Quando as crianças recusam comer

É normal que as crianças reajam com estranheza aos sólidos. Mas há quem rejeite pão, fruta e vegetais durante anos – e precise de ajuda profissional.
Por Susana Lúcio 26 de Novembro de 2019 às 07:00

Uma pastilha. Foi a primeira coisa sólida que Rodrigo colocou na boca – tinha 3 anos. "Pediu-me a que eu estava a mastigar. Fiquei muito contente", conta a mãe, Sílvia, que registou o momento com uma fotografia. Até então, Rodrigo tinha recusado – sempre – comer qualquer alimento que não fosse triturado. A sua alimentação limitava-se a papas, iogurtes e sopas em creme, com carne e peixe.

A dificuldade nem sempre foi vista como um problema. "Nunca levava objetos à boca. Não tinha de me preocupar com moedas ou brinquedos pequenos", recorda Sílvia. "Achávamos que era muito limpinho. Sempre que a colher da sopa caía na mesa, ele ficava enojado e levantava as mãozinhas." Aos 12 meses, o desinteresse também não preocupava o médico de família, nem a educadora de infância do infantário. "Cada miúdo tinha o seu ritmo, diziam-me." A mãe continuava a oferecer-lhe pedaços de pão e fruta e esmagava batata cozida com peixe desfiado. Mas Rodrigo fechava a boca e a mãe não o forçava. "Não ficava stressada porque sabia que ele comia a sopa."

A hora da refeição é um teste aos nervos dos pais. "A alimentação é uma forma nuclear da relação dos cuidadores com os bebés", explica o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, do Hospital D. Estefânia. "É através da alimentação que vemos que o bebé está a crescer bem, é uma forma de as mães mostrarem que estão a ser boas mães."

O aviãozinho e as ameaças
Convencer os pequenos a abrir a boca de todos os meios possíveis não é uma boa ideia. "A recusa alimentar pode estar associada a forçar o alimento", alerta a pediatra Graça Gonçalves, da Clínica Amamentos. "E há várias nuances: fazer o aviãozinho e ameaçar que não come sobremesa também é forçar."

A causa pode estar na forma como são introduzidos os primeiros alimentos. A Organização Mundial de Saúde indica os 6 meses, mas a maioria dos pais opta por oferecê-los em sopas passadas. "É um erro", aponta Graça Gonçalves. "A mastigação é uma capacidade adquirida e a partir dos 6 meses os bebés podem começar a experimentar."

Com 1 ano e meio, a pediatra soou o alarme. "Pediu que se, ao fim de seis meses, a situação se mantivesse, o levássemos a uma consulta de avaliação no Hospital D. Estefânia." Foi o que aconteceu. Na consulta de terapia ocupacional, Rodrigo foi desafiado a tocar em pó de gelatina e massa crua. Recusou. "Diagnosticaram-lhe sensibilidade corporal e começou a ser acompanhado", recorda a mãe. "Há bebés que são mais sensíveis aos estímulos sensoriais em geral, aos sons, à visão, ao tato, ao paladar. Esta sensibilidade está muito centrada na boca e pode potenciar a recusa alimentar", esclarece o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva.

Na terapia, Rodrigo era incentivado a esmagar bananas e a dar de comer aos bonecos. "A intervenção passa também por dar espaço aos alimentos em casa: ir ao supermercado com a criança e escolher alimentos, preparar as refeições com ela, dar a manusear, a cheirar, pode ser que tenha curiosidade de o trincar", explica a psicóloga de Rodrigo, Francisca Azevedo e Silva.

Os problemas agravaram-se com a passagem para a sala dos 2 anos, na escola. "Só comia a sopa e um iogurte ao lanche. No final da tarde não comia o pão com manteiga que era oferecido. Quando o ia buscar, às 19h, estava cheio de fome", queixa-se a mãe. Pediu para lhe darem um segundo iogurte, mas a escola recusou. "Acharam que se tratava de uma teimosia dele. Tive de entregar um atestado da psicóloga."

