Saiba como combater as piores dores de cabeça

Cerca de milhão e meio de portugueses são massacrados durante dias por dores de cabeça tão intensas que os levam ao desespero
Por Susana Lúcio 11 de Outubro de 2019 às 13:09
Calcula-se que 12 a 15% dos portugueses sofre de enxaqueca
Calcula-se que 12 a 15% dos portugueses sofre de enxaqueca
Laura nunca se habituou às dores de cabeça que tem desde os 12 anos. "Sinto como se uma faca estivesse a espetar-me na têmpora." Aos 55, a engenheira química sofre de enxaqueca crónica e sobrevive com dores que se tornaram quase permanentes. Tem cefaleias, o termo médico para as dores de cabeça, todos os dias. E em pelo menos seis dias por mês sofre crises agudas que a obrigam a fechar-se no quarto, isolada da família. "Às vezes, estou tão cansada de acordar e deitar-me com dores, que choro. Chego a ter pena de mim mesma e encharco-me em comprimidos para aguentar", conta.

A enxaqueca é uma doença neurológica sem cura e altamente incapacitante. Entre as doenças neurológicas, como o Alzheimer e o acidente vascular cerebral, é a que tem mais impacto ao longo de toda a vida dos doentes, segundo a Organização Mundial de Saúde. "As pessoas ficam disfuncionais. Além da dor, podem ficar enjoadas, vomitar, não se conseguem concentrar, algumas deixam de ver temporariamente, outras não suportam o ruído", explica a neurologista Raquel Gil-Gouveia, coordenadora do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz.

Calcula-se que 12 a 15% dos portugueses sofre de enxaqueca – e as mulheres são três vezes mais afectadas. A maioria responde aos medicamentos disponíveis, grande parte desenvolvidos para outras doenças, como a epilepsia e a depressão. Mas há quem tenha tentado tudo, até um cocktail de vários fármacos, em vão. Agora surgiu uma nova esperança: foi aprovado o primeiro medicamento desenhado para o tratamento preventivo da enxaqueca.

É muito provável que já tenha sentido uma dor de cabeça que tenha tornado o seu dia um pouco mais difícil. A cefaleia tipo tensão, como é chamada pelos médicos, afeta cerca de 80% da população pelo menos uma vez na vida e pode ser provocada por ansiedade, stress ou má postura. Em geral desaparece com uma aspirina ou um analgésico.

Não é o caso da enxaqueca. As crises podem durar entre quatro a 72 horas e ocorrem, pelo menos, duas vezes por mês. "As pessoas ficam doentes. É como ter uma grande gripe, dois ou três dias de cada vez, duas ou três vezes por mês", explica Raquel Gil-Gouveia. E existe também o estigma da doença: "Há a ideia de que a enxaqueca é uma desculpa para não trabalhar. Quando é o contrário: os doentes fazem um esforço para não faltar."

Laura sabe bem o que isso é. "Ninguém acredita que eu tenho dores de cabeça 30 dias por mês. Acham que não estou boa da cabeça. Nem fazem ideia do que é a dor de uma enxaqueca." A engenheira teve a primeira enxaqueca aos 12 anos, numa festa de baptizado. Mais tarde, quando ficou menstruada, a doença tornou-se recorrente. "Na altura, não sabia que não devia fazer esforços. Uma vez, cheguei a desmaiar", conta. A dor tornou-se mais aguda na faculdade. "Pensei o pior, que poderia ser um tumor."

Fez um electroencefalograma, TACs e ressonâncias magnéticas para despistar outras doenças e o diagnóstico descansou-a. Mas por pouco tempo. "A médica perguntava me como classificava a dor numa escala de 0 a 10. Era quase sempre 10. Atingia-me o olho direito, que ficava negro e inchado, como se eu tivesse levado um murro." A enxaqueca atinge sempre um dos lados da cabeça e pode afetar os dois olhos.

