“Problemas sexuais são a sequela mais comum do cancro”

A psiquiatra do Instituto Português de Oncologia diz que a maior parte dos casos de depressão surgem um ano após o diagnóstico. E que muitos sobreviventes ficam com défices cognitivos.
Por Vanda Marques 30 de Dezembro de 2019 às 10:08

Fazer listas parece simples e prosaico, mas pode ser a salvação para muitos sobreviventes de cancro. É que uma das consequências dos tratamentos, o chamado chemobrain, resulta num défice cognitivo. O que significa? Esquecimentos e dificuldades no multitasking. Mas também há sequelas sexuais. A vida muda para sempre, explica-nos Lúcia Monteiro, psiquiatra e diretora do Departamento de Oncologia Psicossocial do IPO Lisboa, onde foi criada a primeira consulta de OncoSexologia.

Um estudo revelou que é após o primeiro ano do diagnóstico de cancro que surgem muitas depressões. Porquê?
Quando a pessoa recebe a notícia, está focada no tratamento, não há tempo para mais nada. Recebemos a maioria das pessoas na consulta de psico-oncologia já numa fase de sobrevivência. As pessoas tiveram uma atitude de combate no tratamento, estavam focadas em comer bem, em seguir os tratamentos. Tudo isso é pragmático e funcional. De repente, quando terminam, descompensam e muitas vezes têm uma depressão retardada. Porque ao retomarem a sua vida, sentem-se diferentes.

Mudou muita coisa?
Sim. E muitas vezes sentem que não são capazes de reassumir os papéis que tinham. Por vários motivos não o podem fazer. Quer seja por razões funcionais, porque têm uma dor crónica ou um braço inchado, ou simplesmente porque se acham diferentes e não conseguem assumir aquela função. Até porque cognitivamente estão um bocado deficitárias.

Isso pode acontecer?
Pode. Passam a ter dificuldade no multitasking, em fazer aprendizagens rápidas. É o chemobrain, um termo americano, porque são conceitos recentes e nos Estados Unidos existem muitos sobreviventes. É o termo que designa o impacto da quimioterapia ao nível cognitivo e que evoluiu para o cognitive impairment – a deficiência cognitiva consequente a toda a experiência oncológica.

Qual é o impacto?
É um impacto negativo. É mais relatado nas doentes de cancro da mama que fizeram quimioterapia. São mulheres com 40 ou 50 anos que vão retomar as suas funções – eram professoras, gestoras, médicas – e notam que estão diferentes, que não conseguem gerir várias coisas ao mesmo tempo.

Porque é que isso acontece?
Não temos ainda uma resposta concreta. É multifatorial. Esta deficiência cognitiva é consequente da experiência oncológica. Por exemplo, a quimioterapia, que tem efeitos ao nível da imunidade, interfere com o funcionamento cerebral. As novas drogas da imunoterapia, que têm um grande sucesso, têm consequências e também poderão ser responsáveis. Outros aspetos, como os défices de oxigénio com corticoterapia ou com opioides também contribuem para esses défices. O que pensamos é que, pessoas que já têm tendência para um processo de evolução demencial ao nível genético, ficam com estes défices mais marcados. Isto era desvalorizado pela comunidade oncológica e neste momento é incontornável. A questão é que não há um tratamento ou um medicamento para esta situação. Muitos melhoram. Mas temos quadros muito agudos.

Pode dar um exemplo?
Temos um doente, um caso raro, que fez um tratamento de quimioterapia pré-cirúrgico. Era um professor do ensino secundário e ficou com um quadro demencial, com um défice amnésico gravíssimo. Não se lembrava de nada. Houve uma recuperação parcial. Fez a cirurgia mas não vai fazer mais quimioterapia.

Qual é a consequência mais comum?
Não conseguir fazer multitasking e alguma desorientação. Por exemplo, vão no carro e não percebem bem onde estão. São assim momentos. Outro exemplo é não conseguir gerir aquelas rotinas de tomar conta da casa, das mochilas dos filhos, dos pagamentos, as funções normais que faziam antes. Têm de passar a fazer listas de tarefas. E esse é o nosso trabalho: arranjar alternativas – "Se não posso funcionar da mesma maneira, vou funcionar de outra. Vou ter de fazer listas, ter uma agenda diária." 

Uma das consequências é a mudança na vida sexual?
Fala-se muito pouco nisso. Criámos a primeira consulta de OncoSexologia no IPO e no País. Há muitos fantasmas e pudor no sexo. Portanto: sexo e cancro ainda mais complicado. Mais de 50% dos sobreviventes oncológicos têm problemas sexuais, esta é a sequela mais comum.

É assim tão frequente?
Já pensou na atratividade sexual de um homem que tem uma cicatriz no pescoço quando vai dar um beijo na boca a alguém? São situações que sempre aconteceram. A própria circunstância de saber o diagnóstico faz com que as pessoas percam a vontade de ter sexo. Até nas coisas simples a vida sexual muda, têm de usar preservativo porque o esperma pode ser tóxico. Além disso, a quimio deprime a imunidade e potencia infeções. A rádio também é altamente lesiva para a sexualidade. É um tratamento que vai lesar os vasos e os pequenos nervos. Não é imediatamente, mas ao fim de sete meses a um ano, aparece o efeito disfuncional. Existe uma consequência mais geral que é a perda do desejo. Não está diretamente relacionada com a quimioterapia mas com a vivência da doença. Pode ter a ver com hormonas, com o facto de a pessoa se sentir menos atraente, ter outras preocupações e não ter disponibilidade. Esse é o principal problema: falta de desejo.

