“Os telemóveis são como as slot machines do casino”

Catherine Price é jornalista especializada em assuntos de ciência não tem dúvidas: empresas como o Facebook mais não estão a fazer do que a criar viciados. Escreveu um livro a explicar como é que os smartphones nos viciam quimicamente e como nos podemos “desintoxicar”
Por Marco Alves 13 de Dezembro de 2019 às 10:19
Telemóveis
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Como a própria Catherine Price diz, os telemóveis têm coisas tão boas que permitem que esteja a dar uma entrevista enquanto caminha para casa, em Nova Iorque, Estados Unidos. Mas era a segunda tentativa. Três dias antes, à hora combinada, Price não atendeu. Diria depois mais tarde, por email, que tinha esquecido o telemóvel em casa, "o que não acontece muitas vezes, apesar do que digo no livro!" O livro chama-se Como Largar o Telemóvel – Manual de Desintoxicação (editora Arena). O título sugere mais uma banal obra de auto­-ajuda, mas Price tem uma sólida carreira no jornalismo de ciência e esforça-se para traçar uma panorâmica dos estudos, artigos e teorias sobre os telemóveis. Porque é que são tão viciantes. Como estão a mudar a o nosso cérebro: como nos concentramos, como pensamos, lemos, vemos e memorizamos. E que género de pessoas os telemóveis – e muito especialmente as redes sociais – estão a gerar.

Depois, traça um plano de 30 dias e passos, que inclui tirar as notificações, voltar a ter um despertador no quarto (para que o telemóvel não seja a primeira coisa que vemos quando acordamos), desinstalar redes sociais e aplicações desnecessárias.

Como teve a ideia de fazer um livro sobre telemóveis?
Começou com uma situação familiar. Fui mãe, tive uma menina e um dia reparei que estava muitas vezes a olhar para o telemóvel e que ela estava a olhar comigo. Foi perturbador, foi um wake­-up moment. Não quero que a ideia que ela tem de um relacionamento humano seja essa. E também não queria viver a minha vida assim, a olhar para o telemóvel e um dia descobrir que a minha filha tem 12 anos. Já tinha curiosidade sobre as escolhas que fazemos para passar o tempo e o meu marido partilha o mesmo tipo de pensamento. Sabemos que por onde quer que olhemos estão pessoas a olhar para os telemóveis. Percebi que isso dava um livro, que podia ajudar outras pessoas a terem um relacionamento saudável com o telemóvel. Porque penso que é um grande problema.

O telemóvel estava a tornar-se uma coisa má na sua vida?
Não inteiramente. Em algumas coisas é ótimo. Estou a fazer esta entrevista por telemóvel enquanto caminho até casa. Usamo-lo para coisas práticas e agradáveis – como as videochamadas para falar com familiares que estão longe. Não digo que os telemóveis são maus de todo. O problema é que quando temos um aparelho que está desenhado para requerer a nossa atenção temos de criar barreiras, para nos mantermos apenas nas coisas boas e não desperdiçarmos a vida.

É agora cada vez mais óbvio que o telemóvel é como uma droga?
Sim. Quando pegamos no telemóvel ativa-se no cérebro a mesma substância que se ativa nas adições: a dopamina – mas claro que o telemóvel não lhe vai trazer os mesmos danos físicos que as drogas. Penso que a melhor comparação é com uma slot machine nos casinos. Estamos ali [no telemóvel] a atualizar, a atualizar, a atualizar e sempre que o fazemos e encontramos alguma coisa nova – e claro que há sempre alguma coisa nova… – o cérebro liberta dopamina, logo, sentimos que devemos repetir.

E se não o fizermos...
O cérebro começa a libertar hormonas de stress, por isso sentimos ansiedade quando não temos o telemóvel connosco. É porque estamos – não diria viciados – mas ansiosos por poder consultar.

A ansiedade é aquela sensação de que estamos a perder alguma coisa importante se não formos ao telemóvel, o FOMO (fear of missing out, receio de ficar de fora) de que fala no livro?
O mais engraçado é que quando estamos obcecados com o FOMO no telemóvel não percebemos que estamos a perder tudo o resto. Diria que o telemóvel causa FOMO no sentido em que quanto mais tempo passamos a consultar o telemóvel menos tempo temos para fazer outras coisas.

Diz que as empresas tecnológicas conhecem bem estas questões de dependência e que as exploram. Essas empresas nunca vão parar?
É interessante que em junho a Apple e a Google tenham anunciado ferramentas para o que se pode chamar digital wellbeing (bem-estar digital). É um reconhecimento de que os seus clientes passam mais tempo ao telemóvel do que queriam ou deviam. Penso que podemos dividir as empresas em duas. Os fabricantes de telemóveis, que querem apenas vendê-los, mas não lucram com o tempo que passamos com eles. E os fabricantes de aplicações: redes sociais, notícias, dating e jogos, que querem que passemos o mais tempo possível com o telemóvel porque querem recolher dados. Quando o Facebook diz que está a tentar criar interações mais significativas e profundas entre as pessoas, não está a mudar o seu modelo de negócio, que é criar viciados.