Atrasar a maternidade
"Quando comecei a trabalhar viajava muito para fora, falei com o ginecologista e decidi tomar a pílula continuamente para não menstruar. Deixei de ter enxaquecas", conta. As mulheres têm mais probabilidade de ter a doença do que os homens devido ao ciclo menstrual. "Parece haver uma influência direta do estrogénio nesta predisposição das mulheres", explica Raquel Gil-Gouveia. Para Laura, este foi o período menos doloroso da sua vida adulta e, para o prolongar, chegou a atrasar a maternidade. "Fui mãe há 17 anos. Durante a gravidez, a dor era diferente, parecia umas fisgadas dentro da cabeça."

As crises tornaram-se mais frequentes. Todos os meses tinha duas que duravam seis dias cada e se prolongavam pela noite. Ficava com náuseas e qualquer ruído tornava-se insuportável. Abusou nos medicamentos. "Há comprimidos que só se devem tomar nas crises mais agudas, mas já os estava a tomar todos os dias", admite. A enxaqueca tornou-se crónica e há dois anos que tem dores de cabeça todos os dias.

As cefaleias podem tornar-se crónicas quando os doentes tomam analgésicos 10 a 12 dias por mês, durante três meses. "O medicamento resolve mal a crise e a pessoa aumenta a dose. Muitas vezes, antes de sentir a dor, já está a tomar o comprimido", explica a neurologista Paula Esperança, do Centro Hospitalar Lisboa Centro.

Efeitos secundários adversos
Há medicamentos, os triptanos, que são eficazes a reduzir a dor. Mas quem tem mais de duas a três crises por mês realiza um tratamento profiláctico, para reduzir a intensidade e a frequência das enxaquecas. O problema é que estes fármacos podem provocar efeitos secundários adversos. "A maioria dos medicamentos não foi desenvolvida para a enxaqueca. Por exemplo, usamos um que é para a epilepsia e outro para a taquicardia", observa a neurologista Elsa Parreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias.

O topiramato, criado para a epilepsia, pode provocar perda de memória, sonolência, formigueiros nas mãos e pés, falta de apetite, irritabilidade e até comportamentos agressivos. Muitos doentes recusam-se a tomá-lo. Há doentes que reconhecem uma mudança de comportamento e sentem que ficam mais irritáveis e agressivos. "Mas os efeitos secundários não surgem em todos os doentes", garante Elsa Parreira.

Para quem não suporta os efeitos secundários existe uma alternativa recente: o botox. "A toxina atua nos neurotransmissores e modula a transmissão da dor da parte periférica para a parte central do cérebro", explica a neurologista Paula Esperança. A toxina é aplicada em 31 pontos da cabeça e do pescoço, de três em três meses. Laura fez o primeiro tratamento com botox em Junho. "Em Agosto só tive quatro dias com enxaqueca. Parece estar a resultar."

Mas o botox não resolve todos os casos. "Já tentei tudo e no primeiro mês acredito mesmo que estou curada", conta Ana, de 52 anos. A jornalista sofre de enxaqueca desde a adolescência e há mais de um ano começou a fazer o tratamento com botox no Hospital de Santa Maria. "No primeiro mês fico óptima, mas vai perdendo efeito com o passar das semanas." Como 15% dos doentes com enxaqueca, Ana tem aura, um fenómeno que ocorre minutos antes da dor. "Vejo umas luzinhas a piscar, fico maldisposta e, às vezes, tenho vertigens." Em Agosto, estava na praia quando começou a sentir os sintomas e ainda teve tempo de conduzir até casa. O pior é quando está a trabalhar. "Trabalho por turnos e uma noite estava a editar o noticiário quando tive uma enxaqueca. Tinha de assegurar a emissão, por isso, ia vomitar entre as notícias." Nestas ocasiões tem de aguentar a dor, porque os medicamentos não chegam a ser absorvidos no estômago.

A enxaqueca é uma doença genética e hereditária que parece provocar no cérebro um defeito no processamento da informação, que se chama habituação. "Quando o cérebro recebe um estímulo novo – uma imagem ou um toque – toma atenção e processa esse estímulo. Mas se continuar a receber esse estímulo, a resposta vai diminuindo e o cérebro acaba por ignorá-lo", explica a neurologista Raquel Gil-Gouveia. "O cérebro das pessoas com enxaqueca não se habitua da mesma forma aos estímulos. Ainda não sabemos porquê."

