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De Katie Holmes a Reese Whiterspoon: as homenagens a James Van der Beek
Marcou uma geração com a série "Dawson’s Creek" e morreu aos 48 anos, na sequência de um cancro colorretal. Colegas e amigos lembram a "generosidade", o "humor" e a marca humana para lá da televisão.
James Van Der Beek, ator de "Dawson's Creek", faleceu aos 48 anosRichard Shotwell/Invision/AP
Certas figuras da ficção tornam-se inseparáveis do tempo em que surgem, confundindo-se com a própria memória de quem as acompanhou. Dawson Leery - o adolescente cinéfilo, idealista e excessivamente eloquente de Dawson’s Creek - foi uma dessas figuras. O ator que o encarnou, James Van Der Beek, morreu quarta-feira, 11 de fevereiro, aos 48 anos, vítima de cancro colorretal, doença que tornara pública em novembro de 2024.
A notícia foi confirmada pela mulher, Kimberly Van Der Beek, que pediu "privacidade enquanto lamentamos o nosso amado marido, pai, filho, irmão e amigo”, acrescentando que o ator enfrentou os últimos dias “com coragem, fé e graça”. O casal tinha seis filhos. Após a morte, amigos próximos lançaram uma campanha de angariação de fundos para ajudar a família a suportar os custos médicos acumulados durante o tratamento.
Nascido em 1977, Van Der Beek entrou na cultura popular no final dos anos 1990 quando Dawson’s Creek - disponível em Portugal na Amazon Prime - se tornou um fenómeno global. A série, exibida entre 1998 e 2003, ajudou a redefinir o drama adolescente televisivo, apostando menos na rebeldia e mais na introspeção, no discurso emocional e numa ideia quase literária de crescimento. Dawson era, nesse sentido, mais observador do que o herói tradicional, e Van Der Beek encontrou nesse registo a medida certa entre vulnerabilidade e ironia.
O sucesso inicial foi avassalador e, como tantas vezes acontece com atores associados a papéis geracionais, difícil de reconfigurar. Seguiram-se projetos no cinema como Varsity Blues - A Balada dos Campeões (1999) ou As Regras da Atração (2002), participações regulares em televisão e escolhas mais inesperadas, entre elas a auto-paródia em Apartamento 23, em que interpretava uma versão caricatural de si mesmo, demonstrando uma consciência rara do peso da própria imagem pública. O seu último trabalho foi no filme juvenil Sidelined: The QB and Me e respetiva sequela, já durante o período em que lidava com a doença.
A morte desencadeou uma onda imediata de reações, não apenas de antigos colegas de elenco mas de várias gerações de artistas que com ele se cruzaram. A atriz Busy Philipps (Dawson's Creek, Ele Não Está Assim Tão Interessado) escreveu que o ator “era um em mil milhões” e sublinhou a amizade que mantiveram ao longo dos anos. Krysten Ritter (Breaking Bad: Roptura Total, Apartamento 23) recordou-o como “uma pessoa bonita por dentro e por fora - inteligente, empática, gentil e talentosa”, confessando estar devastada com a perda.
Kerr Smith, que contracenou com Van Der Beek em Dawson’s Creek, disse sentir-se grato por poder chamá-lo de “irmão”, enquanto Chad Michael Murray (One Tree Hill) o descreveu como “um gigante” cuja humanidade inspirava todos à sua volta. A atriz Stacy Keibler (WWE Raw), que esteve com o ator nos últimos dias, falou da serenidade com que este enfrentou a doença e a forma como transformava "conversas simples em momentos de presença absoluta".
A carta emocionada de Katie Holmes
Katie Holmes, que encabeçou Dawson's Creek ao longo das seis temporadas da série no papel de Joey Potter, recordou o ator com quem contracenou como alguém marcado pela “coragem” e pelo “altruísmo”. Numa mensagem partilhada nas redes sociais, em que a atriz partilhou uma carta escrita à mão, Holmes confessou que a notícia foi “difícil de processar”, mas disse sentir-se grata por ter partilhado com ele “uma parte do seu caminho”, feito de “riso, conversas sobre a vida e as aventuras de uma juventude única”.
Holmes deixou ainda uma mensagem direta à família, garantindo que estarão “sempre presentes, com amor e compaixão”, junto da mulher e dos filhos do ator.
"James, obrigado. Partilhar espaço com a tua imaginação é sagrado - respirar o mesmo ar na terra do faz-de-conta e confiar que os nossos corações estão seguros na sua expressão... Estas são algumas das memórias, juntamente com o riso, conversas sobre a vida, músicas do James Taylor - aventuras de uma juventude única. Bravura. Compaixão. Altruísmo. Força. Um apreço pela vida e pela ação para a vivermos com a integridade que a vida é arte - criar um casamento lindo, seis crianças adoráveis - a viagem de um Herói. Choro esta perda com um coração que sustém a realidade da ausência e um agradecimento profundo pela marca nele. Para a Kimberly e os miúdos, estamos sempre aqui para vocês. E estaremos sempre lá para vos inundar de Amor e Compaixão", lê-se na nota.
Reese Whiterspoon lembra "a bondade" do ator
Também realizadores e colaboradores sublinharam essa dimensão pessoal. Roger Avary, realizador de As Regras da Atração, falou de uma ligação criativa rara e de recentes conversas “filosóficas e existenciais” que revelavam um homem atento ao tempo e ao significado das coisas. Austin Nichols (O Dia Depois de Amanhã, One Tree Hill) escreveu que Van Der Beek representava “algo a que aspirar”, não apenas como ator, mas como marido, pai e amigo.
O agravamento do estado de saúde já o tinha impedido de estar presente, em setembro passado, num reencontro do elenco de Dawson’s Creek, em que participou apenas por vídeo. Lin-Manuel Miranda, que o substituiu presencialmente no evento, escreveu que “todo o seu coração” estava com a família do ator.
Também Alfonso Ribeiro revelou ter-se despedido do “verdadeiro amigo, irmão e guia de vida”, recordando o percurso difícil do tratamento e as oscilações entre esperança e recaídas, e a atriz Reese Whiterspoon (Big Little Lies, The Morning Show) deixou uma nota, via Instagram, na qual destaca a "bondade" e "graça" do ator.
Reese Witherspoon recorreu ao Instagram para reagir à morte de Van Der BeekD.R.
Mais do que a soma dos papéis, James Van Der Beek ficou ligado a uma transição específica da cultura pop: o momento em que as séries adolescentes passaram a falar uma linguagem emocional mais consciente, quase confessional, e encontraram um público que cresceu com elas. Dawson Leery era ficção, mas a sensação de o conhecer era real para milhões de espectadores.
Van Der Beek nunca se libertou totalmente dessa associação, e talvez nunca tenha querido. Ao longo dos anos, foi aprendendo a dialogar com essa herança, ora abraçando-a, ora desmontando-a com humor. No processo, construiu uma carreira menos ruidosa do que se previa, mas mais duradoura do que parecia possível.
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