“Há mais casos de cancro porque se vive mais”

João Oliveira entrou no IPO de Lisboa há 28 anos, foi diretor clínico entre 2001 e 2005 e voltou à mesma função em 2012, até assumir a presidência. O especialista em oncologia médica garante que tem havido enormes progressos no tratamento da doença, mas que faltam recursos humanos
Por Sónia Bento 25 de Dezembro de 2019 às 10:00

Prolongar a sobrevivência e aumentar a taxa de cura tem sido possível em diversos tipos de cancro, como o de sangue, da mama, do pulmão, do tubo digestivo ou do intestino. "Aprendemos a lidar com esta doença com menos angústia", afirma João Oliveira, presidente do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO). João Oliveira, de 63 anos, diz que os recursos humanos continuam a ser a maior necessidade do IPO, que realiza por ano cerca de 7 mil cirurgias, 260 mil consultas, 86 mil tratamentos de radioterapia e 33 mil sessões de quimioterapia.

Estar vivo depois de um cancro é cada vez mais comum?
Sim. Há diversas doenças em que tem sido possível prolongar a sobrevivência e aumentar a taxa de cura, sobretudo nas hematológicas, nos cancros de sangue e do sistema linfático. Os progressos têm sido enormes não só nessas doenças, mas também nas mais frequentes, como os carcinomas do tubo digestivo, do intestino grosso ou do reto. Os de­senvolvimentos da cirurgia, associada à quimioterapia e à radioterapia, têm alterado muito quer a longevidade quer a forma de viver de pessoas que tiveram cancro.

Quando fala em doenças frequentes, refere-se também ao cancro da mama?
Refiro-me não só ao cancro da mama, mas sobretudo ao do intestino grosso e também ao do pulmão, que tem tido progressos com medicamentos que permitem controlar a doença durante mais tempo.

Ao utilizar a palavra "controlar", significa que o cancro é cada vez mais uma doença crónica?
A designação de doença crónica merece alguma cautela quando classificamos tumores. O cancro continua a ser uma doença com uma grande dependência dos cuidados de saúde, a ter uma gravidade potencial e a preocupar as pessoas de uma maneira diferente das outras doenças crónicas, como as reumáticas, cardiovasculares ou metabólicas. De qualquer modo, é importante sublinhar o seguinte: de todas as doenças, com exceção das infecciosas, é na área da oncologia que há maior taxa de cura. Podemos dizer que uma boa metade dos tumores desaparece para sempre.

Mas a vida volta a ser a mesma?
Uma pessoa diagnosticada com cancro vai ter a vida modificada completamente. Pode-se muito bem viver com um passado de cancro ou com um cancro controlado, mas ser sobrevivente de cancro implica uma noção de ligação com um passado angustiante, por causa dos riscos de recidiva. A grande modificação nas sociedades ocidentais, em que Portugal se inclui, é que aprendemos a viver melhor com a ideia de cancro, os prognósticos melhoraram e aprendemos a lidar com o cancro com menos angústia.

Os casos de cancro têm aumentado?
Há mais casos de cancro porque se vive mais. No fundo, o cancro faz parte da vida. As células que se alteram de forma a multiplicarem-se e a prejudicarem o funcionamento dos órgãos são nossas e os fenómenos que dão origem a essa desregulação das células acontecem, de uma forma geral, por acaso. Portanto, quanto mais tempo estivermos vivos maior é a probabilidade de termos cancro. Nesse sentido, o aumento de número de casos tem aumentado, mas na proporção da idade, não.

Já estamos ao nível dos melhores da Europa?
Estamos. Os progressos clínicos são adotados em todo o lado, em simultâneo. Pode-se falar muito na despesa que isso implica, mas não tem sido um obstáculo.

Em 2018, a despesa em medicamentos no IPO aproximou-se dos 50 milhões. O aumento de ano para ano é porque há mais consumo ou porque os preços são mais elevados?
A despesa é cada vez maior porque cada novo medicamento é sempre mais caro que o anterior. São mais caros porque há sempre quem pague, não há nenhum país que se tenha recusado a pagar. Depois, existe uma tendência para achar que todos os medicamentos novos são os melhores e nem sempre é assim.

O IPO consegue dar resposta a tudo ou precisávamos de outro hospital como este em Lisboa?
Eu não acho que precisemos de outro IPO. Julgo que os meios que temos em Portugal, no Sistema Nacional de Saúde, são globalmente suficientes para dar resposta. Não estou a falar dos problemas circunstanciais como os recursos humanos…

A falta de recursos humanos, nomeadamente de anestesistas, é um dos maiores dramas no IPO?
O exemplo dos anestesistas é premente porque eles são necessários em quase todas as atividades que fazemos neste hospital. A atividade tradicional dos anestesistas, que é adormecer as pessoas durante uma intervenção cirúrgica, ocupa apenas 30% do seu tempo, o resto é nos exames endoscópicos, em anestesia de crianças para TACs e ressonâncias magnéticas, em tratamentos de radioterapia, na clínica da dor ou nos serviços de cuidados intensivos. 