Sono e stress influenciam
A doença surge de forma imprevisível, mas há fatores como o ciclo menstrual, alterações do sono e o stress que podem desencadear mais crises. "As enxaquecas parecem surgir em momentos de oscilação do nosso estado normal", diz a neurologista. "Há doentes que têm enxaquecas quando dormem pouco e quando dormem muito. O ideal é dormir sempre o mesmo número de horas. E há doentes que têm uma enxaqueca sempre no primeiro dia de férias, quando se libertam do stress acumulado da última semana de trabalho."
Mesmo quando aguentam e vão trabalhar, os doentes notam que não estão bem. "O meu cérebro não fica a 100%. Já aconteceu ter dificuldade em articular as palavras para falar", conta Liliana, psicóloga de 59 anos.

A disfunção cognitiva é, depois da dor, o que mais perturba os doentes. A conclusão é de um estudo que foi a tese de doutoramento de Raquel Gil-Gouveia. "Hoje o local de trabalho é muito intelectual e é difícil não estar a funcionar." A especialista participou noutro estudo que analisou a forma como o cérebro dos doentes trabalha durante e depois das crises. "Através da ressonância magnética funcional percebemos que as pessoas ficam mais lentas a realizar tarefas, parece que precisam de mais área cerebral para funcionarem." O estudo, realizado pelo Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, o Instituto Superior Técnico e a Luz Saúde, ganhou uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e vai ser aprofundado.

Liliana começou por se auto-medicar em adolescente. Mais tarde, tomava os medicamentos prescritos pelo médico de família, mas sem efeito. "Sinto uma dor muito fina, como se estivessem a espetar-me um alfinete", conta. No último mês já teve 10 enxaquecas. Evita o vinho branco e a cebola, que lhe desencadeiam novas crises. Algumas durante a noite. "Acordo com a dor, tomo o medicamento e fico sentada à espera que passe. Alivia a dor, mas sinto -me como se tivesse levado uma sova."

A causa da enxaqueca é ainda desconhecida. O que se sabe é que, durante a crise, o hipotálamo, a zona do cérebro que regula o equilíbrio do organismo, fica mais activo. "É como se ele estivesse a monitorizar algo, deteta um problema e ativa o sistema de alarme do organismo, que é a dor." Então, o trigémio, o nervo que transmite a sensibilidade da cabeça, liberta uma substância, chamada CGRP (peptídeo relacionado com o gene da calcitonina) que faz dilatar e inchar a parede das artérias da cabeça e permite a perceção da dor. "Neste processo são ativadas outras áreas, que provocam as náuseas e o vómito, a intolerância à luz, ao ruído e a dificuldade de concentração. Ao fim de dois a três dias o processo desliga-se sozinho", explica Raquel Gil-Gouveia.

Novo medicamento aprovado
Várias farmacêuticas concentraram a investigação no CGRP e, este ano, foi aprovado pela Agência Europeia do Medicamento o primeiro fármaco desenvolvido para prevenir as enxaquecas. O Aimovig, da Novartis, é um anticorpo monoclonal, que são proteínas usadas pelo sistema imunológico para identificar e neutralizar corpos estranhos. É administrado por via endovenosa e bloqueia os recetores do CGRP. Segundo os ensaios clínicos, realizados em 2.600 doentes, o medicamento reduz a intensidade das enxaquecas e o número de dias de crise. Em Portugal, participaram 20 doentes do Hospital Amadora-Sintra, do Hospital de Santa Maria, do Hospital da Luz e do Campus Neurológico Sénior, em Torres Vedras. "Os resultados foram positivos e o medicamento foi bem tolerado", garante Elsa Parreira.

A eficácia não difere muito de alguns dos medicamentos já usados na profilaxia, mas tem a vantagem de ter poucos efeitos secundários. "Para mim esse é o aspeto mais positivo. Significa que não vou passar parte da consulta a explicar porque vou dar a uma pessoa sem epilepsia um medicamento para a epilepsia", diz Elsa Parreira.

O problema é o preço. Nos Estados Unidos, uma dose mensal custa cerca de 575 euros. A Novartis fez o pedido de comparticipação em agosto ao Infarmed, que tem seis meses para dar uma resposta. Mas o medicamento pode estar disponível ainda este ano. "A partir de novembro, a Novartis poderá estar em condições de fornecer o medicamento aos hospitais privados", disse Luís Rocha, diretor de Acesso ao Medicamento da Novartis.

