Este coronavírus vai andar por aí, pelo menos até 2024

Estudo publicado pela Science prevê que o SARS-CoV-2 voltará no inverno e que vai durar cinco anos até que tratamentos, vacinas e a imunidade de grupo, o eliminem
16 de Abril de 2020 às 21:35

A revista Science publicou esta terça-feira um estudo de cinco investigadores que, usando "estimativas de sazonalidade, imunidade e imunidade cruzada" chegaram a uma previsão sombria: só daqui a cinco anos, em 2024, é que o SARS-CoV-2 deixará de ser uma preocupação. Não é, aliás, uma novidade que surpreenda os especialistas – há muito que se prevê esse cenário atendendo à disseminação global deste novo coronavírus, e às possíveis e prováveis mutações que vai sofrer.

A primeira arma já está a ser usada: distanciamento social. Mas, esta medida "pode precisar de meses para controlar efetivamente a transmissão e mitigar a possibilidade de ressurgimento".

A segunda arma virá da sazonalidade, ou seja, do Verão. É uma boa notícia a curto prazo, mas depois acaba. "Projetamos que ocorrerão surtos recorrentes de SARS-CoV-2 no inverno, após a onda pandémica inicial." Que é como quem diz, pode ser necessário, "até 2022, o distanciamento social prolongado ou intermitente".

Os autores do estudo recordam que não se sabe ainda se este coronavírus vai seguir os passos do seu irmão mais velho (o SARS-CoV-1, que provocou uma epidemia no final de 2002 - apenas 29 países e 800 mortos - e que foi contido seis meses depois, no verão de 2003), ou se vai ser sazonal como a gripe. Cada vez mais, as autoridades de saúde pública consideram esse cenário [a repetição do SARS-Cov-1] improvável". Ou seja, haverá sazonalidade – e não extinção no curto prazo.

Mais um argumento: o SARS-Cov-1 tinha uma capacidade de transmissão muito menor do que a do seu irmão de 2019-2020. Daí que embora estes dois vírus partilhem mais de 80% do seu código genético, tenham ainda assim comportamentos tão diferentes que um não pode ser encarado como o espelho do outro.

Assim, para melhor fazer as previsões sobre como o SARS-Cov-2 se vai comportar, os investigadores foram buscar o exemplo de outros coronavírus, muito menos famosos, mas com comportamentos mais idênticos: o HCoV-OC43 e o HCoV-HKU1. "As suas infeções podem ser assintomáticas ou associadas a doença leve a moderada do trato respiratório superior; e são considerados a segunda causa da constipação comum". "O HCoV-OC43 e o HCoV-HKU1 causam surtos anuais de doenças respiratórias no inverno em regiões temperadas, sugerindo que o clima no inverno e os comportamentos do hospedeiro podem facilitar a transmissão, como é o caso da gripe". Ou seja, é provável que o SARS-Cov-2 se comporte da mesma forma.

Os dados recolhidos nos EUA indicam que "tanto para o HCoV-OC43 quanto para o HCoV-HKU1, o número de reprodução efetivo normalmente atingiu o seu pico entre outubro e novembro e o seu valor mínimo entre fevereiro e maio." Ou seja, eles não desaparecem – têm altos e baixos. Os autores citam um outro estudo, realizado na Suécia, cujo modelo também aponta para uma sazonalidade deste novo coronavírus.

Restam-nos três armas – todas poderosas, mas que levam tempo. Dois deles são o tratamento e a vacina – ambos a serem testado nos principais laboratórios mundiais, sendo que a vacina dificilmente chegará em 2020.

Finalmente, há a imunidade de grupo (ou seja, mais de dois terços da população já foi contagiada e recuperou). Ainda assim, "são precisos com urgência estudos sorológicos longitudinais para determinar a extensão e a duração da imunidade à SARS-CoV-2", dizem os investigadores.

Neste momento, não há sequer um país no mundo que saiba com alguma certeza quantas pessoas contraíram o vírus, dado o carácter assintomático que pode ter. Mais: os estudos sorológicos "também podem indicar se existe imunidade cruzada entre SARS-CoV-2, HCoV-OC43 e HCoV-HKU1, o que poderia afetar a transmissão pós-pandêmica de SARS-CoV-2.". A existir, os autores preveem que os surtos sazonais serão menos intensos.

E depois ainda tem de se saber quanto tempo dura essa imunidade. Se for na ordem das 40 semanas (semelhante ao HCoV-OC43 e HCoV-HKU1), "favorece o estabelecimento de surtos anuais; se for uma imunidade a longo prazo (dois anos) favorece os surtos bienais. (…) Se a imunidade ao SARS-CoV-2 for permanente, o vírus poderá desaparecer em cinco ou mais anos após causar um surto grave."

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