Esta história de Desmond Doss, um objector de consciência que insistiu em alistar-se no exército americano durante a II Guerra Mundial e foi galardoado com a Medalha de Honra ao salvar dezenas de soldados durante a batalha de Okinawa (sem pegar numa arma), parece feita à medida de Mel Gibson. Permite-lhe utilizar o herói de guerra (um facto incontestável) como o rosto de uma superioridade moral que - Gibson acredita nisto de forma cega - é garantida a todos aqueles que carregam a bíblia no bolso e Jesus no coração. Que o faça no meio da carnificina, entre vísceras e as mortes acrobáticas que filma com a sua habitual convicção no impacto da violência (algo que faz bem), não disfarça a evidência de queO Herói de Hacksaw Ridgese vai arrastando por clichés em busca da iconografia cristã que transforma o filme num panfleto para aqueles que já estão convertidos. Tanto que não lhe interessa humanizar o "outro lado": os soldados japoneses são apenas zombies raivosos e o único momento em que o realizador olha para eles é para um retrato fetiche do seppuku - um ritual de suicídio perante a evidência da derrota. Xenofobia, religião e violência: bem vindo de volta, Mel Gibson.