Mas há outros tratamentos alternativos. Vanda Apresentação, de 60 anos, usa um neuro-estimulador para atenuar o número de enxaquecas que tem por mês. O Cefaly é um elétrodo que se coloca na testa e que faz uma estimulação elétrica do nervo supra-orbital, um ramo do nervo trigémeo. "Uso-o todos os dias, durante 20 minutos, para prevenir as enxaquecas. Sinto umas picadas, parecidas com a acupunctura, e fico mais calma", conta. O aparelho, desenvolvido na Bélgica, recebeu a aprovação do Infarmed. "Está demonstrado em ensaios clínicos que é eficaz quer para tratamento preventivo quer no tratamento da crise", diz Elsa Parreira. "Tenho pacientes que têm bons resultados e outros que não."

Para Vanda Apresentação, o aparelho aliviou a intensidade da dor que lhe atinge o lado direito. "Chego a estar três dias sem comer porque vomito tudo." Foi secretária de direcção, mas a medicação baixava-lhe a tensão e foi obrigada a faltar várias vezes. Acabou por ficar desempregada. Não é caso único. "As pessoas com enxaquecas têm taxas mais elevadas de divórcio e de desemprego e maiores dificuldades em progredir no emprego", diz Raquel Gil-Gouveia. A doença também afetou a sua vida pessoal. "O meu casamento acabou por causa da enxaqueca. O meu marido tinha um cargo importante num hospital e tinha de ir a festas e viagens. Eu não conseguia e ele habituou-se a andar sozinho. Divorciámo-nos há 10 anos."

A cefaleia em salvas
A enxaqueca afeta mais pessoas, mas não é a cefaleia mais dolorosa. Cerca de mil portugueses sofrem de cefaleia em salvas, uma dor tão intensa que só é aliviada com recurso a oxigénio. "Sinto como se um balão cheio estivesse sob pressão dentro da minha cabeça e prestes a rebentar. Deixo de ver, não consigo ouvir ruído, não consigo fazer nada", conta Mário Justo. O serralheiro civil, de 47 anos, esteve seis anos sem saber o que tinha. "Tenho doentes a quem arrancaram os dentes todos porque se pensava que era dali a origem da dor", conta Paula Esperança. "São doentes que têm o meu número de telefone e que me ligam quando estão muito aflitos." Como a enxaqueca, a cefaleia em salvas é incurável, mas é mais previsível. As crises são sazonais, surgem na Primavera e no Outono, e duram entre seis a 12 semanas.

Mário Justo está no meio de um surto. "Começou com uma dor de cabeça de manhã e duas à noite. Agora é quase de hora a hora", conta. O sono é um desencadeante e durante a noite acorda com dores meia hora depois de adormecer. "Há quatro dias que não consigo dormir." Está de baixa há três semanas.

Para controlar a dor já chegou a tomar 25 comprimidos por dia e durante uma crise recorre a oxigénio inalado. "Fecho-me na casa de banho e ponho a cabeça debaixo do chuveiro a correr água fria. Também bebo café com limão, que parece aliviar."

Henrique Pinto também tinha dores de cabeça muito fortes na Primavera e no Outono. "Duravam um mês, tinha crises várias vezes por dia, e tentava controlar a dor com medicação. Depois desapareciam", conta o gestor comercial de 54 anos. Mas há sete anos a doença agravou-se e os surtos são durante todo o ano. Começou a tomar corticóides para atenuar a dor, mas teve de parar devido aos efeitos secundários adversos. "Quando surge uma crise tomo oxigénio se estiver em casa. Se estiver na rua, injecto-me com um medicamento que é milagroso. Mas só o posso tomar duas ou três vezes por dia porque tem efeitos secundários." Em maio, experimentou um tratamento indicado para a enxaqueca, o botox. "Vou fazer a terceira sessão no próximo mês e desde maio que não tenho tido crises", diz, esperançoso. "Mas a dra. Elsa Parreira diz que é muito cedo para festejar."

Alguns nomes de pacientes foram alterados a pedido dos próprios
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