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Saber comer não chega

Um novo estudo nacional revela que a literacia alimentar dos adultos em Portugal fica-se pelos 57,5%. O problema já não é a falta de informação, mas a dificuldade em transformá-la em escolhas concretas no dia a dia.

Na mesa-redonda dedicada à literacia alimentar foi sublinhada a importância do primeiro estudo nacional.
Mariana Chaves (à direita), autora do podcast Aprender a Comer, com Filipa Appleton, Diretora de Brand &Marketing Continente.
Na mesa-redonda Responsabilidade e Desinformação alertou-se para os conteúdos sem base científica nas redes sociais.
Na mesa-redonda dedicada à literacia alimentar foi sublinhada a importância do primeiro estudo nacional.
Mariana Chaves (à direita), autora do podcast Aprender a Comer, com Filipa Appleton, Diretora de Brand &Marketing Continente.
Na mesa-redonda Responsabilidade e Desinformação alertou-se para os conteúdos sem base científica nas redes sociais.
19 março 2026 13:25

Os portugueses vivem rodeados de informação sobre alimentação, mas isso não significa que estejam mais preparados para comer melhor.

O retrato traçado pelo Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição e realizado pela Pitagórica, com apoio do Continente, mostra essa fratura entre conhecimento e ação.

O score global de literacia alimentar fixa-se nos 57,5%, num estudo com mil adultos representativo da população residente em Portugal. A dimensão mais frágil é a do consumo e os resultados são particularmente mais baixos entre pessoas idosas, desempregados, famílias com rendimentos insuficientes e indivíduos que avaliam pior o seu estado de saúde.

Na apresentação dos resultados, Rita Marques da Silva, da Pitagórica, explicou que a dificuldade está nas decisões do dia a dia. Muitos participantes revelam dificuldade em interpretar informação nutricional, adaptar receitas ou escolher métodos de confeção que preservem os nutrientes.

Passar da teoria à prática

Foi precisamente essa distância entre saber e fazer que dominou a conversa da mesa-redonda dedicada à literacia alimentar, moderada por Margarida Graça Santos. Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), sublinhou que a grande utilidade desta ferramenta está em ir além de um diagnóstico genérico e permitir trabalhar a literacia alimentar em cinco dimensões: planeamento, gestão, seleção, preparação e consumo. "Precisávamos de um instrumento que nos permitisse medir a literacia alimentar de forma estruturada", afirmou.

Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, reforçou a relevância do estudo: "É a primeira vez que temos um diagnóstico estruturado da literacia alimentar da população portuguesa". Segundo a responsável, continua a ser difícil chegar a quem mais precisa dessa capacitação. Por outro lado, as escolhas alimentares não dependem apenas da informação disponível, mas também do ambiente em que são feitas, do preço dos alimentos e das estratégias de marketing a que os consumidores estão expostos, acrescentou Maria João Gregório.

A preocupação com as populações mais vulneráveis foi retomada por Regina Sequeira Carlos, coordenadora nacional da área da Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa. "Quando falamos de literacia alimentar, temos de olhar para as condições concretas em que as pessoas vivem", alertou, lembrando que muitas famílias lidam simultaneamente com doença crónica, envelhecimento e dificuldades económicas.

Já Nuno Pais de Figueiredo, da DECO Proteste, trouxe a discussão para a clareza da linguagem e para o impacto do orçamento familiar nas escolhas alimentares. "A alimentação saudável continua muitas vezes a ser percecionada como mais cara", afirmou, defendendo que a informação tem de ser simples, clara e útil para quem faz as compras do dia a dia. Daí a insistência no planeamento de compras e na tradução da informação em decisões concretas, compatíveis com a saúde e com a carteira.

Redes sociais e desinformação

O painel Responsabilidade & Desinformação, moderado por Margarida Vaqueiro Lopes, mostrou como o problema se agrava no ecossistema atual de informação. Mariana Chaves, nutricionista e autora do podcast Aprender a Comer, apontou o paradoxo das redes sociais. "Hoje temos acesso a mais informação do que nunca, mas isso não significa que seja melhor informação", disse, alertando para a facilidade com que conteúdos simplificados ou sem base científica ganham visibilidade nas redes sociais. O desafio, disse, é conseguir comunicar de forma simples, prática e útil, sem perder rigor científico.

Miguel Telo de Arriaga, diretor de Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde, realçou que "o grande desafio está na passagem da informação para a ação". O responsável lembrou que muitas das consequências das escolhas alimentares surgem apenas a médio ou longo prazo. É preciso criar condições para a mudança nos comportamentos e trabalhar a perceção de risco, referiu.

Já Margarida Moldão, professora do Instituto Superior de Agronomia, chamou a atenção para uma das zonas mais férteis da desinformação alimentar: a interpretação simplista de conceitos como alimentos processados ou ultraprocessados. "Nem tudo o que é processado é necessariamente negativo", explicou, defendendo maior rigor na forma como estes conceitos são comunicados ao público, evitando leituras simplistas que afastem os consumidores de produtos seguros e nutricionalmente adequados.

Nesse contexto, também o retalho assume um papel na forma como a informação chega aos consumidores. Do lado do Continente, Filipa Appleton, diretora de Brand & Marketing da marca, assumiu que os dados agora conhecidos terão tradução prática. "Queremos que esta informação nos ajude a perceber onde podemos ser mais úteis para os consumidores", explicou, referindo que a marca prepara iniciativas focadas no momento da compra e na forma como a informação chega ao consumidor.

No fim, o estudo deixa claro que o problema já não está na falta de informação. Os portugueses conhecem cada vez melhor as regras da alimentação saudável, mas continuam a ter dificuldade em aplicá-las. Entre preço, tempo, rotinas familiares e excesso de mensagens contraditórias, a distância entre saber e fazer continua a marcar muitas escolhas à mesa.

Literacia alimentar em Portugal - Os Números

57,5% — Score médio de literacia alimentar entre adultos portugueses

54,7% — Dimensão com pior resultado: consumo

43% — Dificuldade em perceber se a informação nutricional permite adequar o consumo

40% — Não sabem identificar métodos de confeção que preservem nutrientes

39% — Têm dificuldade em alterar receitas sem comprometer o equilíbrio nutricional