O território revela-se por camadas. Na Terceira, os
Mistérios Negros atravessam a a serra de Santa Bárbara, numa área de
conservação integrada no Parque Natural da ilha. Em São Jorge, o percurso do
Pico da Esperança desce até às fajãs, mostrando a arquitetura de plataformas de
lava que se estendem sobre o mar. Nas Flores, o Poço da Ribeira do Ferreiro
conduz a um anfiteatro natural de cascatas que se acumulam numa lagoa profunda,
o Poço da Alagoinha.
Na Graciosa, o trilho Volta à Caldeira – Furna do Enxofre
desce ao interior de uma caldeira até uma caverna com lago subterrâneo, dentro
de Parque Natural, e evita a presença de trânsito automóvel, reforçando a
sensação de silêncio. No Faial, os Dez Vulcões percorrem o alinhamento fissural
da Caldeira, com cones recentes e pastagens de altitude, até ao campo vulcânico
protegido do Capelinhos.
No Pico, a Montanha sobe 2.351 metros com sinalização
graduada e zonas de segurança para resgate. Em São Miguel, a Lagoa do Fogo
atravessa floresta de altitude com vista direta sobre a cratera.
Os trilhos oficiais não são apenas caminho bonito. São a
forma certificada de entrar na paisagem dos Açores sem a partir. Para conhecer
tudo aceda aqui.
Do vulcão ao prato: a cozinha do arquipélago
Nada como uma caminhada para abrir o apetite. E quando se fala de gastronomia açoriana é imprescindível falar do cozido das Furnas. Não usa
fogão. As panelas descem de manhã cedo para as caldeiras vulcânicas de São
Miguel, onde ficam enterradas cinco a seis horas. As carnes, os enchidos, as batatas
e a couve absorvem vapor de enxofre e calor geotérmico direto. O sabor é fumado
de dentro para fora e é impossível replicar noutro sítio. Há restaurantes que
fazem reservas com dois dias de antecedência. Vale a pena ligar antes de
chegar.
As lapas fecham o ciclo do vulcão pelo lado do mar. São moluscos
do rochedo, tirados da lava e postos na brasa com manteiga de alho e sumo de
limão. Servem-se quentes, com o líquido ainda a borbulhar. Imperdível porque é
Açores inteiro num garfo.
O pasto atlântico dá o grosso, como o queijo de São Jorge
DOP. O leite vem de vacas que pastam acima dos 600 metros, em campos expostos
ao vento atlântico.
Carne que se desfaz na boca
Na grelha, o bife à Regional é o protagonista. Um bife alto de
vaca dos campos abertos, não de curral fechado, grelhado com pimenta moída na
hora, alho e ovo estrelado por cima. Sem molhos chiques. O segredo é a carne e nota-se
logo a diferença. Porém, quais são os segredos mais bem guardados da
gastronomia açoriana? Já que estamos na carne, destaque-se a alcatra da
Terceira, que se cobre em alguidar de barro. É carne de vaca em cubos, com vinho
tinto, louro, gordura de porco. Sete horas de forno. Cada família tem a medida
de sal, que não partilha. Não é um prato de restaurante turístico, é um prato
de domingo e de quem conhece alguém que conhece alguém.
No Faial, existem os torresmos de vinha-d'alhos, porco em
cubos marinado em vinho, alho e louro, frito até a crosta estalar. Um petisco
de tasquinha e sumo de laranja para cortar a gordura. É raro em guias
turísticos, normalmente pergunta-se a quem mora lá. Algumas das boas refeições
dos Açores vivem nos mercados às sete da manhã, nas tascas com ementa de giz e nas
mesas de famílias, onde o anfitrião mata o porco no dia.
Os doces têm um lugar especial à mesa... ou fora dela
Há tanto por
onde escolher que é difícil destacar os pratos principais do arquipélago. A
juntar às supracitadas iguarias, que fazem crescer água na boca, podemos
acrescentar o polvo guisado, com vinho de cheiro, o bife de atum ou os
chicharros fritos com molho vilão.
Saltando
para terra, acrescente-se a alheira de Santa Maria e na mesma ilha uma nota
igualmente para o caldo de nabos ou as sopas do Império ou do Espírito Santo.
Já o Faial e o Pico têm a molha de carne como prato típico. Precisamente no
Pico, as refeições “têm” de ser acompanhadas pelos vinhos locais, provenientes
de vinhas inseridas em paisagem que é Património Mundial da UNESCO. Os
vinhos brancos são ótimos. Os tintos ou o vinho de cheiro também! Além do Pico,
Terceira, Graciosa ou São Miguel também produzem vinhos que podem “casar” com a
morçela ou o chouriço, excelentes enchidos da região.
Doçaria
regional de excelência
O
arquipélago é também conhecido pelos doces. As queijadas da Graciosa serão,
quiçá, o produto mais famoso da ilha. A confeção deste doce tradicional de Vila
da Praia, em forma de estrela, é toda realizada com ingrediente locais (leite, manteiga,
ovo e açúcar) e ninguém sai da ilha com a boca amarga. Refira-se que em 2015,
as queijadas da Graciosa receberam o selo “Marca Açores – Certificado pela
Natureza”, tendo sido o primeiro produto da região a receber esta
certificação.
Em São
Miguel, o produto que “dá mais cartas” para os mais gulosos é a queijada de
Vila Franca do Campo. Continuando nas queijadas, mas na Terceira, aponte-se as
Dona Amélia, assim designadas depois de a rainha D. Amélia ter visitado os
Açores em 1901.
Em São
Jorge, as espécies são um doce típico e a sua designação assenta no uso de uma
variedade de especiarias na confeção destes bolos que se assemelham a pequenas
rosquilhas.
Produzido em
todas as ilhas, apesar de ser originário do Vale das Furnas em São Miguel, o bolo
lêvedo é uma iguaria feita com ovos, açúcar, manteiga, farinha, fermento, leite
e sal e que pode ser barrado por manteiga, por exemplo. Quanto à massa sovada,
é um pão doce feito com manteiga, ovos, açúcar e leite e que pode acompanhar
diversos pratos.
Nota ainda
para os licores locais, que podem ser de frutos tão distintos como maracujá, ananás
e amora.