Ser gap mum ou gap dad é cada vez mais frequente

São mais pacientes, descontraídos e já sabem resolver constipações sem ir ao médico. Ter filhos com um intervalo de vários anos traz vantagens para os pais e para os irmãos
Por Rita Sanches com Vanda Marques 11 de Outubro de 2019 às 12:41

Tudo pronto para sair de casa. Filha impecavelmente vestida. Lacinhos? Check. Vestido? Check. Mas quando Teresa olhou melhor... Lá estava a nódoa de iogurte que se tinha escondido no meio do vestido da Inês. E até as bolachas esmigalhadas nos colãs destoavam do figurino. O que fazer? Voltar atrás – mesmo depois de estar dentro do elevador – e mudar a Inês da cabeça aos pés. Só depois saíam outra vez.

Agora, Inês tem 23 anos e uma irmã com 8, Margarida, que quando se suja, já não é preciso voltar atrás. Vai como está. Teresa Silva, de 53 anos, mãe das duas, diz que hoje é mais descontraída do que quando teve a primeira filha. "Vejo as coisas de maneira diferente, encaro tudo mais na desportiva." Quando descobriu que estava grávida, ficou radiante. A Margarida ia dar-lhe outra hipótese. Teresa tem a doença de Crohn, uma doença inflamatória no intestino, o que fez com que passasse algum tempo internada quando a Inês era pequena. Agora, com Margarida, podia estar mais presente e sentia-se mais preparada.

Inês está na faculdade e vive longe, é Margarida que faz companhia à mãe. Mas as irmãs continuam a ter uma boa relação. Já não é cumplicidade de amigas da mesma idade, mas as brincadeiras são parecidas. Quando estão juntas, divertem-se com bonecas e gostam de as pentear. Só que em vez de andarem às turras, quem toma conta da situação é a mais nova: é ela quem escolhe o penteado. Vantagens de terem 15 anos de diferença.

Teresa aponta outras mais-valias: Margarida é mais independente, veste-se e come sozinha. "Nem pensar em dar-lhe uma colher à boca, diz que já não é um bebé. A Inês gostava mais que lhe fizéssemos as coisas por ela", conta. Só nas birras Margarida é mais exuberante. "Mas agora sei lidar melhor com isso."

Mais pacientes e mais descontraídos. Estas parecem ser as características comuns aos pais que até já têm direito a nome: gap mums e gap dads – divorciados que voltam a casar e a ter filhos. 

Mas existem assim tantas diferenças entre ser pai com intervalo de uma década? A coach parental Magda Gomes Dias explica: "Se um pai teve um filho aos 20 e outro aos 40, vai ver que a paciência é maior. Aos 20 anos está concentrado noutras coisas, em sair com os amigos, por exemplo, ou em investir na carreira. Quando tem 40 é mais firme, objetivo e tem menos dúvidas. Coloca-se tudo mais em perspectiva."

Sónia Mascate Rosa, de 44 anos, com três filhos, concorda que hoje é mais tolerante do que há 20 anos, idade da filha mais velha, Lúcia. "Com os outros andava sempre: ‘Não façam isso, cuidado.’" Agora com o Vasco, de 5 anos, é: "Faz, mas tem cuidado."

Na verdade, agora até tem ajuda com o Vasco. Afonso, de 16 anos, é muito responsável e toma conta do irmão. Só não lhe consegue dar banho: é o momento mais difícil do dia, com ataques de reguila. Ainda assim, os irmãos também funcionam como professores. Até já lhe ensinaram a dizer as cores em inglês.

Sónia recorda que ser mãe novamente, aos 40 anos, depois de se separar, lhe levantou alguns receios, achava que não se ia lembrar de nada. Mas estava enganada. Desta vez, as noites até foram melhores. É que o pai de Vasco ajudava mais do que o pai de Afonso e Lúcia.
 

E há mais ciúmes?

Ângela Coelho, coach parental da Family Coaching, defende que os pais ficam mais bem preparados com a experiência. "Podem pensar na forma como geriram no passado determinadas situações e ver como as querem gerir agora com o novo filho", explica.

Nuno Silva sentiu isso. Com 53 anos tem um filho, André, de 20 anos, do primeiro casamento. Com a Rita, hoje com 7 anos, e com a Maria, de 5 – tudo se revelou mais fácil. Apesar de não se lembrar exatamente de como funcionavam as papas e os tipos de leite, foi uma grande ajuda para a mulher, mãe pela primeira vez. Até a resolver pequenas doenças. Nuno já via tudo com mais descontração e solucionava em casa constipações e dores de barriga. Com o André, lembra, iam ao pediatra por tudo e por nada.

O filho mais velho não vive com eles, mas tem uma relação próxima com as irmãs. Quando ele está, é o centro das atenções. E a ligação serve de treino à paciência do adolescente, que as deixa usar o smartphone para ver filmes da Disney.

Magda Gomes Dias revela que outro desafio são os ciúmes e alerta para o perigo de descurar o adolescente. "Os pais pensam que o filho já está criado, sabe estudar, vai sozinho para escola, por isso podem dedicar-se ao mais pequeno. Nada mais errado." Há que não esquecer que ele continua a precisar da atenção dos pais.

No caso das filhas de Teresa, a mãe recorda que até houve ciúmes por causa da roupa. "Quando comprava alguma coisa só para a Margarida, a Inês achava injusto." Mas foi uma fase. Ângela Coelho deixa um conselho: "Os pais podem pensar como lhes querem mostrar que os amam, que o seu lugar não está ameaçado. Fazer uma lista das coisas que amamos e apreciamos em cada um dos filhos permitirá ter presente e partilhar essa redescoberta."

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