E o mais difícil de resolver?
Sim. Implica um tratamento multifatorial. Não tem uma componente farmacológica. Temos de ter estratégias comportamentais que se usam na terapia sexual. Outra sequela é a abstinência sexual. Muitos dos nossos sobreviventes pura e simplesmente não têm sexo. 

Porquê?
Por tudo o que falámos. Por exemplo, uma sequela dos doentes de cancro da mama e do cancro ginecológico é a secura vaginal, o que vai causar dor na penetração. A relação sexual torna-se penosa e vai-se evitando até que o casal desiste. Trabalhamos muito esta área fazendo a prevenção, com o ensino de massagem, o aconselhamento de cremes.

Qual é o papel das famílias no sucesso dos tratamentos?
Havia um autor que dizia: a família é o doente oncológico de segunda ordem. Às vezes de primeira. Trabalhamos com o doente e com o familiar. Temos uma consulta para as famílias. Recebemos, por exemplo, cuidadores em burnout. Contamos imenso com os familiares no tratamento do doente. Uma situação clássica são as esposas que tomam conta dos medicamentos. Se elas ficam tristes, a não dormir, como vai ser? Os cuidadores são essenciais.

Ainda existem preconceitos em falar de cancro e até a usar essa palavra. Porquê?
É uma palavra associada ao terror. Há 70 anos não havia cura, nem grande paliação, portanto, as pessoas morreriam num sofrimento imenso. Mas, hoje, cerca de 80% dos doentes são sobreviventes. Neste momento é uma doença crónica e em algumas casos curável. No entanto, o fantasma da morte a curto prazo e do sofrimento físico inerente continua presente. Sempre que é feito o diagnóstico, as pessoas ficam aterrorizadas. Cerca de 50% das pessoas, apesar do sofrimento, consegue ultrapassar sem adoecer do ponto de vista psiquiátrico. Mas outros acabam por descompensar. Alguns têm uma perturbação de ansiedade. São experiências novas e violentas. As pessoas mudam de vida e passam quase a viver no hospital. Deixam de trabalhar, interrompem projetos, têm de deixar filhos a cargo de outros.

De que forma ajudam os doentes a ultrapassar essa mudança?
Muitas vezes tratamos sintomas de ansiedade, de depressão, de insónia, consumos patológicos ou psicose. Temos um papel de aconselhamento, no sentido de perceber quais são os medos das pessoas e ajudar nas estratégias de adaptação.

Podia dar um exemplo?
Uma pessoa que já é pessimista e tem um diagnóstico de cancro da mama, com um plano de cirurgia, de quimioterapia e rádio. Essa pessoa vai achar que a cirurgia vai correr mal, que nunca mais vai conseguir trabalhar. Traz os dramas todos, e temos de desconstruir isso. Primeiro preparar a cirurgia, e não pensar no futuro, porque isso não ajuda. O que ajuda é concentrar-se no presente. Cuidar de si: comer bem, dormir bem. Ajudamos a pessoa a evitar que a ansiedade domine a mente, porque vai prejudicar todo o processo.

De que forma vai prejudicar?
Tão simples como a atenção que se dá ao que o médico diz. Até perturba a cirurgia, porque se está muito ansiosa poderá ter de tomar psicofármacos. [E essas duas coisas juntas] podem perturbar o acordar da anestesia, porque o cérebro está a funcionar em alto metabolismo e há um acordar mais complexo. Convém que a pessoa venha serena e positiva.

A forma como se fala é também uma parte importante do acompanhamento psicológico?
Temos relatos de sobreviventes de cancro que contam que o pior momento foi a forma como o médico lhes deu a notícia. É raro isso acontecer no IPO. Quando se recebe uma má notícia, o doente fica perturbado e deixa de ouvir.

Está lá sempre um psicólogo?
O técnico de saúde mental está na retaguarda. Antigamente chamavam os psicólogos para dar as más notícias, mas é uma má prática. O médico é responsável pelas boas notícias, mas também pelas más. Há um treino para saber dar más notícias sem traumatizar o doente.

Porquê?
Não pertence à especialidade de oncologia o treino de comunicação. Temos feito esse treino no IPO. Existem mesmo programas de autores ingleses e americanos, porque é obrigatório para progredir na carreira de Oncologia. Eles regularmente fazem treinos de comunicação, com role-play. Põem-se no papel do doente e do médico.

Como é que os profissionais, que lidam com casos extremos, conseguem desligar depois de tudo isto?
Sabe que uma das indicações que damos para evitar situações de burnout – e as situações de Oncologia têm altos indicadores de burnout – é que as pessoas têm de se divertir fora daqui. As pessoas têm de se rir, conviver com pessoas saudáveis e com futuros saudáveis. 

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