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Uma série para ver esta semana: "Californication"

Disponível em Portugal na SkyShowtime, "Californication" traça o retrato provocador de um escritor em queda livre entre o desejo de redenção e a tentação constante do caos.

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Edição de 17 a 23 de março
Uma série para ver esta semana: 'Californication'
Tiago Neto 30 de março de 2026 às 18:42
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Pode uma personagem viver em constante contradição? A resposta é sim e Hank Moody é uma delas. Escritor talentoso mas incapaz de manter a própria vida sob controlo, move-se por Los Angeles como quem tenta recuperar algo que já perdeu, entre romances fugazes, decisões impulsivas e um bloqueio criativo que parece tão persistente quanto a sua autossabotagem.

Californication (2007-2014), série original Showtime, parte dessa figura central para construir uma narrativa que oscila entre o humor e um drama emocional surpreendentemente íntimo. Interpretado por David Duchovny (Ficheiros Secretos, Aquarius), Hank é o coração de uma história que vive tanto dos excessos como das suas consequências. À sua volta estão Karen (Natascha McElhone), a mulher com quem mantém uma relação intermitente e com quem tem uma filha, Becca (Madeleine Martin), que cresce a observar - e a questionar - as falhas do pai.

Este núcleo familiar, imperfeito e em constante tensão, dá à série uma dimensão afetiva que equilibra o tom provocador. Charlie (Evan Handler), seu agente e amigo, e Marcy (Pamela Adlon), a destemida, confrontacional e cómica mulher deste, completam os ingredientes de proximidade imediata do escritor. Criada por Tom Kapinos, a série mergulha também nos bastidores da indústria do entretenimento, explorando o lado mais artificial, hedonista e competitivo de Hollywood.

Nesse universo, Hank é simultaneamente um insider e um corpo estranho; alguém que depende desse sistema mas que nunca se integra totalmente, preferindo manter uma postura cínica e autodestrutiva. Um dos grandes trunfos de Californication está nos diálogos rápidos e mordazes, capazes de alternar entre o sarcasmo e a vulnerabilidade sem perder fluidez.

Ao longo das sete temporadas, a série constrói um retrato consistente de um homem em conflito consigo próprio, alguém que procura amor, inspiração e sentido, mas que raramente consegue escapar ao próprio padrão de comportamento. Mais do que uma comédia sobre excessos, Californication revela-se como uma reflexão sobre identidade, fracasso e a dificuldade de mudar. Entre momentos de humor cru e instantes de inesperada melancolia, somos convidados a acompanhar uma personagem que, apesar de todos os erros, continua a procurar uma forma de redenção, mesmo que nunca saiba bem como lá chegar.

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