"Um Natal igual aos dos outros anos é muito arriscado"

Especialista em saúde pública e epidemiologia, Inês Fronteira discorre sobre a evolução da Covid-19 em Portugal, perspetiva o Natal e reflete sobre as outras pandemias desta pandemia: a do medo e a da desinformação.
Por Rita Silva Avelar 20 de Novembro de 2020 às 10:45

Professora auxiliar de Saúde Pública e Epidemiologia no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa há 9 anos, mas também investigadora nesta e noutras áreas relacionadas, Inês Fronteira conhece bem os meandros científicos da evolução da Covid-19 em Portugal. Mas, e como enfermeira que também foi - embora não exerça há mais de uma década - sabe o quão exigente do ponto de vista humano esta profissão pode ser.

Entre junho e setembro, Inês Fronteira foi ainda diretora de Serviços de Informação e Análise da DGS, e tráça-nos agora um retrato de como a covid-19 tem evoluído em Portugal e do que poderemos esperar do futuro próximo. Pelo meio, não deixa de dar o seu ponto de vista sobre as epidemias que se cruzam com esta, a da desinformação e do medo, e alerta que aquilo que vivemos também veio agravar problemas de solidão, de abandono, de pobreza, de violência e sobretudo de saúde mental.

Vivemos uma situação de pandemia há vários meses. Como vê a evolução do vírus em Portugal?

Comparativamente a outros países europeus e de outros continentes, Portugal registou os primeiros casos de infeção por SARS-CoV-2 mais tardiamente, quase dois meses depois de países como Itália, Espanha ou os Estados Unidos. Tal teve um efeito de alguma forma "protetor": os portugueses estavam cientes do impacto desta nova doença nos serviços de saúde e muitos optaram por um recolhimento voluntário. Uma semana antes de ser decretado o confinamento em Portugal já muitos pais não deixaram as crianças ir à escola e quem podia ficou a trabalhar a partir de casa. As pessoas estavam assustadas e protegeram-se. O confinamento que vivemos em março e abril foi fundamental para que os serviços de saúde se organizassem na resposta à Covid-19 e tornando-a mais efetiva e eficiente, mas foi, sobretudo, fundamental para evitar a transmissão da doença na comunidade, o que se conseguiu.

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