Diabetes tipo 1: "Temos crianças diagnosticadas dias após o nascimento"

A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal quer criar um registo nacional de diabetes de tipo 1 e lançou uma petição para recolher assinaturas e levar à Assembleia da República.
Por Lucília Galha 21 de Fevereiro de 2020 às 09:58

Estima-se que entre 25 a 75 mil portugueses tenham diabetes tipo 1. Mas é impossível determinar este número com certeza. A pensar nisso, e no fato de esta ser uma doença que "exige uma atenção especial", a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) propôs criar uma plataforma nacional de registo das pessoas com diabetes tipo 1. E já lançou inclusive uma petição, no site do Parlamento, que pode ser assinada por qualquer pessoa. 

À SÁBADO, o presidente da APDP José Manuel Boavida explica quais seriam os benefícios deste tipo de registo que já existe em países como a Suécia e a Finlândia. 

Quando e como surgiu esta ideia?
A Organização Mundial de Saúde considera a diabetes uma pandemia mundial e, em Portugal, os números oficiais espelham essa realidade. Neste quadro, a diabetes tipo 1 exige uma atenção especial. Este tipo de diabetes de origem auto-imune não se prende com hábitos de vida ou de alimentação - como nas pessoas com diabetes tipo 2.

Exige uma abordagem própria e de grande exigência. Um registo nacional atualizado que permita a aquisição de mais e melhor conhecimento científico surgiu pela incapacidade de compreender a doença e de perspectivar a sua terapêutica futura. Precisamos de um pensamento crítico para uma melhor abordagem, decisões estratégicas adequadas e perspetivação de novas terapêuticas a nível imunológico e tecnológico (nomeadamente as bombas de insulina inteligentes).

Porque não estender este registo a todos os tipos de diabetes?
Na diabetes tipo 1 falamos de pessoas, crianças, jovens e adultos, que não vivem sem insulina. E, apesar do aumento da sua incidência e prevalência, não temos um programa estruturado e coerente que aborde as principais necessidades na área. A criação de um registo nacional é um primeiro passo no âmbito das políticas na área da diabetes. É um menor número de pessoas e conseguimos fazer um registo eficiente pois a grande maioria é seguida em hospitais.

No que respeita a diabetes tipo 2, aguardamos que o Instituto Ricardo Jorge realize o novo Inquérito Nacional de Saúde com exame físico (INSEF). Isto é, a abordagem para a diabetes tipo 2, dada a dimensão da doença, é diferente. Temos os números dos cuidados primários e o que precisamos é de estimar a sua evolução e o número de pessoas por diagnosticar. Na diabetes tipo 2 estamos a falar de uma dimensão populacional de mais de um milhão pessoas, em comparação com um universo de 30 a 50 mil pessoas na diabetes tipo 1.

Qual serão os benefícios concretos de uma plataforma deste género? 
Na saúde estamos perante uma nova era inovadora, que se traduz numa esperança de novos caminhos terapêuticos e de controlo. A concretização de um registo nacional para a diabetes tipo 1 poderá ser um ponto de partida para a recolha de informação crucial na gestão dessas novas perspectivas.

Além de que a informação existente nesta área poderá permitir o planeamento de estratégias mais eficientes de controlo da doença, educação terapêutica, acompanhamento multidisciplinar, autocontrolo e autogestão. Desta forma, uma das questões principais é perceber de que forma a diabetes tipo 1 está a progredir sabendo o número da sua incidência total e por idades e a sua evolução.

Quem ficaria encarregado de a gerir? 
O responsável por gerir este registo terá que ser o Ministério da Saúde na unidade que considerar melhor para este efeito. É o Ministério da Saúde que tem a base de dados e registos para que esta plataforma seja efetivada.

Já existe um registo nacional deste género noutros países da Europa?
A concretização de um registo nacional em vários países foi um ponto de partida para compreender melhor a doença. Na Europa, temos a Suécia e a Finlândia e, a nível mundial, a Austrália. Estes registos têm permitido perceber o aumento do número de pessoas com diabetes tipo 1 e o aumento deste tipo de diabetes em crianças cada vez mais jovens. Além disso, permitiu percepcionar a sua dimensão em adultos, muitas vezes confundidos com diabetes tipo 2 necessitados de insulina.

Têm ideia quantos doentes com diabetes tipo 1 existem em Portugal? E qual a idade em média em que as crianças são diagnosticadas?
A nível nacional, as estimativas apontam para números entre os 25 mil e os 75 mil. No que respeita a idade, temos crianças que são diagnosticadas com diabetes tipo 1 dias após o seu nascimento e, apesar de não sabermos a idade média, sabemos que começa a aparecer cada vez mais no grupo etário abaixo dos seis anos e em proporção maior do que existia anteriormente. Isto é, temos um aumento relativo das crianças nesta faixa etária em relação aos jovens na idade da puberdade, considerada a idade de maior incidência.

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