Varicela aos 45? Quando as doenças infantis chegam aos adultos

... e custa bem mais do que apanhar o vírus em criança. Acontece o mesmo com outras maleitas. A boa notícia? Cada vez existem menos
Por Tânia Pereirinha 11 de Outubro de 2019 às 13:39
O primeiro a adoecer foi o filho, de 5 anos, que andava no infantário. Diagnóstico: papeira. Logo a seguir, a filha de apenas 1 ano contraiu o vírus, depois foi o marido. Fátima Sequeira não apanhou a doença, não se recorda se por ter tido em criança ou por sorte, mas lembra-se bem de que quem ficou em pior estado foi José, então com 31 anos. "A garganta inchou imenso, teve febres muito altas, ficou com a parte genital afectada. Havia até risco de ficar estéril, mas acabou por não acontecer", recorda.

O caso, que remonta a 1985, é hoje, em Portugal, impossível de se repetir. E essa é a boa notícia, explica o pediatra Honrado Lucas, antigo chefe de serviço de Pediatria e Neonatologia do Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa: "Há cada vez menos doenças graves infantis. Há 20 ou 30 anos entrávamos nas enfermarias de pediatria e estavam cheias de crianças internadas, agora não. Somos um País com uma cobertura vacinal enorme e isso faz com que doenças como a rubéola, a papeira ou o sarampo – que era um vírus diabólico, lembro-me de que na última epidemia, há uns 30 anos, só na Estefânia, morreram quatro ou cinco miúdos – estejam erradicadas; já nem nos lembramos delas."

A má notícia? As doenças que subsistem, como a varicela (a vacina existe mas, como não faz parte do Programa Nacional de Vacinação, não é obrigatória e tem um custo de cerca de 100 euros) continuam a afectar miúdos e graúdos. E são os adultos que mais sofrem com elas: "O que para as crianças são infecções leves e benignas, para os adultos podem ser situações graves, regra geral ficam mais prostrados, com estados gerais mais agudos e febres mais elevadas", alerta o pediatra.

António Gonçalves, 53 anos, que apanhou varicela aos 44, quando a filha mais nova tinha 4, lembra-se bem das comichões insuportáveis que só passavam debaixo de água fria e dos febrões acima dos 39 oC que suportou durante uma semana depois de detectar a primeira pinta na cara, ao espelho. "A Alexandra ficou doente mas eu não tive cuidados nenhuns, tinha 44 anos, tinha estado uma vida inteira em contacto com pessoas com varicela e nunca tinha apanhado. Parti do princípio de que era imune", explica.
Não era, sofreu por isso, mas ficou bem e sem sequelas. O mesmo não acontece se os adultos infectados forem mulheres grávidas, no fim da gestação, avisa Honrado Lucas. "A varicela congénita é gravíssima: a mãe fica doente já no fim da gravidez e começa a desenvolver anticorpos para o vírus, mas esse processo demora umas três semanas, pelo que o feto recebe o vírus por via sanguínea e nasce com varicela congénita. Aquilo que numa criança com 5 ou 6 anos se resolve facilmente é muito grave para um recém-nascido. São situações muito raras mas geralmente fatais."

Alergia no couro cabeludo
De gravidade incomparavelmente menor são outras "maleitas" infantis a que os adultos não estão imunes mas que também podem provocar sofrimento ou embaraço. Helena Melo, 35 anos, foi acometida há apenas dois meses, tal como os dois filhos, de 3 e 1, pela síndrome pés -mão-boca, que habitualmente afecta, com erupções cutâneas e febre, exactamente a boca, as mãos e os pés, de crianças até aos 4 anos. Outra mãe, hoje com três filhos e 38 anos, contou como, durante a última gravidez, foi ao dermatologista queixar-se de uma alergia no couro cabeludo que dava muita comichão e até lhe tinha provocado bolhas atrás das orelhas. "O médico esteve a ver e descobriu que eu tinha era três gerações de piolhos. Quer dizer que já os tinha há semanas, apanhei dos meus filhos mais velhos." Por motivos óbvios, esta mãe não quis ser identificada.
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