O dinheiro contado às crianças

O casal Barbosa tem cinco filhos e aversão ao desperdício. O bê-á-bá das finanças começa na infância pelos mealheiros – e sem comparações com os miúdos consumistas.
Por Raquel Lito 13 de Fevereiro de 2020 às 09:31

Lá em casa são sete – e os mealheiros fazem parte da mobília. Maria, 10 anos, a filha mais velha, nascida na crise, tem um desde os 2; no ano seguinte aprendeu a contar moedas; cedo também percebeu que as notas não saem do multibanco por magia; e que os tablets, telemóveis e afins podem ser uma "praga da desunião familiar", nas palavras dos pais.

João e Mafalda Morais Barbosa, os pais de 35 e 40 anos, respectivamente, não são agarrados aos gadgets, preferem sê-lo ao dinheiro e fazer pedagogia pelo efeito de contágio entre os cinco filhos. "Os restantes foram-se adaptando e começando a ouvir as coisas à medida que eu falava com a mais velha", conta o pai

De forma descontraída, o casal relançou o livro Como Ensinar os Meus Filhos a Poupar. No dia-a-dia, vai transmitindo em casa como funciona a literacia financeira, que tantas vezes os adultos ignoram e pagam a factura. João deixa o alerta: "Os dados são demasiado preocupantes, porque a iliteracia pode estar associada a depressões, dificuldades em dormir, criação de hábitos aditivos e falta de amor próprio. Tão grave quanto a iliteracia é a cegueira, negarmos os problemas." Uma vez que os Barbosa são antidesperdício, assumem publicamente a posição no manual gratuito, destacado na homepage do site da Reorganiza, a empresa criada por João e especializada em renegociação de créditos.

O exemplo começa em casa, defendem. Quando as crianças pedem qualquer coisa e fazem birra, os pais reagem com perguntas: "Isto é mesmo preciso?" ou "Qual é o bem que isto nos traz?". Não lhes falta nada para crescerem saudáveis, garantem João e Mafalda. Somente evitam esbanjar: "Explicamos o mais possível e de acordo com a idade de cada um [dos filhos]."

Semanada de 1 euro 
Lição número um: no acumular é que está o ganho. Maria leva o princípio à letra desde os 7 anos, idade em que começou a jogar Monopólio com os primos e a receber semanada (1 euro) aos domingos. Não só guarda o dinheiro, como faz por multiplicá-lo com pompons, colares e pulseiras vendidos no colégio. "Depois dou o dinheiro à professora, que o dá a associações de solidariedade", explica. Incentiva o irmão seguinte, António, 8 anos, a fazer desenhos para ambos venderem aos avós por 10 ou 20 cêntimos cada. E recentemente transmitiu à mãe um plano de reforma. "Diz que será aos 90 anos com 400 mil euros na conta e que só vai gastar 50 euros por semana. As estratégias dela, quando estiver reformada, passam por encher garrafões de água (não sei onde) para não ter de pagar as contas e usar velas para iluminar a casa. Tem muita graça!"

A curto prazo, a aprendiz das poupanças tenciona visitar os tios na Suíça e anda a economizar para o efeito desde fevereiro de 2017. Neste momento, está "felicíssima", acrescenta a mãe que às vezes deixa passar a semanada. Mas a filha não esquece:"O que lhe devo já dá para pagar em nota e, para ela, ter notas é quase como uma promoção. Nunca combinámos juros, apesar de a Maria já ter falado nisso a ver se pegava. Mas há regras: os pais não pagam juros, porque não é nossa obrigação dar uma semanada. É um bónus."

Lição número dois: precaver as comparações com outras crianças, que têm semanadas chorudas, pilhas de brinquedos e se agarram aos telemóveis e consolas de videojogos. O critério é rigoroso na família: nenhum dos filhos tem PlayStation. Quanto ao telemóvel, é visto como uma ferramenta utilitária. Só será atribuído quando os filhos atingirem 11 anos: "Quando começarem a andar sozinhos e precisarem dele, caso aconteça alguma coisa ou precisem de falar connosco." Nessa altura, as despesas com o aparelho serão bem controladas, como os autores sugerem no livro: se a factura for acima do previsto, propõem que o filho "pague uma percentagem razoável do valor, ou mesmo o excedente do que foi estipulado inicialmente".

Plafond para lista de compras
Lição número três: envolvê-los no orçamento familiar – essa coisa estranha para tantas famílias. João e Mafalda desmistificam a tarefa, com idas ao supermercado em conjunto com os filhos mais velhos Maria e António (apesar de mais distraído do que a irmã, já vende rifas no colégio). "Tivemos algumas experiências como definir uma lista de compras para um jantar especial e um limite máximo para gastar. Já demos 1 ou 2 euros para os fazer escolher no supermercado as gomas ou os sumos, alertando para a possibilidade de poupar parte do dinheiro", exemplifica Mafalda.

Também ela está atenta aos folhetos promocionais e gere a ementa doméstica de acordo com a descida de preços. Em relação ao vestuário das crianças, reciclam à sua medida. A fórmula? "Temos a sorte de ter uma rede espectacular de partilha de roupa que começou com os meus cunhados Joana e Diogo, que têm sete filhos e são das pessoas mais generosas que conheço. Também fui ao Kid to Kid onde encontrei roupa gira e bem cuidada a preços imbatíveis."

Orçamento infantil. Algumas medidas sugeridas no livro do casal Barbosa:
6 anos - Pode dar-lhe um mealheiro e atribuir-lhe a semanada de 1 euro, repartida por moedas de 10 cêntimos.

10 anos - Leve o seu filho ao supermercado e incentive-o a comparar preços.

15 anos - Lance-lhe o desafio de orçamentação das despesas de um evento especial, como a festa de aniversário; estimule­-o a expor ideias sobre o tema.

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