Os hospitais privados oferecem-lhes melhores condições?
Não sei se são melhores, o que sei é que o serviço público tem tido dificuldade em fixar esses profissionais. Assim como os médicos e não só. Todas as especialidades são aqui necessárias e não se julgue que o nível de especialização é apenas dos médicos e dos enfermeiros – mais facilmente paramos um bloco operatório por uma greve dos assistentes operacionais do que por uma greve dos médicos. Para os profissionais com formação para lidar com a prestação de cuidados a doentes não é fácil ganharem o mesmo se estiverem numa caixa de supermercado. Tentamos cativá-los pelas condições de trabalho e pelo reconhecimento. Agora, é um círculo vicioso: se temos menos pessoas, os ritmos de trabalho ultrapassam o que é razoável e ninguém se sente satisfeito nessas circunstâncias.

É assim tão complicado recrutar pessoas?
São precisas autorizações várias dos Ministérios da Saúde e das Finanças. Mas a questão mais importante é que não chega substituir: é preciso arranjar quem tenha treino nas funções porque desde o assistente operacional até ao especialista clínico as competências só se adquirem com a experiência.

As listas de espera têm aumentado?
Aumentam e diminuem em função das épocas. Aliás, as listas de espera nunca foram eliminadas em parte nenhuma do mundo. A tendência de qualquer sistema é para a complicação, não é para a simplicidade. Se conseguíssemos gastar um pouco de tempo a examinar em cada caso o que é mesmo necessário, ganhávamos em efetividade e diminuíamos as listas de espera.

Qual é a especialidade que está mais saturada?
Talvez haja maior inadaptação entre os nossos recursos e a procura na área de urologia. Existe uma grande frequência de tumores da próstata, independentemente da importância deles, ou seja, nem todos são muito graves. Mas para quem os tem são da maior gravidade e é natural que as pessoas queiram ser tratadas. Há tumores da área urológica muito mais graves do que o da próstata, como o da bexiga, por exemplo.

Há algum tempo, saíram notícias de que o IPO não tinha capacidade para assegurar mamografias de vigilância a mulheres que tiveram cancro da mama. Continua a não ter?
O IPO tem capacidade para fazer a vigilância das doentes que tiveram cancro da mama. Agora, não é absolutamente necessário que seja o IPO a fazer as mamografias de todas as doentes. Há entendimentos com os centros de saúde de modo a que as pessoas sejam seguidas pelos médicos de família, sempre com o backup do IPO.

Em breve, vão ter um novo bloco operatório e uma nova unidade de transplante de medula. As restantes necessidades vão acompanhar o aumento de cirurgias?
Teremos um bloco operatório com mais capacidade, mas sobretudo com funcionalidades mais modernas e na unidade de transplante de medula vamos duplicar a capacidade. As restantes necessidades terão de acompanhar, seja em recobros ou em cuidados intensivos. Esses problemas estão a ser resolvidos. Envolve o recrutamento de pessoas, que é a maior necessidade.

Acredita que o novo edifício estará pronto no centenário do Instituto, em 2024?
Claro que acredito! Ainda não temos o financiamento completo, mas há coisas avançadas que me levam a estar otimista. O edifício novo – que ficará virado para a Praça de Espanha – vai albergar boa parte do movimento ambulatório deste hospital e custará 40 milhões de euros. Uma parte do dinheiro está assegurada.

Metade?
Ainda não é metade…

Há uns anos tudo apontava para que o IPO saísse da zona da Praça de Espanha. Acha importante que o hospital se mantenha no centro de Lisboa?
Sempre achámos que era importante o IPO ficar no centro da cidade. Ao longo de quase duas décadas, não se fizeram melhoramentos no hospital por causa da possibilidade de sair daqui. Entretanto, essa perspetiva foi encerrada e concentrámo-nos na melhoria das instalações. Temos modificado todos os serviços de internamento, que têm hoje muito mais conforto.

O IPO continua a ser o hospital que tem a mais moderna tecnologia de diagnóstico do País?
Não gosto de competições dessas, mas a esse nível temos conseguido estar no topo. Vêm doentes de todo o País para procedimentos em que somos muito especializados. No âmbito cirúrgico, o IPO continua a ter uma diferenciação invejável nos tumores digestivos, torácicos e sobretudo os de cabeça e pescoço. É difícil encontrar um conjunto de meios e capacidades profissionais superiores às que aqui temos.

  

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