Quando são os miúdos a mandarem nas aulas

Não há toques de entrada, nem testes. As turmas não estão divididas por idades e cada aluno escolhe o que quer aprender. Conheça outras formas de ensino.
Por Beatriz Silva Pinto 11 de Outubro de 2019 às 16:37
Aprende-se como funciona a natureza e a lidar com a frustração na horta, no meio de curgetes e alfaces. Os manuais de ensino não são obrigatórios. Em muitos casos nem existem. Até se fazem assembleias com direito a comissão especial para gerir os desacatos entre alunos. Resultado: miúdos que não aguentavam ficar sentados durante horas na sala de aulas, agora não reclamam. Conheça quatro exemplos de escolas – três privadas e uma pública (Escola da Ponte) – que fogem ao convencional e adaptam o ensino aos interesses e ao ritmo de cada aluno. O objetivo é travar a rigidez do sistema escolar – e, pelo caminho, até se aprende a subir às árvores.

Expression Alternative International School, Penamacor
Aqui os pais dão aulas
Como é que nasce uma escola internacional de ensino alternativo numa vila de Castelo Branco a cerca de 270 quilómetros de Lisboa ou do Porto? Esta é a história iniciada por Zoe Burgess. A britânica emigrou para Portugal e, descontente com o sistema de ensino, criou uma casa-escola em Penamacor. A ideia fez sucesso entre as dezenas de emigrantes da zona e evoluiu para algo maior. Hoje, a Expression Alternative International School, que abriu no ano passado, acolhe cerca de 30 estudantes de 12 nacionalidades.

Nesta escola multicultural, em que o português é lecionado como segunda língua e o inglês como primeira, os pais são uma peça fundamental. É através da participação deles que a escola oferece aulas de Alemão, Francês e Espanhol, para que as crianças não esqueçam a língua materna. Mas não só, adianta o diretor Paul Large: "Pedimos que venham à escola e que falem das suas paixões e, se possível, as ensinem à nossa comunidade." Por isso, têm pintura, ioga e dança.

De manhã, há aulas mais convencionais – de matemática, português e inglês, por exemplo. Mas não são as típicas aulas expositivas e os alunos não estão agrupados por idades. Ao invés de se basearem em manuais, os professores guiam-se pelas dúvidas e interesses das crianças. À tarde, trabalham em projetos de três a seis semanas, que abrangem todas as outras disciplinas e que culminam com uma apresentação. A individualização é o factor-chave. "Usamos as paixões dos alunos como porta de entrada para as outras coisas que queremos que eles aprendam. Imaginemos que um miúdo anda apaixonado pela sua quinta de formigas. Daí posso fazê-lo trabalhar temas como o crescimento populacional, os fatores ambientais e as classificações do reino animal." Antes de cada projeto, os professores definem objetivos para cada aluno e, no final, avaliam se estes foram cumpridos – uma tabela de avaliação que engloba, entre outros, literacia e matemática, mas também resiliência e pensamento crítico.

Os filhos de Marta, professora da escola, estudam lá desde que abriu. Tomás, de 9 anos, chegou a estar no ensino convencional. Era incapaz de estar sentado e quieto a ouvir a professora. "Era uma seca", atira o miúdo. "Aqui ele não sente que está a fazer coisas porque outra pessoa está a pedir, mas sim porque ele quer", diz a mãe. Em Penamacor, os professores inspiram-se em Montessori, Waldorf, nos sistemas educacionais neozelandês, escandinavo, de gestão democrática e tentam retirar o melhor de cada um deles.

Escola Tom da Terra, Sesimbra
Aprender na natureza
Inspirados na pedagogia Waldorf, na Tom da Terra acreditam que até aos 7 anos as crianças estão na fase das sensações e que "só vão aprender a amar e a respeitar a terra se tiverem uma relação com ela", explica a diretora Susana Pinto. Por isso, têm uma pequena horta, com tomate, curgete, alface. "O plantar, o cuidar e o colher ensina-os a ter uma capacidade de espera. E aprendem a lidar com a frustração, porque nem sempre a terra responde da mesma maneira." Tornam-se crianças mais calmas e criativas – porque, no exterior, aprendem a brincar com o que a Natureza dá.

