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A pé pelas nove ilhas

Rede oficial de trilhos do arquipélago integra uma malha de percursos certificados cuidadosamente distrbuídos pela região.

Trilho, São Jorge
03 junho 2026 11:14

O território revela-se por camadas. Na Terceira, os Mistérios Negros atravessam a a serra de Santa Bárbara, numa área de conservação integrada no Parque Natural da ilha. Em São Jorge, o percurso do Pico da Esperança desce até às fajãs, mostrando a arquitetura de plataformas de lava que se estendem sobre o mar. Nas Flores, o Poço da Ribeira do Ferreiro conduz a um anfiteatro natural de cascatas que se acumulam numa lagoa profunda, o Poço da Alagoinha.

Na Graciosa, o trilho Volta à Caldeira – Furna do Enxofre desce ao interior de uma caldeira até uma caverna com lago subterrâneo, dentro de Parque Natural, e evita a presença de trânsito automóvel, reforçando a sensação de silêncio. No Faial, os Dez Vulcões percorrem o alinhamento fissural da Caldeira, com cones recentes e pastagens de altitude, até ao campo vulcânico protegido do Capelinhos.

No Pico, a Montanha sobe 2.351 metros com sinalização graduada e zonas de segurança para resgate. Em São Miguel, a Lagoa do Fogo atravessa floresta de altitude com vista direta sobre a cratera.

Os trilhos oficiais não são apenas caminho bonito. São a forma certificada de entrar na paisagem dos Açores sem a partir. Para conhecer tudo aceda .

Do vulcão ao prato: a cozinha do arquipélago

Nada como uma caminhada para abrir o apetite. E quando se fala de gastronomia açoriana é imprescindível falar do cozido das Furnas. Não usa fogão. As panelas descem de manhã cedo para as caldeiras vulcânicas de São Miguel, onde ficam enterradas cinco a seis horas. As carnes, os enchidos, as batatas e a couve absorvem vapor de enxofre e calor geotérmico direto. O sabor é fumado de dentro para fora e é impossível replicar noutro sítio. Há restaurantes que fazem reservas com dois dias de antecedência. Vale a pena ligar antes de chegar.

Cozido das furnas
Cozido das furnas

As lapas fecham o ciclo do vulcão pelo lado do mar. São moluscos do rochedo, tirados da lava e postos na brasa com manteiga de alho e sumo de limão. Servem-se quentes, com o líquido ainda a borbulhar. Imperdível porque é Açores inteiro num garfo.

O pasto atlântico dá o grosso, como o queijo de São Jorge DOP. O leite vem de vacas que pastam acima dos 600 metros, em campos expostos ao vento atlântico.

As lapas são maravilhosas
As lapas são maravilhosas

Carne que se desfaz na boca

Na grelha, o bife à Regional é o protagonista. Um bife alto de vaca dos campos abertos, não de curral fechado, grelhado com pimenta moída na hora, alho e ovo estrelado por cima. Sem molhos chiques. O segredo é a carne e nota-se logo a diferença. Porém, quais são os segredos mais bem guardados da gastronomia açoriana? Já que estamos na carne, destaque-se a alcatra da Terceira, que se cobre em alguidar de barro. É carne de vaca em cubos, com vinho tinto, louro, gordura de porco. Sete horas de forno. Cada família tem a medida de sal, que não partilha. Não é um prato de restaurante turístico, é um prato de domingo e de quem conhece alguém que conhece alguém.

No Faial, existem os torresmos de vinha-d'alhos, porco em cubos marinado em vinho, alho e louro, frito até a crosta estalar. Um petisco de tasquinha e sumo de laranja para cortar a gordura. É raro em guias turísticos, normalmente pergunta-se a quem mora lá. Algumas das boas refeições dos Açores vivem nos mercados às sete da manhã, nas tascas com ementa de giz e nas mesas de famílias, onde o anfitrião mata o porco no dia.

Os doces têm um lugar especial à mesa... ou fora dela

Há tanto por onde escolher que é difícil destacar os pratos principais do arquipélago. A juntar às supracitadas iguarias, que fazem crescer água na boca, podemos acrescentar o polvo guisado, com vinho de cheiro, o bife de atum ou os chicharros fritos com molho vilão.

Saltando para terra, acrescente-se a alheira de Santa Maria e na mesma ilha uma nota igualmente para o caldo de nabos ou as sopas do Império ou do Espírito Santo. Já o Faial e o Pico têm a molha de carne como prato típico. Precisamente no Pico, as refeições “têm” de ser acompanhadas pelos vinhos locais, provenientes de vinhas inseridas em paisagem que é Património Mundial da UNESCO. Os vinhos brancos são ótimos. Os tintos ou o vinho de cheiro também! Além do Pico, Terceira, Graciosa ou São Miguel também produzem vinhos que podem “casar” com a morçela ou o chouriço, excelentes enchidos da região.

Doçaria regional de excelência

O arquipélago é também conhecido pelos doces. As queijadas da Graciosa serão, quiçá, o produto mais famoso da ilha. A confeção deste doce tradicional de Vila da Praia, em forma de estrela, é toda realizada com ingrediente locais (leite, manteiga, ovo e açúcar) e ninguém sai da ilha com a boca amarga. Refira-se que em 2015, as queijadas da Graciosa receberam o selo “Marca Açores – Certificado pela Natureza”, tendo sido o primeiro produto da região a receber esta certificação. 

Em São Miguel, o produto que “dá mais cartas” para os mais gulosos é a queijada de Vila Franca do Campo. Continuando nas queijadas, mas na Terceira, aponte-se as Dona Amélia, assim designadas depois de a rainha D. Amélia ter visitado os Açores em 1901. 

Em São Jorge, as espécies são um doce típico e a sua designação assenta no uso de uma variedade de especiarias na confeção destes bolos que se assemelham a pequenas rosquilhas.

Produzido em todas as ilhas, apesar de ser originário do Vale das Furnas em São Miguel, o bolo lêvedo é uma iguaria feita com ovos, açúcar, manteiga, farinha, fermento, leite e sal e que pode ser barrado por manteiga, por exemplo. Quanto à massa sovada, é um pão doce feito com manteiga, ovos, açúcar e leite e que pode acompanhar diversos pratos.

Nota ainda para os licores locais, que podem ser de frutos tão distintos como maracujá, ananás e amora.

Queijadas de Vila Franca
Queijadas de Vila Franca