Quem quer mais habitação, não pode apenas querer mais construção. Queremos mais casas mas a um preço que consigamos pagar. Não as queremos à custa do ambiente, da qualidade de vida e da nossa segurança.
Não foi só a nomeação de Hélder Rosalino e o seu chorudo salário que o Governo escondeu no "sapatinho" do Diário da República por altura das Festas. A 30 de dezembro, sem qualquer discussão pública, foi publicada uma alteração ao Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT). Malogradamente, a opinião pública insurgiu-se com esta alteração ao que se convencionou como "a lei dos solos".
O nosso país tardou a desenvolver instrumentos de gestão territorial, o mais conhecido dos quais o Plano Diretor Municipal (PDM). Eles demoram a fazer, envolvendo não só um complexo trabalho técnico da parte da autarquia como também a articulação com entidades como a Agência Portuguesa para o Ambiente (APA), o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e as CCDR. Mesmo assim, como a respetiva Inspeção Geral recentemente concluiu, em muitos casos, estas regras urbanísticas são violadas.
Há 10 anos, a adoção do RJIGT veio acabar com os "solos urbanizáveis", reclassificando-os como solos ou rústicos ou urbanos. Isto veio limitar o número de solos disponíveis para construção e obrigar a uma revisão dos PDM. Decorrido este tempo todo, ainda há câmaras que não concluíram essa revisão, mesmo que sob risco de perderem acesso a fundos comunitários.
Foi por isso que, já com o Pacote Mais Habitação, o Governo do PS criou numa alteração ao RJIGT um procedimento simplificado para reclassificar solos rurais em urbanos, desde que estes fossem construir habitação pública acessível ou a custos controlados. Neste caso, e apesar de dispor de maioria absoluta, a lei só foi alterada depois de uma ampla consulta pública e com autorização legislativa da Assembleia da República.
Este Governo alargou este regime aos solos privados – permitindo construir em zonas protegidas como Reserva Ecológica e Reserva Agrícola Nacionais (REN e RAN), permitindo construir fora das atuais áreas urbanas (a chamada "contiguidade") e, sobretudo, permitindo construir habitações de "valor moderado". Situado nos 125% da média dos preços do concelho, o Governo argumentava que o "valor moderado" ia baixar o preço das casas. Afinal, a média total podia subir mas, uma vez as casas novas se encontram à venda em média por preços 50% acima da média, estas seriam casas novas ligeiramente mais baratas. Em verdade, a distinção entre novo ou velho pouco importa a quem não consegue pagar o preço médio da habitação já, quanto mais se a média subir.
Sucede, porém, que a média é composta pelo concelho todo, por zonas mais e menos caras. As casas que esta lei permitiria construir, situados em zonas rústicas que habitualmente já são mais baratas, não seriam, por isso, 25% mais caras do que as suas casas vizinhas. Podem ser bem mais caras que isso. De qualquer modo, a limitação do "valor moderado" só se aplicaria a 70% das casas. As restantes são de preço livre – bem que podem ser de luxo.
Não surpreende que, de ambientalistas a urbanistas, toda gente caiu em cima do Governo. Pouco mais de uma semana depois da sua publicação, o PSD já estava a aceitar as alterações que o PS se propunha a fazer ao diploma do Governo. Além de um regresso aos limites de preços da habitação acessível ou a custos controlados, os socialistas queriam obrigar não só à contiguidade dos terrenos como também a só permitir a sua conversão em urbanos se não houver outros terrenos urbanos disponíveis e após parecer das CCDR. Por fim, os socialistas querem assegurar que a construção tem lugar no prazo máximo de 3 anos e põe um prazo para o fim deste alçapão urbanístico.
No Parlamento, a revogação tout court proposta pelos restantes partidos de esquerda foi rejeitada. Há um papel para os promotores públicos mas também há para os privados. O processo segue agora para a especialidade na comissão, onde se espera poder pôr um travão definitivo à liberalização do betão. Disso dependerá a contínua mobilização não só da oposição parlamentar como da sociedade civil.
Afinal, quem quer mais habitação, não pode apenas querer mais construção. Queremos mais casas mas a um preço que consigamos pagar. Não as queremos à custa do ambiente, da qualidade de vida e da nossa segurança. Se é para termos casas vulneráveis a cheias, sem serviços, transportes ou espaços verdes por perto, então façam favor mas é de disponibilizar algumas das 723 mil casas vazias que já andam por aí.
Depois de 75 dias e mais de 900 contributos, esperava-se que o Governo tivesse a capacidade de ser muito concreto, com objetivos e metas. O documento apresentado é o contrário disso,
Aguiar Branco sabe tudo isto. Mas dar melhores condições de trabalho aos deputados só interessa se interessar os deputados trabalharem. Enquanto discutirmos quem são os políticos em vez do que fazem, bem podem se entreter a discutir salários, obrigações declarativas e outras perceções enganadoras.
Se pensarmos bem, na política como na vida, a arte está no difícil equilíbrio não só entre interesses conflituantes, como entre os anjos e demónios que habitam dentro de nós – a verdade e a moderação, a coragem e a prudência, a inteligência e a humildade.
É preciso dar confiança aos cidadãos de que a criação das regiões administrativas não serve para criar mais lugares para os políticos, mas para verdadeiramente melhorar as suas vidas, através de políticas públicas mais eficientes e que respondam mais rapidamente às necessidades que sentem em cada local. Há 10 anos, ninguém acreditava que uma tão vasta descentralização de competências para os municípios poderia funcionar.
As promessas da resposta mais rápida de sempre e de dinheiro na mão sem burocracia são, e bem, tema de uma primeira e muito pertinente Presidência Aberta de António José Seguro. Têm sido, também, um foco do Grupo Parlamentar do PS, com visitas no terreno e a exigência de um relatório mensal de execução desta despesa.
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