A brincadeira livre e "não supervisionada" é a maior bandeira da Tom da Terra. Como Susana explica: "Os educadores estão lá, mas não comandam nem controlam, para que as crianças possam explorar os espaços como querem." Por isso, é permitido subir às árvores. Mas neste caso com supervisão de um adulto. No currículo da escola, inaugurada em 2008, há aulas de ioga e música e, todos os dias, são reservados alguns minutos para a meditação. Ao almoço, os pratos são biológicos e vegetarianos.

Para lá do foco no brincar, foi a "adaptação à escola sem pressas e com a ajuda dos pais" que conquistou Jordana, mãe de Noa, de 4 anos. "Há muito respeito pelos tempos de cada criança e atenção pela individualidade de cada um. A escola permite que os pais fiquem lá algum tempo com as crianças e que o horário escolar aumente de forma progressiva."

No ano passado, com a criação da Comunidade de Aprendizagem Tom da Terra com Ar, a escola abriu portas às crianças do 1º ciclo, que estão inscritas no ensino doméstico, uma modalidade em que os pais ficam responsáveis pela aprendizagem da criança que, no fim de cada ciclo, tem de ir validar as suas aprendizagens à escola pública através de um exame. Durante a manhã, vão para o Tom da Terra desenvolver um projeto. É também nessa altura que fazem o exame à escola pública.

No que toca ao método de ensino, a principal inspiração é a Escola da Ponte, explica Rui, educador e um dos dinamizadores da comunidade. Os alunos seguem um plano diário que é feito tendo por base o plano quinzenal que cada aluno negociou com o tutor. Trabalham na mesma o currículo nacional, mas ao ritmo e de acordo com as curiosidades dos miúdos. "Há aprendizagens mais valiosas do que um currículo nacional. Focamo-nos muito mais nos valores, no formar cidadãos independentes, autónomos, responsáveis e solidários", diz Rui.

Escola Scholé, Matosinhos
Cuidar das emoções
Em três anos, este é o primeiro em que a Scholé tem todas as 70 vagas preenchidas, do pré-escolar até ao 6º ano. E é com todas as 70 crianças sentadas em círculo que a manhã começa na escola de Matosinhos. Só depois é que os alunos vão para as diferentes salas para trabalharem nos projetos, que duram entre seis e oito semanas e cujos temas foram pensados por professores e crianças.

São os alunos os protagonistas na busca do conhecimento, numa sala sem carteiras individuais, para que aprendam a pedir ajuda ao amigo antes de o fazerem ao orientador. Trabalham em grupos feitos em função do nível de cada criança e de cada área de estudo e aprendem debatendo – com recurso ao método socrático, em que os alunos estão em roda a discutir um tema e os professores vão lançando questões para potenciar a reflexão. A professora Sofia, licenciada em Matemática, nunca mais foi recebida com os alunos a revirarem os olhos. "Aqui tenho a possibilidade de gerir o programa com eles de forma a ir ao encontro do que precisam e não ao que tem de ser."

Inspirados na pedagogia de projeto (complementada pelo método Montessori e a abordagem Reggio Emilia), na Scholé não se usam manuais escolares e todas fichas informativas são construídas pelos orientadores em função do projeto. Para lá das apresentações dos projetos aos pais e à comunidade escolar, há avaliações semanais, que podem ser feitas através de jogos como o Quem Quer Ser Milionário? ou até com exercícios de correspondência no quadro. Lia, de 11 anos, aprova o método: "Com os testes, tinha de estudar antes e, passado um tempo, não me lembrava da maior parte das coisas. Aqui é mais fácil de aprender, dá para memorizar melhor tudo."

Outra aposta é desenvolver as emoções. Como? Uma hora por semana, um pequeno grupo de alunos abandona os grupos de trabalho e vai brincar para uma sala de jogos. Lá, a pedagoga Fernanda foca-se nas emoções e nas frustrações de cada um. Para João, de 10 anos, este acompanhamento tem sido essencial, na opinião da mãe.

