Cada tronco escavado recuperado do fundo do lago funciona como uma cápsula de memória, lembrando que a história da presença humana na América do Norte é muito mais antiga, complexa e contínua do que durante séculos se imaginou.

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