A causa foi atribuída a um bloqueio. "Talvez devido ao parto complicado", conta a mãe. Mas os médicos não sabem dizer ao certo qual é a origem da dificuldade. No fim do ano passado, a situação agudizou-se. Na escola, nem a sopa, agora também com sólidos, o Rodrigo ingeria. "Ligava todos os dias para saber se ele tinha comido. Houve uma altura em que o pesei todas as semanas." A psicóloga considerava que se tinha de manter o confronto com os sólidos e, com o tempo, resultou.

No início deste ano, depois da pastilha, foi a vez do pão e do queijo. "Foi uma mudança muito rápida, porque ele aprendeu rapidamente a mastigar." Seguiram-se o feijão e o arroz. "Um dia perguntei-lhe se queria douradinhos e ele comeu. Tirei fotografias e telefonei a toda a gente a contar" – também tem fotos do Rodrigo a comer pernas de frango, farturas e outros petiscos.

Prematuros mais suscetíveis
Há crianças que recusam comer por trauma, depois de serem alimentados através de uma sonda. "Há outras com perturbações no espectro do autismo que têm esta sensibilidade e também reagem ao aspeto dos alimentos. Só comem coisas amarelas, brancas, ou só aceitam iogurtes e sandes", esclarece o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva. Também os bebés prematuros podem não conseguir sugar e engolir ao mamar. Outros têm dificuldade em mastigar por situações orgânicas: acontece se o freio da língua, a membrana que liga a língua à base da boca, for demasiado curto.

Afonso juntou as duas condições. Nasceu prematuro em junho de 2018, juntamente com o irmão gémeo, Rodrigo, e desde o início foi o mais complicado para comer. "O Rodrigo nasceu com 1,700 kg e o Afonso com 1,300 kg, mas o Afonso sempre bebeu menos leite", conta a mãe, Ana Mónica. O médico de família desvalorizou a diferença, mas Ana insistiu e descobriu que o filho tinha o freio tão curto que mal conseguia mexer a língua. "Esta criança até dentro da barriga teve dificuldade em chuchar nos dedos", explica a pediatra Graça Gonçalves. O freio era tão grosso que teve de ser cortado em bloco operatório. Depois disso, "notámos uma diferença abismal, começou a beber mais leite de fórmula", conta a mãe.

Mas aos 6 meses, Afonso recusou os primeiros sólidos. "O Rodrigo comia tudo. O Afonso tinha curiosidade, punha na boca, mas deitava fora. Às vezes puxava o vómito." Uma criança não comer aquilo que achamos que deve, defende Graça Gonçalves, "é uma das coisas mais difíceis de aceitar. Há muita pressão sobre as mães". Mas, acrescenta, "a criança é que sabe quando está saciada". Ana Mónica nunca pressionou o filho a comer. "Queria que as refeições fossem momentos agradáveis. Ele puxava o vómito e nós fingíamos que não era nada." Na creche, também pediu que não se forçassem os sólidos. Mais difícil foi lidar com as pressões dos outros. "Os avós diziam que se fosse com eles, o obrigavam a comer." Até os estranhos que viam na rua questionavam a diferença de tamanho. "Apontavam para o Afonso e perguntavam se não lhe dávamos comida."

Aos sete meses, começou a fazer terapia da fala. "Fiz alguns exercícios como fazer rodar a língua com o dedo. Mas ele não gostava." Aos 11 meses, começou a mastigar. "A brincar no jardim, pôs uma folha na boca", recorda Ana Mónica. Depois trincou um pedaço de brócolos e agora come de tudo, embora em menor quantidade que o irmão. Para compensar, a mãe oferece-lhe mais refeições ao longo do dia, mas a diferença de peso de dois quilos mantém-se. "Ele come ao seu ritmo, mas ainda assim preocupo-me: ‘Será que está tudo bem com o Afonso?’"

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