A catedral é a sala de cinema, e os crentes que a enxameavam, em dias de festa e noites de romaria, fogem dela como fanáticos do Culto dos Santos dos Últimos Dias. Rezam pelo evangelho do confinamento, de máscaras tapando-lhes nariz e boca
A catedral do desejo está vazia. Uma enorme pedra tumular, de negro espesso, tapa agora o que foi um templo de prazeres, alegria e consolação durante mais de um século. A catedral é a sala de cinema, e os crentes que a enxameavam, em dias de festa e noites de romaria, fogem dela como fanáticos do Culto dos Santos dos Últimos Dias. Rezam pelo evangelho do confinamento, de máscaras tapando-lhes nariz e boca como sacerdotes de sotaina rasgada durante as pestes da Idade Média. Os estudiosos apócrifos, os amantes das sombras, os sobreviventes de guerras e terramotos cuja violência humana ou ira divina jamais os impedira de comungar a cada semana, os cinefilhos, testemunhas hoje secretas da luz em pano branco, Vista Vision, 70 mm, Imax, Cinemascope, oram nos quartos, salas, alpendres, sótãos, qualquer espaço onde ainda se possa olhar, ver, entrelaçar os dedos, mesmo face a quadrados minúsculos, de energia finita, luzes trémulas, simulacros do supremo simulacro. Filme, filmes, pequenos, grandes, enormes, de curta e longa-metragem, documentais e fictícios, fantasias de algibeira, space operas, melodramas de fazer chorar as pedras dos edifícios antigos, deixam de existir. Porque longe da vista, longe do coração, e ninguém gosta de desejar sozinho.
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