É engraçado como Steve Jobs e Bill Gates restringiam o uso de tecnologia nas suas casas.
É muito revelador. Se as pessoas que fazem estas coisas não as dão aos seus filhos, e se alguns executivos de empresas de redes sociais disseram, como Sean Parker, que só Deus sabe o que o Facebook faz ao cérebro das nossas crianças... bom, ele sabe!

É fascinante como as notificações que recebemos no telemóvel são semelhantes às experiências de Pavlov.
Sim, sim. Sempre que o telemóvel vibra ou toca com uma notificação é um aviso de que está lá uma recompensa.

E é também fascinante a ideia que aflora no livro de que provavelmente os adolescentes norte-americanos estão a substituir as drogas por telemóveis.
Sim, fascinante e deprimente também. E penso que é verdade, que há esta relação de causa-efeito. Basta olhar à nossa volta. Muitas vezes sinto que tenho de justificar tudo, que tenho de ter dados, que tenho de ouvir especialistas, mas na verdade basta olhar à nossa volta. Não precisamos de estudos para mostrar que os telemóveis estão a afetar as relações quando basta ir a um restaurante e ver como estão todos ao telefone e não a falar uns com os outros.

Acha que as pessoas têm consciência de que os telemóveis não são neutros, não são inocentes?
Cada vez mais, sim, mas a maior parte das pessoas não. Aliás a maior parte não tem consciência de muita coisa… [risos] Mas fico contente que se dê cada vez mais atenção a estas coisas, que cada vez mais se saiba que é a nossa atenção, que somos nós, que estamos a ser comercializados.

Tem um dado curioso no livro, quando recorda um estudo que diz que 10% dos americanos consultam o telemóvel durante o sexo.
Não sei como recolheram esses dados [risos]. Um jornalista na Austrália disse-me que lá era 60%. Não interessa muito a percentagem, é só estranho que seja acima de 0%.

Isso diz mais sobre o sexo ou sobre os telemóveis?
Depende do que estão a fazer com os telemóveis. Podem estar a ver pornografia, ou podem estar no chat com alguém. Há pouco tempo conversava com um rapaz, que me dizia que ficou em apuros com a namorada porque estendeu o braço para procurar o telemóvel, que estava debaixo da almofada. A namorada achava que ele queria pegar­-lhe no braço e ficou furiosa.

As pessoas também nunca se questionam porque é que a grande maioria das aplicações são gratuitas, pois não?
Gostava que mais pessoas estivessem cientes disso. Quando recrutei gente para fazer esta experiência de desintoxicação, o que descobri foi que para muitas destas pessoas era muito retumbante a ideia de que era a sua atenção, o seu tempo, que estava a ser vendido, e fê-las não usar tanto as redes sociais.

Correu bem a sua desintoxicação?
Sim. As pessoas perguntam-me se tenho uma relação perfeita com o meu telemóvel e eu respondo claro que não, porque ele foi desenhado para cultivar uma relação não saudável. Mas para mim a definição de sucesso é ter consciência da relação, é ser capaz de parar quando se está a descarrilar. Não tenho email no meu telefone porque percebi que se tivesse iria estar sempre a vê-lo. É um processo contínuo, e não temos de ter medo de cometer erros.

Dos pequenos passos que aconselha, qual é o mais efetivo ou surpreendente nos resultados?
Penso que é o ato de ter atenção ao que estamos a fazer. Saber o que estamos a fazer.

Tirar as redes sociais do telemóvel é outro grande passo?
Se o seu problema for as redes sociais, sim. Porque há pessoas que não ligam muito às redes sociais. Se sim, pode tirar o Facebook e experimentar. E pode voltar a colocá­-lo. Não há problema.

As redes sociais estão a tornar­-nos piores pessoas?
É uma questão complicada. As redes sociais reforçam alguns aspetos da natureza humana que não são bons. Por exemplo, o tribalismo (somos nós contra eles), rudeza (as pessoas dizem online o que nunca diriam cara a cara) e a procura de aprovação social na forma de comentários positivos e gostos. Portanto, nesse sentido, acho que podem ser prejudiciais – e, como vimos aqui nas eleições de 2016, as redes sociais podem ser usadas para balançar opiniões e votos. Isso é mau. Mas claro que há coisas boas também. Muitas pessoas dizem que passar um período de tempo limitado nas redes sociais fá-las manterem-se mais conectadas com outras pessoas. É um pouco das duas coisas.

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