Desde que entrou na escola, há quase dois anos, mostra-se muito mais calmo e tranquilo, explica. "É um miúdo cheio de energia e aquele sistema de estar sentado três horas de manhã e duas de tarde não estava a resultar. Chorava todos os dias, estava infeliz." Foi por isso que a mãe, Joana, a conselho da pedopsiquiatra, procurou uma escola de ensino alternativo. Desde que lá está, o filho nunca mais disse que não queria ir para a escola. "É uma aprendizagem que lhe desperta interesse e que ele não entende como uma obrigação", remata a mãe que confirma que desde que aqui está tem tido sempre bons resultados.

Escola da Ponte , Santo Tirso
Acho bem ou acho mal?
Uma escola democrática, em que os alunos negociam com os professores o que querem aprender, como o querem fazer e quando serão avaliados. A Escola da Ponte, em Santo Tirso, começou a afastar-se do modelo de ensino tradicional em 1976. Este ano, como é habitual, está lotada e vai acolher cerca de 230 alunos do pré-escolar ao 9º ano – etiquetas com pouco sentido, porque ao invés de se dividirem por idades, os alunos organizam-se em núcleos (iniciação, consolidação e aprofundamento), consoante o desenvolvimento de cada um.

O foco está em formar cidadãos autónomos e responsáveis. No início de cada ano, constroem uma tábua de direitos e deveres e escolhem a responsabilidade. Ou seja, uma tarefa ligada ao funcionamento da escola, que vão assegurar até ao fim do ano.

Uns gerem o jornal, outros a biblioteca, outros tratam de organizar e calendarizar as visitas feitas à escola – que, no ano letivo passado, ultrapassaram as mil. Mas há uma responsabilidade especial: a Assembleia. Os alunos criam listas (que têm de conter crianças de todos os núcleos) e são eleitos como os deputados para a Assembleia da República. É na sexta-feira à tarde que toda a comunidade escolar se junta para assistir ao debates, em que os alunos reportam aos colegas o que andam a fazer e em que é que precisam de ajuda. Dentro da Mesa de Assembleia, há ainda uma comissão que gere os desacatos que ocorrem entre os alunos.

É também no início do ano letivo que cada aluno escolhe o professor tutor que o vai acompanhar ao longo do ano e com o qual o aluno negociará as metas quinzenais. No dia-a -dia, cada aluno é senhor de si e organiza-se como quer, de modo a cumprir o compromisso – pesquisa e recolhe informação (de manuais, livros ou com recurso à Internet), desenvolve um trabalho prático com os conteúdos e, quando sentir que está preparado, autopropõe-se à avaliação. Aliás, o aluno também pode escolher se quer ser avaliado de forma escrita, oral ou através da apresentação de um trabalho.

A autonomia é uma das palavras-chave de todo o processo. Prova disso é que nas paredes de cada sala, lê-se, a letras desenhadas, "Eu já sei", "Preciso de ajuda", "Acho bem", "Acho mal", entre outros. Abaixo, estão grelhas prontas a serem preenchidas pelos alunos, para informarem o professor de que querem ser avaliados a uma matéria ou para partilharem uma dúvida ou uma opinião.

A poucos dias do início das aulas, Margarida, de 12 anos, estava já ansiosa para voltar. Já o irmão Rafael, de 6 anos, mal podia esperar para começar a aprender a ler. Quem o conta é a mãe, Diana, que também é presidente da associação de pais. Foi o ensino personalizado e ao ritmo de cada aluno que a conquistou. Mas defende que "a oportunidade que é dada aos pais de participarem na vida da escola" foi determinante. Todos os meses, os pais reúnem-se para debater e apresentar propostas.

Mesmo que os alunos tenham de enfrentar o sistema de ensino convencional no secundário, Eugénia Tavares, gestora da escola, acredita que o essencial já foi assimilado: "Já ninguém lhes tira a capacidade de comunicar com os outros, de trabalharem em grupo, de se sentirem responsáveis pela sua aprendizagem e pela participação na vida da escola."
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